Fora de Plano #35 | Vamos Conversar Sobre Star Wars: Os Últimos Jedi?

  • spoilers de Os Últimos Jedi e de vários outros filmes da saga Star Wars.
  • O presente artigo foi escrito simultânea, mas independentemente ao Fora de Plano #34, de autoria do nosso redator Anthonio Delbon, cuja leitura mais do que recomendo. Sob diversos aspectos, o conteúdo é parecido, mas as abordagens são diferentes.

Qualquer franquia tão amada quanto Star Wars despertará sentimentos fortes – sejam positivos ou negativos – a cada novo lançamento. É inevitável, especialmente na era atual em que vivemos, em que toda opinião precisa ser reverberada em redes sociais em busca de validações, quase que como elas só passassem a existir se publicadas em algum lugar. Faz parte do jogo e é, diria, um exercício salutar se praticado com moderação e sem sofreguidão.

Quando O Despertar da Força foi lançado, a maior reclamação geral era que o filme parecia uma refilmagem de Uma Nova Esperança. E, de fato, ele é quase isso. A lógica por trás, porém, é infalível: a Disney, depois da aquisição da Lucasfilm por 4 bilhões de dólares, precisava jogar um jogo seguro, dar um tiro certeiro. Seus acionistas esperavam um sucesso absoluto e foi isso que Bob Iger e Kathleen Kennedy entregaram. Arriscaria dizer que qualquer filme mais “fora da caixa” não chegaria aos cobiçados 2 bilhões de bilheteria mundial e desapontaria a empresa. E sim, estou falando da empresa, pois não sou mais realista que o rei. O interesse corporativo naturalmente virá na frente em situações como essa. E, sem o interesse corporativo, os fãs nada teriam, pelo menos não nessa escala. Pode ser uma realidade crua, fria e incômoda, mas é a realidade de toda forma.

Assim que a Disney sentiu-se segura com a propriedade recém-adquirida, ela partiu para uma aventura “fora da caixa”. Rogue One apresentava personagens inteiramente novos e razoavelmente antipáticos em um filme que acabava em morte para todos. Ainda foi algo completamente inserido na mitologia geral, mas não se pode acusar a obra de se curvar ao caminho mais viajado. Afinal, uma das coisas mais raras que Hollywood faz é soltar filmes que não podem ter continuações. Rogue One é a exceção que confirma a regra (a não ser, claro, que um dia inventem que Jyn Erso e Cassian Andor não morreram em Scarif…). O resultado de se pensar fora da caixa? Metade – eu repito, metade – da bilheteria de O Despertar da Força.

De toda forma, foram dois sucessos incontestáveis e a expectativa para Os Últimos Jedi, segundo filme da nova trilogia, era enorme, com uma legião de fãs construindo as mais variadas, divertidas e bizarras teorias sobre absolutamente cada detalhe do que poderia acontecer: quem eram os pais de Rey; Finn e Poe tornar-se-iam amantes; de onde veio Snoke; quem eram os Cavaleiros de Ren; o que Kylo Ren fez exatamente para fazer com que Luke se auto-exilasse e assim por diante. As mentes febris de um mundo de gente não paravam de mergulhar em livros e quadrinhos do Universo Expandido e a analisar trailers quadro-a-quadro para construir o cenário ideal para cada personagem ou situação no que se esperava que fosse o equivalente a O Império Contra-Ataca.

Sei que, a essa altura, muitos já estão apressadamente concluindo que direi que a culpa de toda a reação negativa a Os Últimos Jedi é das elucubrações de fãs que deram com os burros n’água quando praticamente nenhuma de suas teorias foram confirmadas. Mas apressado come cru e não é esse meu ponto. Para ser honesto, o roteiro de O Despertar da Força naturalmente forçava os espectadores a indagar sobre coisas como o parentesco de Rey e quem afinal é Snoke. Portanto, a Disney jogou linha para ela mesmo se enforcar, atiçando uma fogueira que ela não conseguiria apagar com muita facilidade.

Por outro lado, a falta de dosagem nas expectativas ajudou no desapontamento de muitos. Querer que algo aconteça de uma forma e não tentar compreender propostas diferentes formam uma combinação explosiva que sempre levará à insatisfação. Se O Despertar da Força foi condenado por ser um remake de Uma Nova Esperança, Os Últimos Jedi, pensemos friamente, está sendo condenado por não ser um remake de algum outro filme da franquia ou de no mínimo não seguir uma fórmula pré-estabelecida. Todo mundo reclama da tal “fórmula Marvel”, mas parece que também querem uma “fórmula Star Wars”, pois é muito mais confortável esperar que Luke Skywalker levite a X-Wing afundada em Ahch-To, voe para o planeta salgado, empunhe seu sabre de luz verde e tenha uma luta épica com Kylo Ren, do que ser surpreendido com uma “projeção astral” dele mais novo. E tudo isso sem que, claro, ele tenha tentando matar Ben Solo no passado, pois isso é impensável para o personagem que havia sido estabelecido na Trilogia Original.

Ou seja, o problema não são as teorias malucas, mas sim o “esperar mais do mesmo”, pois, no frigir dos ovos, se cada um que reclama enfurecidamente de Os Últimos Jedi, assinando petição online para descanonizar o filme e criando perfis falsos para dar notas baixas no RottenTomatoes (esse pessoal não tem o que fazer, não é mesmo?), parasse para refletir de verdade, concluiria que o quer é o feijão com arroz basicão que vimos de forma sem dúvida muito competente em O Despertar da Força. No lugar de entender que Rey, por não ser filha de ninguém, tem um significado muito maior do que se ela fosse uma Kenobi ou uma Skywalker, muitos preferem achar que a Força está circunscrita a três ou quatro poderosas famílias em toda galáxia muito, muito distante. No lugar de entender que o filme não é sobre o Snoke e, portanto, seu passado é irrelevante, muita gente preferiria que… não sei… o filme tivesse um flashback de 20 minutos contando como o Snokinho, de fralda, foi abandonado por seus pais drogados na porta de um orfanato, passando por abusos na adolescência e descobrindo seu poder e jurando vingar-se da humanidade com um punho em riste como a promessa de Scarlett O’Hara de que jamais passaria fome novamente. Se Snoke é alguma coisa é um MacGuffin, assim como o Soldado Ryan é um no filme que leva seu próprio nome

Claro que esses exemplos nem mesmo arranham a superfície, mas meu ponto aqui não é destrinchar reclamações impensadas e nem provocar discussões sobre esses detalhes até porque, pessoalmente, tenho meus problemas com Os Últimos Jedi. Mas esses problemas não têm relação alguma com algo como “eu acho ridículo que os pais de Rey sejam indigentes” ou “não faz sentido o Luke ter sequer pensado em matar Ben Solo” ou “a Força não pode ser manipulada como Luke manipulou”. As decisões tomadas no roteiro de Rian Johnson sobre os personagens estabelecidos, especialmente Luke, fizeram todo sentido para mim, considerando que eu prefiro muito mais ser surpreendido com algo que me pareça lógico dentro da estrutura narrativa (o que, por exemplo, os midiclhorians não são), do que ver o famoso “mais do mesmo”. Meus problemas estão mais na duração do filme, seus falsos finais infindáveis estilo O Retorno do Rei, aquela sidequest de Finn e Rose e a introdução e eliminação da Laura Dern de cabelo roxo e um pouco na montagem que quebra a fluidez narrativa em diversos momentos. Mas, novamente, não estou aqui para fazer uma crítica do filme, apenas uso meu exemplo para mostrar que uma coisa é afirmar que “o fantasma do Yoda não poderia fazer que nem o Thor”, como se houvesse um livro de regras pré-estabelecidas sobre o assunto, e outra completamente diferente é reclamar que “o filme se sustenta em uma quantidade grande demais de reviravoltas”. Um é achismo com base em absolutamente nada (ou apenas na expectativa pessoal que alguém poderia ter) e o outro é achismo com base em alguma técnica de roteiro.

Mas, voltando à Disney, a empresa mesmo nos levou a isso. Há uma culpa concorrente aí, sem dúvida alguma. A Casa do Camundongo nos levou a essa espiral obsessiva que exigia as respostas certas para as perguntas certas. Ao olhar para a nossa cara e dizer que O Despertar da Força foi um filme para testar território, para introduzir novos personagens e para ter certeza de que seria necessário uma frota de caminhões para levar o dinheiro da bilheteria para a Caixa Forte do Tio Patinhas e mais nada, a Disney arriscou chegar nesse ponto. Afinal, se mais uma vez olharmos friamente para trás, notaremos que Os Últimos Jedi não exatamente continua O Despertar da Força, apesar de parecer. Sim, ele começa logo depois dos eventos que levaram à destruição da base Starkiller, mas, com exceção da morte de Han Solo, que se perpetua, o novo filme é um novo começo também. É a Disney dizendo: “era isso que eu queria ter feito desde o começo, mas não podia, pois precisava primeiro mostrar que a compra que eu fiz valeu a pena”. O Despertar da Força foi uma escadaria familiar que nos leva a um salão cheio de mistérios. Melhor isso do que se a escadaria nos levasse para um quarto cheirando a mofo.

E, mais do que isso, Os Últimos Jedi é um filme para quebrar as forminhas todas. Sabre de Anakin? Não importa. Pais de Rey? Indigentes. Passado de Snoke? Pfffff. Luke, um herói de reputação ilibada? Não me faça rir. Kylo Ren vai para o lado da luz e Rey para o lado negro? HAHAHAHAHAAHA. Como Rey conseguiu essas habilidades todas? Conseguindo, oras. E tem mais, muito mais.

Ouviram o barulho das expectativas sendo estilhaçadas? Pois eu ouvi. E foi música para meus ouvidos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.