Fora de Plano #19 | Coletiva com Quentin Tarantino (Os Oito Odiados)

“You’re acting like a first year fucking thief, I’m acting like a professional!” 

No dia 23 de novembro, Quentin Tarantino veio ao Brasil. Não só ele. Tim Roth também foi presença marcada na coletiva de imprensa exclusiva após a sessão antecipada de Os Oito Odiados, filme que terá sua crítica publicada na véspera de Natal. Nosso presente especial para vocês, estimados leitores. Limito-me a dizer que o enorme longa de três horas é um ótimo filme, mas a fórmula “tarantinesca” está começando a desgastar. Sua linguagem e modo de elaboração textual é tão própria e forte que passou a ficar manjada. Antes tínhamos textos brilhantes, hoje temos textos ótimos com atores brilhantes. Enfim, aguardem a crítica completa.

Nesse fatídico dia, Tarantino e Roth sentaram-se à mesa enquanto jornalistas ansiosos trocavam burburinhos. Tudo parecia realmente promissor. Eu estava me sentindo realizado. Poder fazer uma pergunta a um dos cineastas mais influentes deste século é um privilégio. E escutá-lo falar de cinema e suas obras por quase uma hora foi algo de extrema importância para aprimorar ainda mais a concepção que eu tenho sobre cinema tanto na tese – crítica, quanto na prática – sou cinematografista, por isso tenho um certo domínio ao comentar sobre a técnica cinematográfica nos meus textos. Meus amigos me chamam de um híbrido que não consegue agradar muita gente. Eu acho ótimo.

Entretanto, assim como em um filme de Tarantino, aquela reunião na sala do Hotel Hyatt viraria uma das experiências mais embaraçosas de minha vida. Não por falha minha, nem dos entrevistados e muito menos da assessoria de imprensa da Diamond Filmes que só merecem aplausos, mas sim da imprensa brasileira destinada ao entretenimento em geral. Pode soar arrogante, mas tento ser o mais honesto possível em minha vida. O que tivemos naquele dia foi um festim de mediocridade. Os Kamicrazy boys de Immortan Joe ririam da tamanha incompetência demonstrada por tantos. O resumo da ópera foi o seguinte: perguntas com politicagens estúpidas – não é só um vício do cinema nacional, perguntas com referências errôneas e completamente descabidas, provocações imbecis que, espero, não serem intencionais entre o despreparo psicológico e falta do domínio básico da língua inglesa, além de conhecimento raso sobre cinema, sua técnica, teoria e a importância do surgimento de Tarantino no cenário cinematográfico dos anos 1990.

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Entre a muitos momentos de vergonha alheia, implorei pelo microfone para poder fazer uma pergunta que julgava ser séria. Menos dessas perguntas idiotas pop para realizar manchetes ambíguas que visam o acesso barato ao artigo para então entregar um conteúdo preguiçoso, estapafúrdio, mal escrito, cheio de emojis e outros coloquialismos afetados para forçar simpatia ao leitor. Entretanto, por uma conspiração cósmica, dei o azar de não conseguir o disputado microfone. Não fiz pergunta alguma a Tarantino. E ele respondeu a todas as perguntas de modo elegante, educado e repletas de detalhes por mais estúpidas que elas fossem. Essa foi a minha sorte para elaborar esse artigo. Se não fosse a boa vontade de Tarantino, eu me recusaria a escrever esse texto, pois nada de relevante seria merecedor de nota.

Algumas das minhas perguntas seriam: qual outro gênero você pretende explorar nos seus próximos dois últimos filmes? Por que parar no décimo? Como você percebe o reflexo da ausência de Sally Menke em seus filmes? Qual foi o propósito de filmar em Super 70 um longa que se passa, em sua maioria, em um cenário? Quais foram os desafios impostos ao rodar com um formato tão incomum? Por que neste filme, há menos trabalho estilizado de câmera como em seus outros filmes? Até quando pensa ser possível filmar em filme? Usará mais uma vez o Super 70? Depois de dirigir seu último filme, ainda continuará a trabalhar como roteirista? Quais foram as alterações no texto após o infame vazamento do roteiro completo do longa? Como reagir diante a algo tão drástico? Por que decidiu retomar a produção do longa após o vazamento? Este é seu filme mais sério, suas marcas autorais estilísticas visualmente são mais sutis. Por que a escolha?

Então vamos as perguntas que de fato surgiram na vergonhosa coletiva de imprensa – não sei por que fiquei tão incomodado com a mediocridade apresentada já que a coletiva de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido foi tão decepcionante quanto essa.

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MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.