Fora de Plano #40 | Destruíram God Of War

Caros leitores e leitoras, o porquê da escrita do presente Fora de Plano #40 se encontra aqui:

O responsável pela criação do novo God Of War segue a escola de Darren Aronofsky e se propõe a explicar a própria obra porque, convenhamos, insegurança pouca é bobagem: aqui, qualquer dúvida sobre a escolha de manter Kratos como rosto bonitinho da franquia vai para o espaço. Em suma, o motivo desse reboot/continuação foi a humanização e amadurecimento do protagonista, algo que pede a manutenção desse ícone da década passada. Mantenha em mente, durante o texto, este tal “amadurecimento” de Kratos.

Caro leitor, God Of War é um clássico dos games. Mais do que sua jogabilidade, sempre meio boba, ainda que influenciadora de muitos games posteriores, foi seu roteiro que conquistou o coração dos fãs. Um Hack’n Slash/Puzzle transformado em jornada heroica na Grécia mitológica. A cada obra, a euforia de ver o retrato de deuses e titãs chegava ao ápice. Alguns se lembrarão da expectativa que cercava God Of War 3 em março de 2009.

Nos três primeiros jogos, os roteiristas conseguiram sintetizar um oceano de possibilidades artísticas e narrativas em uma estória pessoal e emocional, sem descambar para qualquer psicologismo extremo e sem se desvencilhar de temas caros aos mitos e às tragédias gregas. Para a superior inteligência freudiana de alguns críticos, todavia, Kratos sempre foi vazio.

As cinzas de sua família que cobrem seu corpo nunca foram nada demais. A tragédia de matar a esposa e filha por engano, em uma raiva descontrolada causada pelos próprios deuses – algo que nunca aconteceu naquelas pobrezinhas peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes – também sempre pareceram descartáveis. Frágil Kratos! Sua busca por vingança contra os deuses do Olimpo após ser traído pelos mesmos soa, aos ouvidos te tais críticos, como um roteiro assinado por Michael Bay.

Peço um pouquinho de calma. Vejamos, com menos ironia, do que se trata o problema.

Kratos, literalmente, representa a queda do cosmos. Em outros pontos de vista, as origens mais remotas da filosofia grega guardam em si exatamente a caída de uma consciência baseada na ordem de Zeus no mais terreno e perigoso relativismo, já desvelado na Atenas do século V, símbolo do ápice e da ruína da civilização grega vivenciada por Sócrates e Platão. Quem comparou minimamente um texto de Ésquilo e um de Eurípedes conseguirá ver onde a fé de cada um reside.

Concordo com um dos argumentos mais falados pelos que tratam o caráter de Kratos como o de uma criança da quinta série: é evidente que o protagonista serve como fio condutor para o cenário maior que o engole – ou tenta engoli-lo. Não há demérito nisso. Muito pelo contrário, em Homero o sujeito, antes de ser sujeito, no sentido corrente que vem, pelo menos, desde Descartes, é um sujeito da narrativa. Não é errado situar Kratos na passagem da consciência mítica à trágica – o assassínio dos deuses perpetrado pelo filho de Zeus simboliza, se viajarmos um pouco além dos limites gamísticos, a própria passagem da ordem divina ao universo caótico.

Kratos, em sua hybris (fúria desmedida), já esquece a kléos (glória) que Aquiles buscava. Sua tragédia o faz levar o caos de sua vida ao Monte Olimpo. Seu fim – spoilers – só ocorre com o fim de seu pai, Zeus. Sem mais motivo para viver, sem mais vingança a buscar, Kratos se mata com convicção no final de God Of War 3, onde o universo é mostrado em pleno caos sem o mandamento dos deuses.

Um personagem destes pode ser tudo, menos imaturo.

Não é porque seus traumas emocionais ficam nublados em meio à raiva, ao sangue e aos gritos das suas falas que seu caráter se torna infantil. Kratos pode ser mais simbólico e menos literal, mas se isso pouco agrada a sensibilidade contemporânea, afirmo com toda certeza que o problema está nessa sensibilidade pouco afeita às narrativas míticas. Servir à narrativa maior, ser parte indestacável de seu universo e representar a quintessência da hybris grega nunca podem ser considerados aspectos risíveis ou imaturos seja por qual crítico for.

Há ainda mais um incômodo.

Entre o sangue e a nudez da trilogia original – esses, sim, muito ressaltados como absurdos adolescentes e machistas por tantos analistas prafrentex – a tal figura vazia do protagonista soa como pueril para muitos. Após o belíssimo The Last Of Us, a exigência por uma interioridade emocional mais sutil ficou ainda maior na indústria: todo personagem precisou ganhar traumas para serem re-enfrentados quando o jogador pega o joystick na mão. Nathan Drake que o diga em seu capítulo final.

E mais: se houver uma criança para contrastar com o protagonista brutal, voilá! Logan, Joel e, agora, o não tão jovem Kratos – mas ele já não era velho?? – ganhou (mais um) filho. Clive Owen mandou lembranças.

A conhecida busca interior, psicológica, por uma inocência perdida, ou a jornada para readquirir confiança em um mundo cheio de dor e sofrimento que joga o homem de um lado para o outro são para lá de conhecidas es esgotam a cada ano que passa. Não há pecado em retomá-las, seja em qual mídia for. O problema é tratar, na nova saga, Kratos como “Kratos, mais velho e já pai, busca uma nova aventura com seu filho após o falecimento da mãe do menino”.

Lembremos, rapidamente, alguns pontos.

Kratos já foi esposo. Kratos já foi pai. Os deuses tiraram esposa e filha de sua vida da forma mais trágica possível. Em sua jornada não há redenção, há vingança. O flerte com a redenção vem apenas no poético final da trilogia, mas sua busca de vingança é o alicerce tanto de seu caráter quanto da própria série, que a utiliza para retratar os deuses sob a ótica de um ex-general espartano com ódio mortal de qualquer ente divino.

Por que, diabos, colocar Kratos novamente no papel de pai? Desde quando God Of War virou um looping com apelação emocional? Kratos desesperançoso do mundo após longo exílio…ora, a primeira cena do primeiro God Of War começa assim! Nosso protagonista, à beira do suicídio, sem conseguir colocar esperança no mundo e… depois de longos anos, horas jogadas e três obras, não por acaso, é a menina Pandora quem aparece e fecha a temática da trilogia. Onde está o caráter vazio do nosso herói? Onde está o vanguardismo e a reimaginação de God Of War 4?

O que se pinta como profundidade de personagem, face escondida ou maturidade finalmente atingida são, em God Of War, bobagens monstruosamente ingênuas. Além de servirem para diluir Kratos no mar de clichês – o homem soturno, traumatizado, mas de bom coração – , servem para edulcorar a franquia em um ethos atual que nunca coube nos jogos anteriores, justamente por se proporem à rima poética com as tragédias gregas e ao retrato da mais rica mitologia ocidental. O que antes era exceção nos games, agora se torna banalidade.

Kratos não se desenvolve psicologicamente, nos moldes atuais, porque isso seria um erro grotesco e patético de seus roteiristas. Infelizmente, God Of War não passou incólume à influência de The Last Of Us. A preguiça de seus desenvolvedores – e o marketing – impediram a exclusão de Kratos, que aqui se torna outro personagem, completamente distinto do que vimos nos três primeiros jogos.

Se a estória do game explica isso, só saberei quando o game entrar em promoção. Graças às entrevistas criativas das mentes brilhantes por trás da obra, salvarei meu rico dinheirinho e minha pobre memória, agora desgastada em saber o que fizeram com Kratos e sua sede por sangue. Em nome da humanização e do amadurecimento, Kratos se tornou anacrônico, fora de seu tempo e, pior do que tudo o que foi falado, genérico e frouxo.

O amor da comunidade por essa “nova face” – todo jovem acha que inventou a juventude, já disse Millôr Fernandes – é só mais um sintoma que, de todas as mídias pop, é a dos games que contém mais onívoros autômatos. Para o povo que idolatra a jogada de marketing da Sony como genial, até Medeia é uma personagem rasa e imatura.

A ironia nunca foi tão forte.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.