Fora de Plano #13 | O Menino que não Quer Ser Herói

Let me go
I don’t wanna be your hero
I don’t wanna be your big man
just wanna fight with everyone else

 

I – A Filosofia

Mason olha para cima e vê o céu:

O perfume do frescor de um nascimento – nesse caso, o nascimento de um filme – é sutilmente assoprado diante de nossos olhos: pode parecer que não, mas estou falando da primeira cena de Boyhood, na qual um Mason criança, deitado na grama, olha para o céu.

Esqueçamos de nossas ideias pré-concebidas do que é sentimento x sentido. Consideremos, assim, que a essência do perfume não seduz ao olfato, mas sim à visão (explico o equivalente de tal sedução ->), como quando vemos a Beleza representada numa imagem de plasticidade incomparável.

Destaquemos que, nessa desconstrução/reavaliação dos sentidos, o perfume pode ser visto por nossos olhos. Mas não como os olhos veem as coisas: ele pode ser visto da mesma maneira que o nariz o “enxerga” ao decodifica-lo. Sensação X Sentido X Sentimento, tudo se mescla. O perfume é aparentemente invisível, mas para provocar tamanho prazer ele só pode ter sido, de alguma forma, visto: sempre existem outras maneiras de se ver as coisas.

Isto é, quando o sentido entra em contato com o sentimento, em campo minado de sensibilidade aflorada, os dois se confundem. O campo minado de sensibilidade aflorada é a sala de cinema em que Boyhood é projetado. O sentido e o sentimento que se confundiram é o resultado direto da harmonia que casou os 12 anos que se passaram durante a produção do filme e os 12 anos que vemos passar em cerca de duas horas e quarenta.

Assim, ao vermos o céu (que serve de abrigo para o título: “Boyhood”) e, logo em seguida, testemunharmos Mason contemplando o mesmo, temos dois planos que, – deixe-me adaptar os termos estabelecidos por Eisenstein em O Sentido do Filme – encadeados, formam a essência do perfume o qual, como vocês leram mais acima, batizei de “frescor de um nascimento”.

Vejam só: eu chamo essa percepção metafórica de perfume, pois o céu e Mason deitado na grama não são duas imagens de beleza admirável, que nos estimulam do ponto de vista plástico. Mas aí é que está a questão: quando desligados do compromisso com o teor explícito do belo, estamos aptos a absorver e aceitar uma Beleza que só chega para nós através da ampliação de nossa sensibilidade. O Cinema Sensorial nos dá uma forcinha, por assim dizer, mas precisamos estar cientes de que os sentidos compõem o nosso ser, e nada têm a ver com Cinema.

Por isso afirmo que o perfume só ”aparece” para quem é capaz de vislumbrar uma miríade de possibilidades do belo numa cena em que um garoto de 6 anos de idade olha para o céu (e se formos parar para pensar, metaforicamente é esse o papel desempenhado por Mason durante todo o filme: olhar para o céu de cada experiência vivida e se deparar com inúmeras possibilidades, às vezes tantas, que chegam a se anular – e para ele parece não haver caminho a seguir).

O “frescor de um nascimento” é o perfume da primeira cena. Mas existem muitas outras fragrâncias que são assopradas para nós no decorrer do filme. Ver-para-sentir cada uma delas é o que faz da experiência a preciosidade que é. Pois que, sentir e enxergar estes perfumes é compreender com os sentidos, e não com a razão!, o que está além da tela do Cinema.

II – A Prática

O filme que há (delimitado e presente) na tela e o filme que há (abstrato e invisível) fora da tela:

Boyhood tem narrativa, mas é o que chamo de Narrativa Tímida: aquela que não mostra a que veio e nem faz questão de mostrar. Os detratores afirmam que no filme não há um plot identificável, portanto, não há plot algum. E é a mais pura verdade! No entanto, indo de encontro à direção apontada pelas insensíveis pré-concepções do que é Cinema dessa galera, penso que esta é uma decisão acertadíssima por parte de Linklater: a Vida não tem plot. Como aproximar um Filme – que carrega em si diversas vidas moldadas e emancipadas pelo Tempo – da própria Vida, se não através do estímulo Sensorial em detrimento do maquínico-e-invasor-aglomerado-de-técnicas-endiabradas que a pressão da Narrativa convencional impõe a uma obra?

É possível descobrir significados vários (que muito têm a ver com nós mesmos e nossas experiências de vida) no olhar de cada criança para o que está acima; no olhar de cada jovem para o que está abaixo. Linklater compreende isso… e nos dá a chance to experience it na sala de cinema.

Estou falando de algo que vai muito além da técnica; do plano sequência impecável. Estou falando de quando o que está na tela nos transporta para o que não está nela; quando há uma aproximação com a Vida que vivemos e um distanciamento do Cinema enquanto espetáculo, enquanto um ser à parte. O aparente descompromisso da narrativa de Boyhood é o responsável por nos provocar de tal maneira: porque nos provoca sem dizer que está nos provocando, como o cotidiano!, que é uma espécie de provocação muda que grita esfuziante em nossas almas. A narrativa não se comenta, ela simplesmente flui!

Não é difícil entender por que Boyhood é alvo fácil para os assíduos praticantes da crítica superficial. A estética do filme não proclama o famigerado “sou uma obra de arte” o tempo todo, como muitos filmes fazem. A estética na verdade desaparece dentro da experiência que passamos com o filme. Ela não se mostra, passa despercebida.

A proposta é uma verdadeira revolução. 12 anos aconteceram, de fato, fora da tela – e eles aparecem na tela!, é muito louco pensar nisso. Os 12 anos estão lá! As vidas em 12 anos estão lá! Ainda assim, essa proposta é subestimada; muitos tentam desmerecer o filme com argumentações vazias que se baseiam nela.
A novidade assusta, é a mais pura verdade, e quem fica assustado não pode fazer nada a não ser atirar argumentos nonsense para todos os lados.

Mas não se deixem enganar! Aqui, a trilha, a montagem, a fotografia, o roteiro – elementos cinematográficos – trabalham em conjunto, a favor de descinematografar (perdoem o neologismo, não pude evitar) a experiência, aproximando-a ainda mais do coração do espectador.

Os filmes costumam usar a linguagem para dialogar com o espectador, ainda que de maneira sutil e indireta – é através desse diálogo que ocorre o estímulo que faz com que reajamos a cada guinada da narrativa. Boyhood dialoga com o Tempo, mais especificamente o Tempo compreendido pela estória do filme. Por esse motivo, não há busca por efeitos artificiais, mas sim por aqueles que podem ser atiçados dentro de nós. Assim, através da aparente indiferença – em termos de euforia narrativa – de Linklater para com o espectador, ele nos atinge em cheio com seus minimalismos.

O que nos leva novamente ao personagem principal: Mason “não faz nada”. É “blasé”. Não possui nenhum atrativo. Porém, a verdade é que a maioria dos adolescentes não possui atrativo algum e, se o possuem, é apenas diante de seus próprios olhos. Quando fazemos a retrospectiva, entendemos o quão passivos nós éramos; o quão dependentes de estímulos diversos para nos tirar de nosso estado de letargia. E podemos considerar a tal letargia não apenas nos termos da do personagem retratado: ele claramente possui ambições artísticas (embora não saiba ao certo sobre o futuro), mas tem dificuldade de se relacionar e se comunicar com as pessoas. Sobre os jovens em geral podemos dizer ainda que existe o caso do que se “encaixa” perfeitamente bem, vai a todas as baladas, se relaciona sexualmente o tempo inteiro… mas não tem diretrizes para um futuro e só pensa no agora. Por fora, sua vida extravagante poderia denotar agitação, no entanto o seu interior é pura letargia, porque para ele o Futuro, ou mesmo o amanhã, não existe, nem sequer lhe toca com a pontinha dos dedos.

Essa é uma questão que fica aberta: Boyhood é expositivo e tem caráter universal, embora não pareça ambicionar fazer de Mason o retrato fiel de qualquer tipo de adolescente. Ele é na verdade uma personalidade intrigante que, justamente pelo fato de não se conhecer e manter-se em silêncio boa parte do tempo, nos serve como um espelho no qual nos vemos diferentes – e, no reconhecer de cada diferença, podemos enfim formar nesse espelho a nossa própria imagem… mas isso depende dos nossos olhos!

O que há de extra-ordinário em Boyhood não nos é explicitado em obviedades mil – artifícios tão usados pelo cinema hollywoodiano: não há nada de muito emocionante acontecendo, tanto do ponto de vista imagético quanto do ponto de vista verbal. Mas há momentos de introspecção que indicam – sutilmente – ao espectador uma mudança no estado de espírito de determinado personagem, uma revolução silenciosa que ocorre no seu interior. Mason olha para cima e vê o céu. O que nós, espectadores, vemos, é o céu e, logo em seguida, o garoto deitado na grama. Por fim, a junção desses dois planos musicados pela melodia quase infantil de Yellow, do Coldplay, nos convidam a adentrar no estado de espírito do garoto; e esses elementos juntos despertam a nossa sensibilidade para com o que há no interior de cada personagem, cada frase não acabada, cada tédio compartilhado… estamos “armados” de uma sensibilidade extra, ou seja, desarmados de nossas pré-concepções do que é o emocionante, para que possamos embarcar nesta viagem de doze anos em duas horas e quarenta minutos.

O fato é que as pessoas têm preferencia pelo Espetacular em detrimento do Introspectivo, pois o Introspectivo remete à ideia de solidão misturada ao tédio, e isso causa a sensação de vazio que, por fim, leva ao medo: reconhecemos nossas vidas tediosas e sem objetivo naquelas imagens fiéis do cotidiano. Não tem nada mais amedrontador que procurar espetáculo e encontrar um espelho. Queremos ir ao cinema para ver algo que nos tire do chão, nos dê a adrenalina de uma montanha russa (seja de ação ininterrupta ou de sentimentos óbvios, exacerbados e bem definidos); nós buscamos o over, a sensação física do voar. Em Boyhood ocorre o contrário: ficamos ainda mais presos ao chão.

Dito isso, é essencial entender o papel daquelas familiares figuras que surgem vez ou outra no filme, o Harry Potter, o Bush, o Obama, a Lady Gaga como elementos visuais/sonoros/sociológicos que compõem o Tempo. Em Boyhood há esse entendimento e ele é usado em prol da narrativa, que é a narrativa do menino, da mãe e do Tempo que os perpassa. Os célebres personagens citados são todos componentes do Zeitgeist de cada época retratada, enquanto Mason, a mãe e os demais personagens ordinários de Boyhood são os componentes do Zeitgeist do próprio filme – que já é, ele mesmo, marco e reflexo de uma época.

O filme não se mantém constante: emula uma criança, que desabrocha pra vida na tela diante de nós. A obra tem a ousadia para moldar seu estado de espírito conforme o aging and growing de seu personagem principal. Assim, no início a despretensão é grande e remete, na atmosfera, a um filme infantil, das trivialidades no videogame, passando pela irmã pentelha fã de Britney Spears, até a disputa pela atenção do pai. Mais tarde fica mais denso, embora não perca a ternura: há heartbreaks, incapacidades expostas; reflexões sobre o mundo no qual os personagens estão inseridos. A cena inicial é um céu aberto, seguido de um diálogo sobre moscas. A cena final é um pôr do sol melancólico e libertador, que serve de plano de fundo para ”existencialismos” sobre aproveitarmos o momento… ou o momento nos aproveitar. Neste final, é importante observar que Mason dá uma olhada discreta para a câmera, testemunha-mor da transição criança-jovem do garoto, e sorri, como quem nos diz, com a sabedoria da Juventude Extasiada: “viram só o que o Tempo faz?”. E então Linklater corta para a tela negra, e correm os créditos finais: o filme cresce e amadurece com Mason. O Tempo de Mason (enquanto menino-homem) é o Tempo de Boyhood (enquanto Cinema).

(Talvez esse texto diga mais sobre mim do que sobre a obra de Linklater. Mas isso é natural, pois estamos falando de um filme que não faz uma elegia de si mesmo; seu interesse é em nós. Isto é, trata-se de um filme altruísta, que nos emociona não por sermos egoístas, mas por sermos indivíduos: indivisíveis e vivos).

III – A Conclusão

No Meio do caminho tinha um Oscar. Tinha um Oscar no meio do caminho:

Enquanto Birdman é uma sucessão de cenas-espetáculo, Boyhood não possui em si nada que, separadamente, implore para ser visto mais de uma vez, pois o ato de separar/isolar uma cena faz com que ela perca seu brilho. O segredo está justamente no todo, que é muito maior que a soma das partes. Trata-se da mesma noção que rege a própria vida: a de que, não importa quantos anos você viva, a tua existência sempre valerá mais que as somas dos momentos que você acumulou. Boyhood precisa ser lido e visto e sentido nesses termos. É o que o torna tão diferente e especial. Além de um Cinema que se preocupa de fato com o Sensorial, é um Cinema-coragem que se permite ser entendido como uma Vida que Passa Diante de Nós. Em suma: enquanto blockbusters extravagantes, narrativas Syd Fieldianas e Birdmans endiabrados passarão, Boyhood… passarinho.
(e quem sabe, refrescante seja o Destino!, sua trajetória realce a irrelevância do Oscar 2015 no meio do caminho).

Mason doesn’t need to be your hero, after all.

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).