Fora de Plano #30 | Reações Bovinas e Arte Moderna

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NOTA: Sobre um tema aliado a esse, confira o nosso Plano Polêmico #12: A Criatividade Morreu?

Um minicurso sobre arte na segunda semana do ano será divertido”, eu pensei.

Três horas na quinta, duas na sexta, certificado, conhecimento e… sem desembolsar nada! Por quê não? Lá vou eu, com minha camiseta de super-herói e boné quadriculado para o primeiro dia do curso. Tema: definições e breve história de arte. A sala era pequena, mas confortável e todos os meus colegas de minicurso pareciam muito animados e sociáveis, cenário que durou até o quinto minuto da aula, quando a professora, certamente treteira de alma, pediu para que respondêssemos a pergunta difícil que ninguém sabe a resposta: O QUE É ARTE?

Foi como se uma linha invisível de ressentimento delimitasse cada carteira naquele lugar. E as respostas e alfinetadas nas opiniões alheias seguiram até quando um senhor próximo a mim disse qualquer coisa que existe é arte. A professora viu que o negócio tinha ido longe demais e retomou as rédeas, mas agora ela estava diante de um haras com cavalos loucos. Até agora sinto um mal-olhado só de pensar no clima, esnobismos e opiniões tão diversas sobre o que era arte. No fim, concordamos com o princípio de que a palavra se referia a uma IDEIA, uma expressão da criatividade, imaginação ou emoção que bate um papo com quem a vê e gera diferentes reações e classificações.

E foi a tarde, a noite e o primeiro dia. No segundo dia, criou a professora a gritaria monumental. E viu a professora que era bom. E isso foi toda a discussão do segundo dia: arte moderna.  😯 

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Acima: obras de Marcel Duchamp. Abaixo: copinhos pintados de Cheeming Boey. Qual desses artistas te agrada mais?

Aqui, vai uma declaração que pode chocar, ressentir e magoar alguns de vocês, mas é o que eu penso, então vamos lá: eu detesto a maioria das obras ligadas à arte moderna. 👿 Linha branca em tela preta. Três telas brancas. Um cocô ao lado de uma televisão. Xixi sintético e uma policial de cera agachada. Uma pedra gigantesca sobre dois pedestais. Um mictório. Uma roda de bicicleta e um banco. Várias latas de conservantes. Várias caras coloridas de Marilyn Monroe. Tudo uma bobagem sem tamanho e com propósito ou justificativa que, para mim, não colam e jamais agradaram. Eu consigo mensurar essas coisas como ideias, algumas até consigo entender a classificação como arte, mas simplesmente detesto.

No intervalo da aula de sexta eu comia meu Cebolitos em paz e um dos colegas veio com seu sanduíche dividir o banco da pracinha ao lado do Centro Cultural. Em dado momento de nossa conversa, ele me disse: você não gosta de arte moderna, porque você não entende. Não se enganem, ele não era uma pessoa babaca. Isso veio dentro de um contexto de conversa onde a fala cabia e não em tom de briga ou provocação. Eu perguntei para ele o que havia para entender, além do contexto histórico e da proposta, porque ambas as coisas eu entendia. O que me faltava? “A emoção”, ele disse. E esta foi a primeira vez que, conversando com alguém que gosta de arte moderna, eu me senti plenamente aliviado em perceber que não há, de fato, o que gostar em arte moderna. Eu teria que sentir, para saber. Ao mesmo tempo, percebi que o princípio emotivo que me faz achar Cheeming Boey um melhor artista que Marcel Duchamp (e não, eu não estou brincando e nem tirando a importância histórica de Duchamp. Isso não significa que eu precise achá-lo a melhor coisa da patota), é exatamente o que faz algumas pessoas gostarem de ver uma batata presa a um cano de pia com uns espetos de metal e aplaudirem a tal coisa como arte. Ou uma garrafa quebrada presa em uma tela laranja com respingos de sangue falso expostas em uma galeria e valendo alguns milhares de dólares.

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Contemplem esta arte.

Para mim, a arte precisa trazer um senso de esperança ou de queda muda em um abismo, uma sensação de sentimentos que me faça esquecer e ao mesmo tempo notar a vida sob outro ângulo, seja ele marcado por um sentimento bom, mau, bonito, feio, não importa. Não acho que “arte tem que ser complexa” ou que “arte precisa manter os padrões clássicos absolutos”. Besteira. É possível que o novo, o diferente e o feio convivam artisticamente com a excelência e a beleza dos Renascentistas, por exemplo. Mas é lamentável que o idiota, o sem sentido, e o puramente ofensivo tenham ganhado a tag de glórias e aleluias baseada na máxima “é a minha expressão, é bonita para quem quiser ver, é arte sim senhor”.

Crescem as amostras de arte que são unicamente expressão do nada pessoal, declaração engajada, escracho absoluto travestido de cultura, Narciso coberto de fezes olhando em um espelho fosco e se achando a melhor coisa disponível no mercado. Que saudade da noção em que o máximo desespero era representado por uma figura gritando em uma ponte, sob um céu laranja e não por massinha rodeada de fluídos humanos sintéticos, folhas de árvores, gravetos e gel em um prato de bronze.

Fugir de padrões engessados e caminhos que impedem novos experimentos é um ato necessário. Mas se o que vier disso for a derrubada de conceitos artísticos Universais para o puro relativismo sem padrão (como consequência, sem “bom” e “ruim”, logo, tudo deve ser considerado espécie artística, ponto final) e completamente aleatório é entregar a arte ao valor de choque, ao marketing de redes sociais, à porca intenção e “esforço artístico” que não valem nada. Passar horas montando uma instalação de algodão pintado, placas de metal e rodas de carro não necessariamente faz dessa instalação algo bom, digno de ser admirado e louvado pelo esforço e protesto contra X, Y e Z. Sim. Porque agora se ergue, das trevas, a declaração política da arte com os objetos do cotidiano, mal gosto e coisas fora do padrão. “Não é para ser confortável, é para ser arte“, disse um certo artista de 2016. Ô dó. Provavelmente nunca viu uma tela de Hieronymus Bosch.

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QUESTÃO DA AULA DE HOJE: Por que diabos Romero Britto desenha um coração em uma bochecha e pinta ou faz uma bolota na outra, na maioria de seus retratos? Justifique sua resposta.romero-britto-retratos-arte-plano-critico

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.