Fora de Plano #31 | O (Des)Prazer de Ir ao Cinema

Reconhecidamente, sou um cara ranzinza, rabugento, reclamão e raivoso. E, na medida em que vou ficando mais velho – já estou na fase em que até gente considerada velha por adolescentes me chama de velho – a coisa vai piorando. Nesse contexto, um dos grandes e mais prazerosos hobbies de minha vida vai, vagarosamente, indo pelo ralo, carregado pelo turbilhão composto por gente mal-educada, instalações vagabundas, serviços patéticos e preços exorbitantes. Que hobby é esse? Muito simples: ir ao cinema.

Sim, sou daqueles que acha completamente inaceitável assistir filmes e até séries de TV na tela de um tablet. Em um celular, então, não dá nem para comentar sem eu fazer aquela cara de nojo de atriz de novela das oito da Globo… Ir ao cinema, portanto, sempre foi, para mim, a única maneira correta de se assistir um filme, seja um grande blockbuster americano cheio de efeitos especiais, seja um filme intimista europeu com três atores apenas no elenco. Não há nada como parar por duas, três horas, sentar-se em uma poltrona confortável (que não pode ser confortável demais, pois cinema não é para dormir), em uma sala escura (mas não breu total), com bom ar-condicionado (por bom, entendam congelante) e uma tela grande, envolvente, além de um som poderoso e deliciar-se com algum exemplar da Sétima Arte. E olha, não estou falando só de obras-primas não. Porcarias também podem entrar na jogada, seja de caso pensado, seja inadvertidamente. A experiência como um todo é o que realmente vale.

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Eu, de muito bom humor.

Já vi gente por aí desdenhando dessa “experiência cinematográfica” que tanto defendo, chamando de coisa gente antiquada e até elitista (essa palavra tão ridiculamente usada…), mas fica difícil argumentar com quem vê filme de qualquer jeito, falando, em tela pequena e ao mesmo tempo conversando no telefone ou passeando por redes sociais. Ah, e se a carapuça serviu, não fique triste, mas aceite pelo menos que vivemos em dois mundos completamente diferentes e eles são, nesse tocante, muito provavelmente inconciliáveis.

De toda forma, não estou aqui para falar das maravilhas e vantagens de se ir ao cinema em uma experiência coletiva de imersão. Antes fosse! Meu ponto vai exatamente em direção oposta, com minha adorável experiência cinematográfica sendo destruída primeiro pela minha crescente intolerância a coisas que muitos podem perceber como pequenas ou irrelevantes e, segundo, pelos cada vez maiores problemas que encontro a cada nova sessão que ainda me aventuro a ir. E, contextualizando, como minha profissão ainda me permite viajar com uma certa frequência e eu, com isso, consigo visitar cinemas no exterior também, acabo tendo o sarrafo comparativo elevado (que fique claro: lá fora há os mesmos problemas, mas, escolhendo corretamente, eles podem ser evitados quase que na totalidade, algo cada vez mais complicado por aqui). Deixe-me, então, rapidamente comentar cada um dos aspectos que me incomodam profundamente:

1. A Tirania da Dublagem:

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Só de ver essa imagem já fico com calafrios…

Eu e meu colega Luiz Santiago já escrevemos sobre isso, de uma forma ou de outra, em dois artigos: o meu aqui e o dele aqui. O resumo da ópera, porém, é bem simples: cada vez menos telas são dedicadas a filmes legendados em razão de uma alegada preferência da população em geral em assistir filme dublados (o que eu caracterizaria como um “dilema Tostines”…). A escolha vai pela janela e, em seu lugar, sou obrigado a engolir filmes dublados, algo que me recuso terminantemente a fazer, independente da situação. Se só tem dublado, não assisto. Só para vocês terem uma ideia, não tem muito tempo dirigi durante 40 minutos em um trânsito infernal causado por insuportáveis blocos de pré-Carnaval em um domingo só para assistir LEGO Batman: O Filme com o som original, apesar de morar em local onde posso ir a várias redes de cinema diferentes a pé. Tudo porque não havia uma sessão sequer legendada.

Em outras palavras, tenho ficado apreensivo a cada nova grande estreia que eu quero muito ver em razão de algo como saber quantas opções legendadas razoáveis eu terei por perto. Chega a ser ridículo, se pararmos para pensar e eu não preciso de mais esse estresse em minha vida.

2. O Insuportável 3D:

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Exatamente o que penso a cada centavo gasto com 3D…

Gente, sério. 3D é coisa para parque de diversão, não para cinema. Uma enorme porcentagem dos filmes que empregam a tecnologia não a usam de forma nativa, sendo convertidos posteriormente em pós-produção só para que o ingresso possa ser mais caro. Mesmo que o filme tenha sido pensado para ser convertido em 3D posteriormente, o que muitos dizem que é o caso, mas que provavelmente é mentira, o resultado fica comparativamente aquém ao 3D nativo bem feito.

Mas o pior é que quase nenhum cineasta sabe usar de verdade as possibilidades narrativas em 3D e os que sabem só o fazem por poderem fazer – ou por exigência do estúdio -, tornando a tecnologia muito mais um artifício bobo do que qualquer outra coisa. Na minha lista, só cinco filmes justificam o 3D até hoje: Avatar (unicamente pelo pioneirismo nessa nova onda de filmes 3D, o que é uma faca de dois gumes, pois foi por culpa de James Cameron que o modismo do 3D recomeçou), Pina (por usar o recurso para efetivamente nos envolver na dança), Gravidade (pelo balé espacial de tirar o fôlego tanto em planos gerais quanto em tomadas intimistas), A Invenção de Hugo Cabret (por ser elemento da narrativa) e A Caverna dos Sonhos Esquecidos (por ser funcional para mostrar os detalhes do relevo da arte pré-histórica). O resto é firula desnecessária e bobalhona para tirar nosso dinheiro suado. Se quiser saber mais sobre o assunto, leiam esse meu outro artigo reclamão, bem aqui.

E, claro, há o problema dos óculos, que tem também estreita relação com o próximo item da minha lista (O Desleixo Empresarial). Como todo mundo sabe, os óculos 3D escurecem a tela, além de atrapalharem a visão, especialmente se forem os modelos ativos (com bateria), que têm lentes normalmente menores e mais grossas, além de serem mais pesados. Se o espectador usar óculos, então, a coisa piora significativamente, algo que eu curei em parte me recusando a ir a cinemas com a tecnologia ativa e usando lentes escamoteáveis 3D por cima dos meus óculos. E, finalmente, como por aqui nenhum cinema sabe regular suas projeções corretamente, a escuridão fica ainda mais escura.

3. O Desleixo Empresarial:

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Uma representação de meu estado de espírito quando o projecionista “se esquece” de desligar a luz da sala…

Moro em um dos maiores centros urbanos do país – a cidade do Rio de Janeiro – e tenho o privilégio de ter à disposição uma boa quantidade de salas de cinema, além de uma condição financeira que me permite visitá-los com frequência. Essa oferta toda seria ótima se as cadeias de cinema cuidassem de suas salas. Para começar, ainda que eu me esforce ao máximo em comprar online, mesmo considerando a taxa de conveniência (tenho alergia mortal a filas) que encarece tudo mais ainda, às vezes tenho que sucumbir às bilheterias. E é uma desgraça completa. Funcionários provavelmente mal pagos e, portanto, de má vontade e completamente sem treinamento, demoram horas para processar um pagamento depois que o consumidor demora o tempo que quer para escolher a sessão e a cadeira como se não houvesse ninguém atrás dele. E tudo isso em um lugar mal dimensionado para receber a quantidade de gente necessária, pois é uma completa surpresa para os gerentes que as salas costuma encher sexta-feira à noite ou no dia de uma grande estreia…

Mas isso é só a pontinha do iceberg…

E os banheiros sem sabonete ou papel, quando não estão todos emporcalhados? E as poltronas rasgadas? E o cheiro de mofo? E a pipoca e refrigerante que custam um rim e uma córnea respectivamente e são quase sempre ruins? E a projeção mal regulada? E o som mal regulado? E a luz que esquecem de apagar? E o ar-condicionado que não dá vazão? Sobre a regulação da imagem e som, isso parece não existir por aqui. Vai tudo de qualquer jeito, sem nenhuma preocupação em ter certeza de que está tudo bem. Já saí de salas de cinema dezenas de vezes para reclamar, perdendo, com isso, minha paciência e preciosos minutos de filme. É som alto ou baixo demais, caixas de som que muitas vezes não funcionam, imagem fora de foco, escura demais e até mesmo na proporção errada.

Há exceções? Com certeza. Mas elas estão ficando cada vez mais raras e eu cada vez menos paciente…

4. A Ganância Empresarial:

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Duzentos reais o ingresso e a garantia de que você vai dormir vendo o filme, seja ele qual for…

E se eu quiser ir a uma sala “mais exclusiva” para ver se pelo menos consigo evitar algumas das mazelas descritas aqui? Ah, aí tudo bem, pois há as chamadas “salas VIP” (ou Premium ou Platinum ou qualquer outro nome idiota desses que faz o consumidor mané achar que é importante), onde você será tratado como um rei, carregado em uma liteira, acomodado em um divã, com a possibilidade de comer comidas gourmet preparadas por chefs formados na Cordon Bleu e servida por odaliscas semi-nuas que ainda fazem massagem em seus pés…

Para começar, como eu disse acima, cinema é para ver filme e não para dormir ou comer pipoca de milho orgânico do Iowa com azeite trufado do Piemonte e flor de sal do Mar Morto. Isso só serve para que a experiência cinematográfica seja diminuída e não amplificada, com o cinema transformado em drive-in (sim, sou da época do drive-in…). E não tem perigo de eu pagar 50, 60 reais ou até mais só pelo ingresso apenas para ter o “direito” de gastar ainda mais dinheiro para “desfrutar” dessa papagaiada toda (se pelo menos tivessem odaliscas de verdade…).

Mas o pior é que as salas VIP estão se espalhando como uma praga de gafanhotos bíblicos. Eu fecho os olhos e uma sala bacana que eu frequentava é transformada em uma dessas salas especiais metidas mais a besta do que eu. Acordo suando frio e gritando no meio da noite com pesadelos que estou vendo Transformers 38 dublado, em 3D em uma dessas salas e com gente conversando e acessando mídias sociais no celular…

5. A Falta de Educação Sem Fim:

Meu reino por uma motosserra! 

E caímos, então, no maior problema de todos: o Ser Humano. Ou “cerumano” para qualificar melhor esse tipo de gente mal educada que faz no cinema aquilo que eu garanto que não faz em casa…

Falo, aqui, de pessoas de todas as idades, etnias, religiões e condições sociais. A turba que vai ao cinema está cada vez mais ruidosa, descuidada, irresponsável e completamente alheia ao fato de que há outras pessoas ao redor. São conversas em alto e bom tom para lá, uso de celulares para cá e uma infindável lista de barbaridades que são cada mais mais comuns em todas as sessões de cinema. Como vocês devem imaginar, já escrevi sobre isso também (aqui) e tive a paciência de listar algumas dessas atitudes ignominiosas que agora não repetirei por sentir minha bile ferver simplesmente por pensar no assunto. É uma daquelas ocasiões que eu tenho certeza que porte de arma deve ser proibido, pois, se eu andasse armado, acho que já teria pelo menos encostado o cano de uma pistola na têmpora de um sujeito folgado qualquer (aliás, pensando nisso, tacos de beisebol envoltos em arame farpado são permitidos?) que não para de mexer no celular ao meu lado (e sim, a luz me incomoda e não adianta tentar esconder, pois qualquer filete me atrapalha!!!).

Sei que estou me repetindo, mas sou um cara chato. Chato do tipo que “fica parado do lado direito na escada rolante para deixar quem tem pressa subir pela esquerda” ou que “jamais joga um pedacinho de papel na rua e, quando ele cai sem querer, corre para recolhê-lo e jogá-lo no lixo, andando quarteirões inteiros em direção oposta com ele no bolso se necessário for”. Obedecer regras de convívio social é algo incutido na minha alma (se eu tiver uma…) e eu funciono no automático, sempre preocupado até em não andar muito devagar em calçadas estreitas para não segurar o fluxo de pessoas (sim, eu penso até nisso!). Afinal, se todos nós fizéssemos nossa parte, o caos urbano não seria caos.

Mas eu divago. O ponto é que, como o Pateta motorista que vira um bicho ao volante, as pessoas parecem soltar seu lado mais basal quando adentram uma sala de cinema ou outros lugares de convívio social. Sentar na cadeira marcada? Para que? Se o cara chegar, eu levanto. Recolher lixo? Não, jamais, isso é para o faxineiro fazer, faxineiro esse que eu pago ao comprar o ingresso. Usar as almofadas para as crianças sentarem como apoio de pé? Lógico, oras. Elas também servem para isso. Chegar atrasado e atrapalhar a experiência dos outros tentando chegar até seu lugar que é invariavelmente no meio da fileira? Meu direito, caramba! Gritar para chamar o namorado(a)? Mas é só um gritinho. Não atrapalha ninguém… E assim por diante. Em suma, um circo de horrores.

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Por essas e outras que tenho abandonado o cinema. São tantas aporrinhações que a experiência começa a não valer a pena. Começa a ficar cara demais, como os impostos que pagamos no Brasil: altos e não revertem em nada. Com o acesso legal a conteúdo vasto e de qualidade em plataformas de streaming como Netflix e Amazon Prime Video e em plataformas de download como iTunes, acabo cada vez mais abrindo mão do imediatismo, de ver o filme no final de semana de estreia, para assisti-lo algum tempo depois em ambiente controlado, sem as perturbações do cinema. Mas fico triste em ter que fazer isso. Parece que estou perdendo uma parte de minha história, de meu passado. Além de, claro, perder a experiência em si, que, em local ideal, ainda é sim insubstituível, como provam experiências espetaculares que tive e continuo tendo em alguns cinemas fora do Brasil.

Uma preocupação menor diante da conjuntura sócio-econômica de nosso país? Com certeza. Mas reclamar de um hábito supérfluo não significa que sou cego para o que está a minha volta. Cegos são os outros que não percebem que estão atrapalhando as pessoas sentadas nas cadeiras ao seu redor.

happy game jared leto blaine anderson paul mccartney

O que já tive vontade de fazer em algumas sessões de cinema que frequentei…

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.