Fora de Plano #33 | Doze Horas de Horror

Horror não é o gênero cinematográfico que figura entre meus favoritos. Raramente vejo algum lançamento da categoria no cinema – a mais recente e honrosa exceção foi It: A Coisa – e confesso que mais raramente ainda esboço algum interesse de ver um exemplar desses na televisão que não seja um clássico ou porque eu tenho que escrever para o site.

No entanto, como resistir à tentação de uma maratona de horror por 12 horas seguidas no New Beverly, cinema hoje de propriedade de ninguém menos do que Quentin Tarantino, mas que é um dos mais tradicionais de Los Angeles? Aqueles que me acompanham há algum tempo no Plano Crítico sabem que minha profissão principal (que não é a de crítico, caso alguém tenha alguma ilusão nesse sentido) me permite viajar com certa frequência pelo mundo e com mais frequência ainda por Los Angeles, cidade onde tive o prazer de estudar durante um ano há mais de uma década. Foi durante essas minhas viagens que eu conheci o New Bev (para os íntimos) e onde vi a dobradinha trash O Dragão Chinês // O Dragão Chinês – Parte II, além de uma sessão de meia-noite de Bastardos Inglórios.

Apenas um parênteses, o New Bev é um cinema diferenciado em que a Sétima Arte está em primeiro lugar, com projeção exclusivamente em filme – nada digital – e quase sempre em 35mm (as exceções são quando as projeções se dão em 16mm, dependendo da cópia que é encontrada). A tela não é muito grande, mas é extremamente flexível, adaptando-se com perfeição à razão de aspecto de cada obra. O público é formado quase que exclusivamente de cinéfilos que vão para lá para ter a oportunidade de ter uma experiência cinematográfica em que celulares não existem, comida só sem cheiro (à exceção da pipoca, claro), e ninguém entra atrasado ou se move de seu assento durante as sessões. É, por assim dizer, um templo de adoração ao Cinema, um dos últimos assim no mundo.

Mas voltando à maratona, dessa vez minha mais recente viagem me faria estar por lá exatamente no dia em que a maratona aconteceria. Não fazia ideia se ia aguentar, mas, no dia 1º de outubro, às 4 horas da tarde, horário de Brasília, estava lá eu em casa preparado para comprar um ingresso pela internet. Como na aquisição de um concorrido ticket para um show de rock, cliquei no “comprar” no segundo em que o relógio marcou meio-dia, “horário padrão do Pacífico”, e, para minha surpresa, não houve nenhum problema no processo todo, que durou pouco mais de dois minutos.

No entanto, assim que acabei de garantir meu ingresso, por curiosidade voltei à página principal e eles já haviam esgotado(!!!). Foram menos de três minutos para algo como 150 a 200 ingressos evaporarem assim como um passe de mágica. Pelo menos fiquei aliviado pela certeza de que há muita gente tão ou mais doida do que eu por aí…

No dia 07 de outubro, sábado, que era o dia do evento cinematográfico, acordei às 7 da manhã por questões profissionais, fiz o que tinha que fazer e parti para o aeroporto para pegar um voo curto de onde estava até Los Angeles lá pelo começo da tarde. Atrasos aqui e ali e o voo que era para durar 45 minutos levou mais de 1h30′, o que me fez chegar no hotel às 16h com tempo cronometrado para tomar banho, trocar de roupa e partir para o New Beverly, praticamente do outro lado da cidade.

Quando finalmente cheguei por lá, às 18h, precisava ainda comer algo minimamente decente e tinha certeza que não precisaria me preocupar com filas, pois ninguém em sã consciência chegaria antes da hora para um evento de 12 horas de duração. Entretanto, assim como Jon Snow, eu aparentemente não sei de nada e dei de cara, ainda dentro do carro, com uma fila já dobrando a esquina. Estacionei (o cinema é um dos poucos estabelecimentos comerciais na cidade que não tem estacionamento próprio, o que dá um certo trabalho) e corri para a fila, que já estava dobrando a segunda esquina. Mas andou rápido e, não demorou, troquei o voucher da internet pelo ticket e por uma pulseira que dava o direito de entrar e sair do cinema durante a maratona.

Reparei que a galera profissional havia trazido casaco e camisas extras só para marcar lugar, já que não havia lugar marcado e eu, logicamente, não havia me preparado para isso. Depois de achar um lugar bastante razoável, central em relação à tela, tive que depender da bondade de estranhos para que eu não o perdesse, pois, como vocês vão lembrar, eu precisava comer ainda alguma coisa. Saí do cinema correndo para catar o primeiro posto de gasolina que vendesse um cachorro quente ou hambúrguer daqueles vagabundos e gordurosos, já que, a essa altura, esperar comida decente era utópico. Feito isso e trazendo um carregamento de biscoitos e bebidas (não alcoólicas, não só porque não bebo, mas também porque elas são proibidas nesse cinema).

Às 19:30h em ponto, conforme estava no ingresso, a maratona começou  com os dois curadores do cinema se apresentando e contando a história de como eles passaram meses cavocando os sebos cinematográficos para achar as melhores cópias dos filmes que eles iriam passar. Seriam seis longas e um curta metragem, cada um deles precedido de uma série de trailers de outros filmes que se relacionavam com a atração principal, com um intervalo de 10 a 12 minutos entre cada longa, menos entre os dois últimos. Nesse ponto, o leitor deve estar se perguntando o que afinal iria passar, mas o segredo faz parte da brincadeira e a compra dos ingressos se deu às cegas, sem que ninguém – a não ser os dois curadores – soubesse o que iria assistir. A única regra é que deveria, lógico, ser obrar de horror.

Portanto, a cada novo filme, a tensão em descobrir o que iria passar era palpável, com a galera aplaudindo efusivamente cada uma das cópias – além dos mais bizarros trailers -, além dos momentos em que os nomes dos roteiristas e diretores eram mostrados na tela, além dos nomes de determinados atores (alguns bem desconhecidos) e compositores de trilhas sonoras. Era claro que eu estava no lugar certo, uma verdadeira demonstração coletiva de amor ao Cinema em uma experiência cinematográfica ímpar.

Vamos lá para a lista do que passou (clique nos títulos dos filmes para acessar cada crítica individual):

  • Trailer editado especialmente para o evento, usando trechos de diversos curtas animados da Disney, com o Pateta, Donald e seus sobrinhos
  • Trailers temáticos
  • (1) Killer Party, de 1986
  • Trailers temáticos
  • (2) The Manster (com “A” mesmo), de 1959
  • (2.1) Colheita Maldita – desconhecido curta de 1983, um ano antes do primeiro filme da franquia baseada na obra de Stephen King
  • Trailers temáticos
  • (3) Noite de Pânico (Alone in the Dark), de 1982
  • Sorteiro de brindes (não ganhei nenhum…)
  • Trailers temáticos
  • (4) Nasce um Monstro (It’s Alive), de 1974
  • Distribuição de donuts gratuitos
  • Trailers temáticos
  • (5) The Craving/Night of the Werewolf (El retorno del Hombre Lobo), de 1981
  • Trailers temáticos
  • (6) Psicose Mortal (The Vagrant), de 1992
  • Desenho do Pica-Pau – aquele famoso em que ele trabalha em uma fábrica de vassouras e uma bruxa – “e lá vamos nós!” – quer um cabo, pois o dela quebrou
  • Hino nacional americano

Se você nunca ouviu falar dos filmes listados acima, não se avexe. Uma das especialidades do New Beverly é catar essas preciosidades difíceis de encontrar em qualquer lugar, especialmente em celuloide, para passar para seu público bem específico. E é incrível notar que, com exceção da cópia de Noite de Pânico, que estava com claros sinais de desgaste, algo que foi avisado pelos curadores, as demais estavam praticamente perfeitas, como se estivéssemos na noite de lançamento de cada um dos filmes.

Assistir isso tudo de uma vez, mesmo com intervalos curtos para esticar as pernas, não é uma tarefa tão simples assim. Depois do terceiro filme, o sono bate e a atenção começa a ficar dispersa. Mas, como disse, é um trabalho recompensado pela satisfação de viver uma experiência cinematográfica única, como se cada espectador ali no recinto retroalimentasse os demais com sua empolgação. Com isso, quase ninguém foi embora antes de tudo acabar e, mesmo no último filme, que é estrelado por um Bill Paxton novinho, todo mundo ainda estava com força suficiente para aplaudir os nomes que passavam nas telas, especialmente, claro, o do saudoso Paxton.

Durante os intervalos, filas descomunais se formavam nos banheiros (que são pequenos) e na vendinha para a compra de pipoca e, principalmente, café (o refil infinito estava incluído no preço). Pouca gente saía efetivamente do cinema para comprar fora sob a sensacional premissa que, comprando ali dentro, eles ajudavam a manter o New Bev vivo, em uma evidente demonstração de fidelidade e adoração, algo que me fez entrar na fila mais de uma vez (e eu ODEIO filas). E o melhor é que as filas acabavam logo antes de começar cada sessão e todo mundo estava perfeitamente sentado em sua cadeira para ver o primeiro trailer. Se havia gente dormindo? Possivelmente, mas não ouvi roncos em momento algum…

Ao final de tudo, lá pelas 7:30 da manhã de domingo, dia 08 de outubro, cada um dos sobreviventes – ou seja, quase todo mundo – ganhou um brinde surpresa, que não havia sido anunciado antes: um belo copo comemorativo de vidro, com a indicação de que aquela era a 10ª maratona de filmes de horror do New Bev, batizada de New Beverly Cinema’s Annual All-Night Horror Show.

Estava morrendo de sono ao sair dessa completa sandice em que me meti. Mas, ao colocar os pés na calçada em frente ao cinema, estava especialmente feliz em ter participado desse ritual enlouquecido de filmes trash com um pessoal que realmente pode ser chamado de cinéfilo.

Se um dia pretendo repetir a dose? Sem titubear!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.