Fora de Plano #37 | O Caso Mark Wahlberg e Michelle Williams: Pela Causa ou Pelo Marketing?

Quando os produtores de Todo o Dinheiro do Mundo, de Ridley Scott, anunciaram que Kevin Spacey seria retirado do filme, substituído por Christopher Plummer, os cinéfilos aplaudiram a iniciativa. Aliás, há que se destacar que os elogios são merecidos, uma vez que é absurdo dar espaço para um sujeito que, durante anos, assediou e abusou de pessoas. Portanto, a atitude pareceu um sinal de avanço em uma indústria tão conivente com o assédio quanto a cinematográfica.

No entanto, o que motivou o estúdio a realizar isso? A consciência com a situação ou o medo que o filme fosse ignorado nas premiações? Obviamente, não é certo julgar, mas, na última quarta-feira (10), surgiu uma informação sobre a produção de Todo o Dinheiro do Mundo que justifica a desconfiança. De acordo com o USA Today, Mark Wahlberg (coadjuvante) recebeu US$1,5 milhão para refilmar suas cenas, enquanto Michelle Williams (protagonista) ganhou apenas 80 dólares por dia, resultando em quase mil dólares no total.

Ora, se a produção fosse tão consciente com as reivindicações feitas pelo movimento Time’s Up, como aparentou no caso Spacey, não deveria ter evitado esta absurda diferença salarial? A indústria cinematográfica é sexista não apenas pelo assédios, que são gravíssimos, mas também pela forma desigual com que salários são pagos e papéis são oferecidos; e os produtores, que em um primeiro momento pareceram estar atentos aos problemas de Hollywood, demonstraram participar do mesmo jogo que é imposto às mulheres a séculos, agora em outra categoria.

Teria sido, portanto, a atitude uma estratégia de marketing? Aliás, em um primeiro momento a ação funcionou, rendendo uma indicação ao Globo de Ouro de melhor diretor para Ridley Scott e impressionando a crítica pela rapidez nas refilmagens do longa. Aliás, fãs de outros filmes tomaram a atitude como exemplo para cobrarem outras produções, como o caso envolvendo Johnny Depp em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald.

No entanto, infelizmente, ao demonstrar total descaso com a discrepância salarial em seu próprio filme, que possui uma diferença de 1500% entre Mark Wahlberg e Michelle Williams, a produção de Todo o Dinheiro do Mundo dá indícios de que retirou Spacey da produção unicamente por medo da recepção, sem se preocupar com outros problemas também correntes na indústria, embora não tão alardeados ultimamente. É um julgamento? É. Mas por que a Companhia não demonstrou a mesma consciência para esse aspecto de desigualdade? Para piorar, mentiram para Williams ao dizer que todos trabalhariam voluntariamente.

Diante da situação, fica a sensação de que, em um universo tão artificial quanto o de Hollywood, toda atitude deve ser vista de maneira cética. Por mais válidas que sejam determinadas ações, elas podem ser mero marketing para atrair a atenção do público — ou uma forma de se livrar rapidamente de um problema para o qual os holofotes estão direcionados –, jamais buscando o objetivo mais importante: alterar o status quo. Não adianta vestir-se de preto em uma premiação, gravar stories nas redes sociais ou divulgar uma hashtag. A indústria cinematográfica só irá transformar-se radicalmente quando vermos menos atitudes por marketing e mais ações por mudanças. As mulheres já deram início com o movimento Time’s Up; agora está na hora de as bases de produção da indústria demonstrarem que também estão nessa por algo muito maior que a preocupação com sua própria imagem.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.