Fora de Plano #12 | Verdades Símias

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Um agradecimento especial ao colega Alexandre Fonseca, que me permitiu ressuscitar e brincar com esta História sobre a estória de Deus e os macacos.

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Em 2011, um certo professor, historiador e estudioso de religiões ocidentais e orientais teve um pequeno problema com o pai de um aluno do Ensino Fundamental II. O foco da contenda foram as aulas sobre o surgimento do Homem e do Universo.

Foram semanas de uma quase-Inquisição por parte dos pais do pequeno rebento que, presente durante algumas “reuniões”, se constrangia assustado da postura bestial dos genitores frente ao jovem professor, clamando para ele os círculos e fogos mais fedorentos e quentes do inferno.

Tratava-se de uma família de cristãos que viam no diálogo uma “armadilha de satanás”, uma “seta maligna para enganar os santos” e requisitavam aos brados que o jovem historiador ‘desdissesse’ tudo sobre o evolucionismo e deixasse claro para as pequenas cabecinhas das crianças que Adão, Eva, Aldo e Ivo (bem, quer dizer…) foram os pilares da criação da humanidade e que de fato, no princípio, criara Deus os céus e a terra.

Mas não houve luz.

Temendo pelo futuro de sua genealogia, os pais mandaram um sacerdote conversar com o professor. Perguntado pela coordenação do Colégio se aceitava o encontro com o religioso, o professor assentiu. Quem sabe fosse possível chegar a um ponto interessante de diálogo e que tanto os devotos da família quanto o sacerdote entendessem que educação laica não é Catequese, Escolinha Dominical, culto ou missa das crianças. Mesmo que citasse o lado bíblico para a criação, não era papel do professor levar isso adiante todo o restante ano, comentando a História da humanidade à luz da ‘Palavra’. Até porque o Antigo Testamento não é o conjunto de livros mais doces, sóbrios, pacíficos, coerentes, compreensivos e humanitários de todos os tempos, não é mesmo? Só no primeiro bloco de histórias são 3 genocídios, sendo um deles o do planeta inteiro (à exceção de uma única família, é claro!).

E então o encontro aconteceu. Jovem professor herege e sacerdote advertido pelos pais de uma criança sobre a danação do “mestre ateu”, juntos, pela primeira vez, na tela da Globo (#SQN). Uma sala bem iluminada do colégio com um quadro pequeno de um homem com bigodinho, chapéu-coco e bengala – que deve ter confundido o pobre sacerdote. Café e água em uma bandeja próxima.

Os dois homens apertaram as mãos e se sentaram.

__ Professor — começou o mais velho –, eu vim aqui porque um membro de nossa Comunidade me contou sobre o que você está ensinando às crianças em suas aulas. Vou direto ao ponto. O filho do irmão Antônio disse que em suas aulas de História foi ensinado que não foi Deus quem criou o Universo e o Homem, mas sim o Charles Chaplin.

O professor ajeitou os óculos e conteve um longo suspiro misto de riso.

__ Senhor, deve haver um engano. Veja bem, eu jamais diria isso. Primeiro, porque o Charles em questão é outro. Não o Chaplin, mas o Darwin. Ambos ingleses, é verdade. Mas um era cineasta e o outro naturalista. Segundo, porque Charles Darwin não criou e não disse ter criado o homem. Entenda: ele apenas codificou a teoria evolucionista que afirma que nós, humanos, somos fruto de um longo processo de seleção natural e sucessivas mutações a partir de ancestrais que viveram a centenas de milhares de anos.

__ A conversa e explicação não me é estranha, professor. O senhor tem noção de que com essa aula as crianças acabam entendendo outra coisa? E não me pergunte que coisa é essa. Sem florear a questão ou dar explicações científicas, ambos sabemos que o senhor está falando que o homem deriva do macaco.

O professor franziu a testa.

__ Bem, quanto ao senhor, não posso dizer, mas eu não vim do macaco. Homens e macacos são biologicamente parentes. O senhor sabe o que é isso, não? Quer dizer que ambos têm um mesmo antepassado remoto, mas seguiram trajetórias evolutivas diferentes.

__ Professor, eu já ouvi isso dezenas de vezes e de pessoas diferentes, mas ninguém nunca me explicou como isso é possível. E certamente o senhor sabe que não estou entre os que acredita nessa bobagem.

__ Caro Sacerdote, o senhor tem primos?

__ É claro que eu tenho primos, professor.

__ E eu posso afirmar, então, que o senhor veio deles?

__ Lógico que não!

__ Então! É mais ou menos isso. Macacos e homens são primos.

__ Professor, se a sua teoria estiver correta, para que homens e macacos sejam primos, os antepassados deles devem ter… ter… o senhor sabe…

__ Não sei não senhor. Seja mais claro, por favor.

__ Ora, professor, devem ter se relacionado sexualmente.

__ Senhor, eu disse parentesco biológico, não necessariamente consanguíneo! Certamente o senhor já ouviu falar em genética, DNA…? Alguém já lhe contou que entre nós e os chipanzés há uma coincidência genética de mais de 90%? E que entre nós e os ratos é quase isso também?

__ Sim, já ouvi falar. É por isso que usam os pobres bichinhos como cobaias nos laboratórios. Mas então, pela sua teoria, nós podemos ter vindo dos ratos também?

O professor sentiu o diafragma se contrair como um centurião romano.

__ Exato, meu caro. Podemos sim. Mais especificamente de um rato criado por um certo Walt D…

__ De quem?

__ Nada senhor, esqueça.

O sacerdote pegou a Bíblia que estava à sua frente e olhou um pouco ameaçador para o herege professor.

__ Bem… Professor, o senhor já leu a Bíblia? Porque um conhecimento fora dos livros científicos poderia dar uma versão mais ampla para o senhor sobre essa questão. Sabe, uma mudança de ares, um novo olhar…

__ Mas senhor, eu já li a sua Bíblia judaico-cristã. Assim como li o Corão, o Livro dos Espíritos, a Teogonia de Hesíodo, textos da mitologia egípcia, iorubá, tupi-guarani, inca, asteca… Todos trazem um relato diferente sobre a criação do mundo e do homem. Na minha aula, antes de expor a teoria evolucionista, eu comentei sobre as várias hipóteses criacionistas e usei alguns destes relatos, inclusive o bíblico. Mas cabe a pergunta: qual deles é o verdadeiro? Nenhum deles é? Todos são?

__ A verdade foi revelada pelo Deus único, por meio de seu filho, Jesus Cristo. Se o senhor tivesse lido com atenção o livro do Gênesis e tivesse fé, certamente não estaríamos tendo essa conversa, professor. O Verbo se fez carne para nos mostrar a verdade. E essa é a verdade, professor.

__ Verdade? Qual verdade? O que é “A VERDADE”? Pôncio Pilatos fez essa pergunta a Jesus, e o senhor se lembra o que ele respondeu?

__ Nada.

__ Exatamente, nada! Ele se calou! Está lá. Na sua Bíblia.

__ A Bíblia não é minha, professor, é a palavra de Deus, por favor, tenha mais respeito.

__ Tampouco a Teoria Evolucionista é minha, como o senhor se referiu. É de Darwin. Portanto, exijo igual respeito.

O sacerdote e um cansado jovem e herege professor se olharam firmemente. O mais velho prosseguiu.

__ Você realmente considera Charles… Darwin superior a Jesus Cristo?

__ Não senhor. Na verdade, acho que Charles… Chaplin é superior a ambos.

__ O quê???

__ Senhor, vamos supor que o menino, filho do casal de sua Comunidade, esteja certo (se é que ele disse isso mesmo), e Charles Chaplin tivesse criado a humanidade. Provavelmente, seríamos muito melhores do que somos hoje.

__ Professor, o senhor está zombando de mim?

__ De forma alguma. Estou lhe dando razão. Darwin falhou. A teoria evolucionista não funciona. Pelo menos não para todos.

O sacerdote pareceu incomodado. A conversa quase parecia ter chegado ao fim. O jovem herege professor pegou a segunda xícara de café desde que a conversa começara e ofereceu ao sacerdote, que recusou. O religioso seguiu com a palavra.

__ Professor, algo me ocorreu… por que só os homens evoluem, segundo esta teoria? Se todos são criaturas de Deus, “evoluir” não deveria ser um privilégio de todas as criaturas?

__ Mas isto não é verdade, senhor. Todos os seres vivos evoluem. A diferença é que, devido a algumas condições peculiares à nossa espécie, adquirimos o privilégio de evoluir rápido e de interferir no nosso processo evolutivo e no dos outros seres. Graças à tecnologia, hoje podemos modificar e até criar espécies em laboratório e também, infelizmente, provocar a extinção de outras. E… bem, pelo jeito que as coisas caminham, a nossa própria extinção.

__ E que condições peculiares são essas?

O professor lembrou-se de um certo curta-metragem de Jorge Furtado.

__ Basicamente o uso do polegar, a capacidade de raciocínio e o desenvolvimento de formas mais complexas de linguagem. Sem o polegar o senhor não conseguiria manusear a sua Bíblia, por exemplo. Sem o raciocínio o senhor não compreenderia o que nela está escrito. Sem a linguagem o senhor não conseguiria transmitir a palavra aos seus fiéis. Percebe?

__ Faço tudo isso porque minha vida é inspirada pelo Espírito Santo, professor. A dos macacos não são.

__ Ainda bem!

__ O que o senhor quis dizer com essa exclamação sarcástica?

__ Senhor, os macacos, os cães, os dinossauros, as minhocas, as amebas não precisam do Espírito Santo para viver. Nós precisamos porque fomos nós quem inventamos esses personagens, símbolos e religiões para nos dar conforto, respostas para coisas difíceis e esperança de que pelo menos em algum lugar as coisas serão melhores!

A conversa prosseguiu até um ponto em que o sacerdote voltou a falar sobre a “super-evolução” do homem e a “evolução mínima” de outros animais. Os macacos voltaram à cena.

__ Segundo a sua lógica, professor, se os macacos também evoluem, pode ser que algum dia venham a se tornar seres religiosos, falantes e pensantes como nós?

__ É possível, mas improvável.

__ Por quê?

__ Porque eu não creio que os nossos primos cometessem os mesmos erros que nós cometemos.

O religioso suspirou, quase ofendido.

__ Professor, o senhor é ateu?

__ Não.

__ Então o senhor crê?

__ Não.

__ Como o senhor se define?

__ Agnóstico.

__ A palavrinha da moda e esquiva para se dizer que é ateu, não?

__ A definição é sua, senhor. Por um lado, eu seria muito soberbo se dissesse religiosamente que Deus não existe, porque não tenho como provar isso empiricamente. Mas, por outro lado, a ciência ainda não me ofereceu provas da existência de Deus. Então, prefiro me abster do assunto, por falta de conhecimento palpável a respeito.

__ É como eu disse. Mais um jeito sofisticado de se dizer que é ateu.

__ E se eu fosse ateu? A Constituição me reserva esse direito. Há algum crime nisto? Eu seria um ser humano pior do que o senhor ou daqueles que creem?

__ Pior não. Mas estaria longe da salvação. E de certa forma, longe de encontrar a si mesmo no Universo criado por Deus.

__ E quem lhe disse que eu quero ser salvo? E seu eu quiser apenas continuar dando as minhas aulas em paz “e que tudo mais vá pro inferno”, como cantava o Rei?

__ Rei? Que Rei? Professor, o senhor tem uma péssima forma de conduzir uma conversa.

O professor voltou a ter espasmos internos. De repente ele preferiria passar um mês de madrugadas inteiras corrigindo provas.

__ Senhor, por favor, me desculpe, mas eu tenho que voltar à sala de aula. Meus alunos me aguardam.

__ Claro, professor. Conversarei com o irmão Antônio a respeito da nossa reunião. Penso que não é saudável o filho dele continuar a ouvir suas explanações da história das criações de Deus… Mas antes de ir, posso lhe fazer um convite?

__ À vontade, senhor.

__ O senhor gostaria de comparecer à uma celebração de nossa igreja?

__ Com todo prazer, desde que o senhor também me faça um favor.

__ Pois não. Qual?

__ Assista a Luzes da Ribalta.

__ Sim, assistirei. Mas do que se trata?

__ Nada demais. É apenas um documentário sobre a vida dos macacos.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.