Fora de Plano #28 | Madonna – A Mulher do Ano (2016)

“Devemos começar a apreciar o nosso valor”, apontou Madonna, durante o discurso que eclodiu como um hino nas redes sociais e aplicativos durante algumas semanas do mês de dezembro. A tradicional revista Billboard, uma referência no âmbito da cultura fonográfica pop contemporânea, premiou a artista com um troféu de Mulher do Ano. Diante da homenagem, eis que surge a indagação: o prêmio foi devidamente entregue? As respostas, caro leitor, você encontrará justificadas ao passo que esta reflexão avança, mas adianto, sem muitas delongas, que sim. E um sim com letras garrafais.

Ao longo dos seus 34 anos de carreira, Madonna mostrou-se como um personagem dramatúrgico que evoluiu e hoje pode ser considerada uma referência no mundial no campo da cultura. A artista que já passeou por diversos campos da produção cultural (música, fotografia, cinema, teatro, dança) possui uma característica camaleônica que a diferencia das suas colegas de geração, das artistas femininas anteriores, bem como das celebridades que tentam dar continuidade ao seu legado: a capacidade de manter-se como tema mesmo depois de quase 40 anos de carreira dentro de uma cultura machista e dedicado ao que é “imediato” e “transitório”.

Como afirmou a diretora do videoclipe Secret, Melodie McDaniel, diferente das demais artistas da cultura pop que vemos por ai, Madonna está presente em todas as etapas de produção dos seus videoclipes. Do storyboard ao produto final, sempre participando das discussões e interagindo. Isto não faz da artista a única “iluminada”, mas reforça o fato de que a artista não é fabricada, produzida, um engodo musical e artístico, tal como a princesinha do pop Britney Spears e outros exemplares contemporâneos do mesmo quilate.

Ao receber o prêmio, Madonna fez um belo discurso. Ovacionado por alguns, criticado por outros, o importante é que o assunto reverberou na mídia e tocou, como a artista sempre fez, nas cordas sensíveis da sociedade: estupro, machismo, feminismo, respeito, sexualidade, gênero, envelhecimentos e outros temas que se espalharam como um rizoma durante cada trecho do discurso extremamente firme e calculado de uma das maiores artistas dos últimos anos. Palavra de Andy Wharol. E minha também. Ah, e de boa parte da crítica e da maioria das cantoras do universo pop contemporâneo: Ariana Grande, Beyoncé, Britney Spears, Christina Aguilera e Jennifer Lopez.

O Discurso da Rainha

Ao subir para receber o prêmio das mãos do mestre de cerimônias Anderson Cooper, Madonna mostrou-se ser a Madonna de sempre: irreverente, desbocada, segura de si e bastante irônica. “Eu me sinto bem melhor com algo duro entre as pernas”, largou, deixando algumas mulheres da plateia levemente coradas, afinal, é muito incomum presenciar as mulheres fazendo este tipo de piada, algo mais típico do universo ficcional de Sex and The City. Através de movimentos firmes e entonação calculada, a artista deixou o prêmio em cima de um piano, ajustou o microfone com classe e começou o seu discurso que traçou um panorama não apenas dos seus 34 anos de carreira, mas deu conta de um revisionismo histórico impressionante.

Com o seu terninho Gucci, no auge dos seus 58 anos, Madonna discursou sobre as suas fontes de inspiração e deixou o destaque por conta de David Bowie, artista que se identificava justamente por não por barreiras entre o masculino e o feminino, numa época em que ela ainda não havia moldado a sua opinião sobre questões de gênero. Logo de início, destrinchou o que seria o ponto nevrálgico do seu discurso: “Obrigada por reconhecerem a minha habilidade em continuar minha carreira por 34 anos, encarando a misoginia descarada, machismo, bullying e abusos”.

A artista que mesclou prostituição com religião, simulou sexo com seus dançarinos e enfrentou o Papa João Paulo II numa batalha midiática que rendeu bastante para os tabloides dos anos 1990, lembrou também das críticas ácidas da feminista Camille Paglia. Segundo Paglia, o estilo da cantora transformava a mulher em objeto e rebaixava a condição feminina. Em seu discurso, por sua vez, Madonna retrucou, afirmando mais que questionando o fato de que “se você é feminista, você não tem sexualidade, afinal, você a nega”.

De forma irônica, Madonna contou para a plateia que se era para ser assim, então “f***-**”. Foi quando ela decidiu que seria uma feminista má. O movimento, no entanto, não fala de escolhas? Olhando por esse lado, a artista tinha a liberdade de escolher o caminho que bem queria. “O que posso dizer sobre ser uma mulher dos negócios na música?” “O que posso dizer sobre ser mulher?”, continuou, aconselhando que as mulheres precisam começar a se valorizar, “e o valor de cada uma”, disse. “Busquem mulheres fortes, para serem as suas amigas, para se alinharem com elas, para aprenderem com ela, para se inspirar, para colaborar com ela, para apoiar, para ser iluminada”, encerrou, sendo ovacionada pelo público e posteriormente, por boa parte da mídia.

Em um artigo de opinião para a revista Isto É, Ana Paula Padrão fez um interessante relato sobre o discurso de Madonna. Ela apontou que nos anos 1980, escutava o som de Madonna e dançava aquelas canções. “Não gostava de tudo e nem sei se gostava dela”, ironizou, para depois alegar que “Madonna sempre esteve comigo”. A jornalista afirma que a artista estava próxima dela o tempo inteiro. Não do seu lado, obviamente, mas na esteira das mesmas lutas.

Num ritmo fluente, Padrão traz dados que não estão explicitamente no discurso de Madonna, mas fazem parte do extenso rizoma proposto por cada trecho entoado pela artista pop. Conforme aponta, “31% dos homens dizem que gostariam de não ser machistas, mas não sabem como agir”. Diante de tal afirmação, eis a questão: precisamos falar sobre o machismo. Para alguns, não passa de “mi mi mi”, covardia, mas é preciso pensar que, como reforçou o discurso de Madonna, “mulheres tem sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas”.

Sendo assim, vamos refletir: modinha? Não, ligue o seu televisor e coloque nos noticiários. Uma mulher é morta a cada duas horas. A tal pesquisa que aponta um determinado número de homens que não sabem o que fazer diante de suas atitudes machistas revela algo que já encontramos desde a antiguidade: os papeis designados para as mulheres, impostos pela sociedade patriarcal, representados de forma ilustre em grandes clássicos do nosso repertório literário: a mulher que tece uma colcha enquanto espera o seu marido retornar da guerra em Odisseia, de Homero; o aprisionamento da mulher em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; a submissão de Aurélia diante dos costumes em Senhora, de José de Alencar; dentre tantos outros.

Deste repertório, no entanto, Madonna está mais para uma reversão de Lucíola, a cortesã do império. No entanto, diferente da personagem que sucumbe aos costumes e é moldada pelo patriarcalismo, Madonna sempre assumiu os desejos do seu personagem na cultura da mídia, flertou ironicamente com tabus sexuais, aliou-se aos homossexuais numa época em que o grupo era constantemente associado aos males da AIDS e diferente da heroína literária que passeou pelo profano para encontrar o sagrado, Madonna, de maneira bastante corajosa, mesclou estes dois mundos, tornando-se um ícone polêmico que ia muito além da diversão nas pistas de dança, ao assumir uma agenda pop que incluía coreografias irreverentes, espetáculos audaciosos e uma agenda política bastante ativa. Tudo isso, cabe ressaltar, “junto e misturado”.

Madonna ainda conseguiu ser contemporânea, ao tocar em outro tema bastante polêmico: a cultura do estupro. No Brasil, segundo pesquisas, uma mulher é violentada a cada 11 minutos. Na Síria, por exemplo, atualmente há famílias que solicitam a autorização para matar as suas filhas, tendo em vista evitar a sua violação por algozes oriundos das milícias do regime de Bassar al-Assad. Para o leitor mais implicante, pode surgir uma indagação/acusação: “isto não está no discurso dela”.

Será? Fica a reflexão. O sintético discurso de Madonna não aborda diretamente estas questões, mas funciona como uma máquina de reflexões para pensar tais temas caros para a sociedade atual. Para codificá-los no discurso, entretanto, é preciso estar atento ao mundo, ligado nos acontecimentos, ciente do que acontece, enfim, ser um cidadão que interage com o mundo que vive. E também, entender de “estética da recepção”: sabe quando algo não está diretamente ali, mas podemos fazer inferências?

No artigo “O que o discurso de Madonna tem a ver com a sua empresa”, publicado na página oficial da Época, na seção de “Negócios”, a diretora de redação Sandra Boccia alega que no mundo corporativo, principalmente nos conselhos administrativos, o número de mulheres não ultrapassa os 7%. Quando se desconta as herdeiras da lista, o número cai para 4%. Ao refletir sobre o discurso de Madonna de maneira positiva, Boccia reforça a necessidade de que “tenhamos mais modelos e Madonnas dentro e fora das empresas”.

Em suma, ao observar as reflexões que gravitam em torno do discurso de Madonna no dia 09 de dezembro de 2016, percebemos que o hino de 1989 ainda ecoa nos dias atuais. Express Yourself, uma das canções mais importantes do legado de Madonna, foi transformada em discurso, e de forma “emocionada e emocionante”, reforçou a contribuição do trabalho erguido pela artista ao longo de quase quatro décadas.

E para aqueles que alegam que Madonna nada mais é que a mãe da Britney, a versão mais velha da princesa pop, o meu conselho: mais senso crítico, ou talvez, mais uso de algumas cápsulas de bom senso. Basta comparar o gráfico abaixo. Deixarei como explicação semiótica da minha reflexão sobre o assunto, o que dispensa qualquer parágrafo adicional. Não é preciso gostar, basta apenas aceitar uma verdade, arrisco a dizer, absoluta. No final das contas, é como afirmou um estudante certa vez, durante uma oficina de linguagem do videoclipe: “eu não curto o som dela, mas respeito a sua carreira e as causas defendidas ao longo de todos os anos”.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.