Fora de Plano #25 | Como Me Apaixonei Por Eva Ras

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Ou… crônica da minha cólera iugoslava na 40ª Mostra SP

O dia 23/10/2016 entrou para a minha História como “o dia em que eu percebi que tinha sido amaldiçoado cinematograficamente“. Neste dia eu assisti 6 filmes. Um era excelente. Outro muito bom. Os outros quatro… melhor não dizer. Falarei, porém, do pior deles. Mas antes, o começo de tudo.

Eu acompanho a Mostra SP como espectador desde a sua 29ª edição (2005), e como crítico, desde a sua 35ª edição (2011). Ao longo desses anos, é claro que eu já vi muitas coisas ruins na Mostra. Mas nenhuma, até o presente momento (madrugada do dia 24 de outubro de 2016) se assemelha ao nível de preguiça e inutilidade que foi o filme Como Me Apaixonei Por Eva Ras, primeiro longa-metragem do cineasta português André Gil Mata.

No dia em que eu assisti a este negócio, 23/10/16, eu já estava enfurecido com a organização da Reserva Cultural, na Av. Paulista, porque tiraram a única sessão possível, para mim, de ver Guerra do Paraguay (Luiz Rosemberg Filho, 2016), um dos primeiros longas que coloquei na minha lista da Mostra deste ano. Ainda estou fazendo mandinga aos orixás de Asgard, no Tártaro dos Novos Deuses, para que ele entre na repescagem. Vamos ver. Mas voltando a Eva Ras.

Depois de ter perdido a sessão de um filme que eu queria muito assistir, fiquei sentado na escadaria do prédio da Gazeta, porque não quis assistir ao longa que colocaram no lugar de Guerra do Paraguay. Peguei minha cortesia e fiquei ali rascunhando a crítica de A Garota Desconhecida, no bloco de notas do celular, e tomando sorvete, apesar do frio (e pela minha tosse de hoje, parece que não foi uma boa ideia…).

Quando enfim deu a hora da sessão de Eva Ras, entrei todo pimpão na sala. Vocês que acompanham o PC, sabem que eu sou professor de História, Geografia e Sociologia, logo, obras que têm a ver com momentos históricos, resgate de memória, alterações de ordem geopolítica e cultura/ideais de diversos povos através do tempo me interessam muito, tanto como profissional e estudioso desses temas, quanto como alguém interessado em conhecer mais variações disso na sétima arte. Agora imaginem a minha alegria quando eu leio esta sinopse aqui, na semana anterior ao início do Festival:

Em Sarajevo, em uma cabine de projeção de cinema, vive Sena, que todos os dias, solitariamente, exibe alguns filmes iugoslavos cujas cópias ainda resistem. Por meio do silêncio, dos gestos diários e das películas projetadas, cria-se uma obra sobre um dia na vida de Sena. Os filmes apresentados por ela nos levam a uma jornada à memória pessoal e coletiva, homenageando muitas atrizes iugoslavas, como Eva Ras.

Jornada cinematográfica? Produção cultural na antiga Iugoslávia? Memória pessoal e coletiva? Como assim eu não iria escolher esse filme? Eu imaginei ser um docu-drama, uma película que fosse acrescentar uma boa discussão sobre o cinema daquele caldeirão de culturas e povos que depois se partiria em muitos pedaços. Mas o que eu vi foi uma espécie de filme erótico para cágados conquistarem as lesmas mutantes de Lentilândia, o país mais lento e sem sentido de Preguicite Super-Hiper-Mega-Master-Blaster-Plus-Advanced-Nonsense, o planeta onde este filme provavelmente terá algum valor.

É como se o diretor André Gil Mata tivesse acordado, em uma bela manhã e…

[Interior. Quarto parcialmente escuro.

PLANO GERAL em um quarto, a partir dos pés da cama. André está deitado, se mexendo. Ele acorda de vagar e a câmera se move 45º para a esquerda, e depois aproxima o foco, para destacar André em PLANO MÉDIO. Ele esfrega os olhos e fala sozinho, bocejando. Algumas das coisas que ouvimos é…]

__ … que eu to sem ideia para fazer um filme, acho que eu vou pegar um montão de cenas de filmes da Iugoslávia, vou continuar filmando coisas aleatórias e sem sentido na sala de projeção, vou colocar uma mulher em silêncio, tomando chá por 5 minutos na tela, e vou fazer algo tão lento, mas tão lento, mas tão lento, que vai fazer vergonha até para Béla Tarr.

[Corte]

Só que o nosso querido amigo André se esqueceu que na lentidão de Tarr existe sentido. Ele conta uma história ou nos dá fragmentos dela. E jamais tem preguiça de criar. Isso, nunca. O que temos aqui em Como Me Apaixonei Por Eva Ras é justamente o oposto da criação. É a mais completa e absoluta falta de vergonha na cara de um diretor, que pegou trechos de filmes, alternou com cenas de coisa-nenhuma, colocou créditos e mandou para Festivais, assim, super de-boa-na-lagoa, achando que estava abalando. Só que não.

É inacreditável que a organização da Mostra tenha colocado esse punhado de pseudo-dadaísmo + pseudo-niilismo + proto-metalinguagem para nós. Uma vergonha sem tamanho. A única coisa positiva que este filme me trouxe foi um bom páreo para os outros dois piores filmes que eu já vi na vida, Skyline e Os Trapalhões na Guerra dos Planetas. E, por tabela, a vontade de procurar filmes de verdade da antiga Iugoslávia para ver.

Como me Apaixonei por Eva Ras (Kako sam se zaljubio u Evu Ras) — Portugal, Bósnia-Herzegovina, 2016
Direção: André Gil Mata
Roteiro: André Gil Mata
Elenco: Sena Mujanovic, Dragan Kostic, Sasha Skoko, Nur Coric, Tija Zubanovic
Duração: 74 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.