Fora de Plano #32 | Diário de um Roqueiro Velho e Rabugento (Rock in Rio 2017)

Obs 1: Sou MUITO rabugento, uma espécie de amálgama do Mutley, Zé Buscapé, Raiva (de Divertida Mente), Sr. Fredricksen (de Up – Altas Aventuras), da dupla John Gustafson e Max Goldman (de Dois Velhos Rabugentos), além de pitadas de Bill Munny (de Os Imperdoáveis) aqui e ali. Portanto, rabugices seguirão! Ajustem suas expectativas de acordo…

Obs 2: É muito possível que sua banda/cantor/cantora favorito(a) seja xingado(a) na presente crônica. Se você for daqueles que não aguentam “tanta injustiça” ou “críticos metidos a besta que não sabem nada”, sugiro procurar sites que só falam bem daquilo que você gosta. Certamente tem um monte por aí…

Obs 3: Este artigo não é uma crítica. Apenas um punhado de observações informais.

XXXXXXXXXXX

Sou uma besta quadrada.

Ao final da edição de 2015 do Rock in Rio, depois de, por razões alheias à minha vontade, ter tido que faltar ao show do Metallica e ido somente ao dia do Faith No More (vide meus comentários aqui), prometi a mim mesmo que aquele seria meu último mega-espetáculo. Afinal, parafraseando Murtaugh, eu já estava velho demais para esse tipo de coisa, com o pessoal mais novo do meu trabalho confirmando minha suspeita e repetidas vezes olhando para mim como se eu fosse um E.T. toda vez que eu digo que gosto de heavy metal. E, convenhamos, sendo veterano de todas a edições nacionais do Rock in Rio desde a primeiríssima de 1985, parar no 30º aniversário do evento teria sido uma marca bacana, daquelas que a memória cada vez mais falha demoraria mais a esquecer.

Mas não. Eu não parei. E, pior, fui a três dias SEGUIDOS da edição de 2017 do festival, talvez a que menos tenha me interessado em termos de line-up, pela mais absoluta ausência de heavy metal, com a honrosa exceção do Sepultura. Por que então três dias, seu animal de rabo idoso? Simples. Um dia, pois minha esposa queria ver o Tears for Fears e o Bon Jovi, outro porque eu queria ver o The Who e, finalmente, o terceiro, pois minha filha mais velha queria ver o Thirty Seconds to Mars. Sou rabugento, mas faço o que tiver que fazer para evitar um motim em casa…

Ingressos comprados, a decisão era então como ir. Considerando que eu tenho verdadeira ojeriza a aglomerações de gente mal educada, ir de metrô + BRT (sigla que só pode significar “Bandidos Roubaram o Trem”, já que era para ser metrô, mas, graças aos bolsos gananciosos de políticos, tornou-se uma linha de ônibus bem mequetrefe) era pedir para me irritar profundamente. Eu sabia disso. Tinha certeza disso. No entanto, como deixei bem claro, sou uma besta quadrada e lá fui eu, em plena sexta-feira, na hora do rush, pegar um metrô lotado de “roqueiros” (sim, entre aspas, pois Bon Jovi só é rock se você considerar Tears for Fears como samba), somente para ter que desembarcar na única estação do “pequeno” bairro chamado Barra da Tijuca (basicamente um monte de shopping centers em sucessão dos dois lados, com trânsito engarrafado no meio) para baldear para o tal BRT (sim, foi minha primeira vez no BRT). Considerando a turba ruidosa e ensandecida – essa galera já deve sair bêbada de casa, só pode – foi um verdadeiro milagre eu não ter testemunhado um acidente ali, com gente sendo atropelada por ônibus sanfonados já que não há proteção alguma no embarque, ainda que, em pensamento, eu tenha pessoalmente empurrado vários e degolado outros tantos com minhas duas katanas imaginárias.

Mas cheguei vivo e sem ter me tornado um assassino serial. A organização do RiR, em si, pela primeira vez no Parque Olímpico (aquilo lá tem que servir para alguma coisa, não é mesmo?), até que foi boa, pois, calejado como sou, já vim comido (ha, ha, ha, não tem graça sua piadinha não), não bebo álcool, não me drogo e tenho excelente controle da bexiga, graças a anos de treinamento. Portanto, nada de banheiros, nada de filas para comprar absolutamente coisa nenhuma. Claro que eu prefiro o lugar mais aberto das edições anteriores, pois, no Parque Olímpico, o drible necessário para dar voltas nos estádios geravam gargalos e trânsito de pessoas, mas não foi nada mortal, mesmo considerando que, aparentemente, a população é quase toda composta de parvos que andam como se estivessem sozinhas, sem obstáculos a frente e sem a menor intenção de desviar de nada.

Uma vez posicionando-me em local razoavelmente próximo, mas civilizadamente distante do palco, plantei raízes e não mais me movi, apesar da nutellada toda ao meu redor, facilmente com metade da minha idade, PRECISAR se sentar a cada intervalo, por mais curto que fosse. Aliás, falando em intervalos curtos, acho isso muito bacana, o que força as bandas a começarem na hora e a não se atrasarem por duas horas como o palhaço do Axl Rose em 2011 (e não, chuva não é desculpa para esse atraso todo), mas, por outro lado, com exceção dos headliners, que têm espaço para se alongar (como o Bruce Springsteen em 2013 e o Gun ‘n Roses este ano), tira muito da liberdade de uma banda improvisar, de volta para aquele segundo ou terceiro bis porque a galera está pedindo. De certa forma, o exagero da organização atrapalha qualquer semblante de espontaneidade, o que é desapontador.

Mas agora é que a proverbial porca torce o rabo, pois passarei a destilar meu veneno discorrer sobre minhas breves e informais impressões sobre cada show que assisti:

Dia 22 de setembro

Ney Matogrosso & Nação Zumbi (e não o contrário!)

O show do Ney Matogrosso foi o primeiro da primeira edição do Rock in Rio e eu estava lá. Nunca efetivamente coloquei um disco dele para ouvir (porque eu sou daqueles que “coloca um disco” e não que liga o celular no aplicativo X, Y ou Z), mas sempre gostei da forma como ele se apresentava. O sujeito, no mínimo, merece todo o nosso respeito por estar na ativa no alto de seus 76 anos e, ainda por cima, parecendo não mais do que 55, ainda com o corpo esbelto (inveja, inveja, inveja!!!) e uma bela voz.

O problema foi pareá-lo com o uludum genérico que acha que percussão e baixo descontroladamente altos é música do Nação Zumbi. E o vocalista da banda – não sei o nome e não vou pesquisar – ainda tem a pachorra de anunciar Nação Zumbi & Ney Matogrosso e não o contrário, enquanto que ele deveria estar de joelhos rezando para sei lá que entidade ele reza por dividir o palco com o Ney Matogrosso. O resultado foi um barulheira infernal com músicas parecidas umas com as outras, que também tinha o Ney Matogrosso por ali (e no telão atrás) e que recebeu “permissão” para cantar duas ou três músicas dele (praticamente as únicas músicas de verdade do show). Ney estava visivelmente desconfortável e o sujeito do Nação Zumbi parecia um motoqueiro recém-demitido por incompetência do Sons of Anarchy.

Alter Bridge

Minha vida só teve espaço para uma banda de rock farofa: Bon Jovi. E isso até Keep the Faith (mais sobre isso adiante). Alter Bridge é como se fosse o genérico do farofa. Acham que são roqueiros só porque aprenderam a tocar guitarra em algum lugar não muito bom.

Como som de fundo, confesso que eles atrapalharam minha conversa com esposa e amigos. Da próxima vez, trago um fone de ouvido com cancelamento de som para ouvir música de verdade…

Tear for Fears

Antes que alguém reclame que o Tears for Fears jamais deveria abrir para o Bon Jovi, por favor sentem-se aí no seu cantinho da alucinação coletiva e acalme-se. O Tears for Fears não tem nem um vinte avos do poder de atração de público que o Bon Jovi tem, mesmo nos dias atuais em que o Bon Jovi é um pastiche dele mesmo (e cá estou eu me adiantando de novo). Portanto, menos. BEM MENOS.

Mas o Tias Fofinhas efetivamente tem musiquinhas divertidas que bem marcaram uma época. Não é um grupo para tocar em um festival desses a céu aberto diante de 100 mil pessoas, mas não fizeram feio não. Uma boa seleção de hits nostálgicos, como todo o grupo que ressurge das cinzas deveria fazer. No entanto, a verdade nua e crua é que o grupo funcionaria bem melhor em ambiente menor, fechado, de preferência com o público assistindo sentado.

Bon Jovi

Na década de 80, venerava esses caras. Tenho até hoje os vinis originais de Slippery When Wet e New Jersey que, provavelmente, já estão transparentes de tão tocados em minha vitrola (pesquisem aí no Google para descobrir o que é isso…). Sim, sempre soube que eram farofões, mas nunca me importei de verdade, pois, como disse, havia espaço para um grupo dessa categoria em minha vida. Mas, depois, o Bon Jovi começou a soltar álbuns repetitivos e cansativos. O último chega a doer os ouvidos, pois “Jon” resolveu de vez marketear-se pela imagem de “velho enxuto” com dentes tão brancos que só podem ser escovados com Bombril e água sanitária e cabelos tão meticulosamente bagunçados que tenho que me segurar para não rir toda vez que vejo o sujeito performar no palco.

Mesmo tendo mandado ver no vitriol, confesso que ainda gosto dos hits clássicos do grupo e “Jon” ainda tem voz suficiente para comandar um show. O problema da banda é que, assim como aconteceu no RiR de 2013, ela insiste em fazer um show do Bon Jovi mesmo considerando que ela está no RiR. Em outras palavras, eles ficam divulgando o álbum mais recente do ano e não fazem o que qualquer banda sensata faria em festivais dessa natureza: um best of. Ah, mas é importante trazer músicas novas. Hummmm, marromeno… Se fosse show deles, claro, faria sentido. Mas, como headliner do Rock in Rio, eles deveriam desfilar um hit atrás do outro, somente eventualmente trazendo canções mais recentes. Ninguém, nem o fã mais enlouquecido, trocaria Social Disease por This House is Not For Sale.

Dia 23 de setembro

Incubus

Já cansado do primeiro dia, cheguei mais tarde no segundo, minutos antes do início da apresentação do Incubus, banda que só conhecia de nome e que, exatamente por ele, achava que era de heavy metal. Afinal, nenhuma banda vai se batizar de “demônio” sem tocar heavy metal, não é mesmo?

Ledo engano. Eles começam a tocar e o que vejo é um rockinho bem bobo e super-bem comportado que me fez indagar se eles sabem o que significa a palavra “íncubo”. Afinal, se é para tocar esses negocinhos melosos, seria bem menos enganoso um nome como Angelus ou Aurae.

Mais um que me fez cobiçar um daqueles fones de ouvido caros pacas, com cancelamento de som.

The Who

E, finalmente, chegou o momento pelo qual esperava. Apenas para situar os leitores, nunca fui verdadeiramente fã do The Who e nunca realmente parei para escutar um disco deles de cabo a rabo, ainda que, claro, conheça suas músicas mais famosas e algumas nem tão famosas assim. Mas era o The Who, na primeira vez que vinham ao Brasil. Impossível deixar de conferir, especialmente considerando que os membros remanescentes, Roger Daltrey e Pete Townshend têm, respectivamente, 73 e  72 anos de idade. E os dois entraram no palco com plena energia, mostrando que ainda têm muito para mostrar.

Descontração, veteranice e hits atrás de hits marcaram o show, com Townshend servindo de Mestre de Cerimônias (no bom sentido, não no sentido Jared Leto) e Daltrey mais quieto, mas poderoso em sua voz. Esse teria sido o típico show para ser estendido ao máximo, não ficando preso por horários rígidos que acabaram forçando o grupo a encerrar mais cedo algo que tinha o potencial para continuar.  Não que eu ache que eles deveriam ser os headliners, pois o Gun n’ Roses claramente tem mais poder para atrair público, mas creio que a organização do RiR deveria ter planejado algo especial para os dois.

Mas o rockão clássico do The Who mais do que fez valer a pena o dia.

Guns n’ Roses

Quando o Axl Rose se atrasou duas horas para entrar no palco em 2011, jurei que jamais voltaria a vê-lo em show. E mantive a promessa por seis anos, só quebrando por causa do The Who, já que eu não iria embora em seguida, depois do esforço que foi chegar lá no Parque Olímpico. Portanto, com a única expectativa de que o show começasse na hora, esperei o Guns. E, para meu eterno alívio, eles entraram na hora, sem frescuras.

E ficaram por lá por nada menos do que 3h30′.

Independente do que eu ou você achemos dos frangalhos da voz do Axl Rose (ou da pessoa que engoliu o Axl Rose original), temos que respeitar um grupo que se digna a fazer algo assim. É tão raro ver shows hoje em dia que chegam a 2h, quanto mais 3h30′. E, com hit atrás de hit, o Gn’R se redimiu – pelo menos para mim – do fiasco de 2011. Sim, a voz do Axl foi para o brejo, mas, aqui, eu percebi que ele sabia disso. Escutei menos exageros vocais do que em 2011 e a volta da formação quase original, especialmente, claro, Slash, deu outro sabor à apresentação, com músicas estendidas com solos magníficos como um show de rock deve ser: sem músicas “de estúdio”.

No fim, The Who seguido de Guns n’ Roses reacendeu meu interesse pelo RiR, ainda que eu tenha certeza que reclamarei pacas quando inevitavelmente estiver na edição de 2019.

Dia 24 de setembro

The Offspring

O dia 24 de setembro foi o dia do “pai leva filha ao Rock in Rio” lá em casa. Minha esposa já a havia levado no primeiro dia, que era para ser Lady Gaga, mas foi Maroon 5 e, agora, era minha vez.

Era o terceiro dia seguido, pelo que cheguei tarde de novo, mas cedo o suficiente para ouvir The Offspring, grupo que conhecia apenas de nome, mas reconheci o total de uma música que eles tocaram e mesmo assim sem saber o nome ou conseguir cantar o refrão. Mas tudo bem, pois a apresentação, apesar de muito rápida, foi boazinha. Nada espetacular, mas o grupo, com uma pegada mais punk, tem presença de palco e engatou uma música atrás da outra em um resultado animado e bem profissional.

Logo pensei comigo mesmo: a noite começou surpreendentemente bem, quem sabe não continua assim?

Thirty Seconds to Mars

Claro que minha felicidade durou pouco. Mas deixa eu começar pelo começo: minha filha mais velha, há uns dois anos, tinha um calendário do Thirty Seconds to Mars pendurado na parede. Nunca dei muita bola para ele até o dia que vi o Jared Leto na foto. Leto, para mim, era ator e somente isso. Foi aí que descobri que, apesar de ele ter começado como ator, ele era também cantor e de uma banda grande o suficiente para ser o penúltimo show de um Rock in Rio. Ou, pelo menos, ele acha isso.

Quando ele entrou vestido de “mujahidin peruano gay”, achei até divertido, mas minha diversão começou a esvaziar-se quando minha outra filha – a que tinha ficado em casa – me avisou por mensagem que tinha visto o setlist dele e que era impossível o show durar mais do que meia hora. Dito e feito, Jared Leto, como cantor, demonstrou-se um ótimo Mestre de Cerimônias (aqui, no mau sentido), uma verdadeira versão masculina da Carmen Miranda com frutas na cabeça ou, talvez mais precisamente, a versão magra e Coringa do Chacrinha. E ele fala com o público, toma açaí, fala com o público, pede para todo mundo levantar a mão, fala com o público, anda de tirolesa, fala com o público, pede para um ou dois subir no palco, fala com o público, vai até o palco (que não é palco) do meio, fala com o público, pede para 100 pessoas subirem no palco, fala com o público e assim por diante. Ah, eu já disse que ele fala com o público?

Ou seja, o Thirty Seconds to Mars é um não-grupo e Jared Leto é um não-cantor. Acabei vendo um não-show de música. Um programa de variedades, no máximo… E ruim…

Red Hot Chili Peppers

Nunca gostei do Red Hot Chili Peppers (ou Rédi Róti, para os íntimos…). Já tentei escutar seus discos, mas, sei lá, não desce. Mas, bravamente, fiquei no show todo, porque esse negócio de sair antes é coisa de roqueiro de meia-tigela.

E, para o leitor ver como não deixo meu desgosto pessoal sobre uma banda afetar meu julgamento, adorei a apresentação dos californianos. Energética, engatando uma música atrás da outra e com excelente presença de palco sem necessidade de se vestir como Clóvis Bornay e seu clássico Nabucodonosor, o Conquistador e ficar pedindo participação do público o tempo todo como um cachorro de rua.

Só achei que foi um show curto demais para ser o encerramento de um evento da magnitude do Rock in Rio. Sim, todo mundo tinha que trabalhar na manhã seguinte, mas vamos combinar que, se você está em um show de rock até as duas da manhã, você sabe que seu trabalho será, de alguma forma, sacrificado. E, se é assim, então melhor é chutar o balde de uma vez.

XXXXXXXXXXX

Então, depois disso tudo, sim, sou uma besta quadrada.

Mas estarei no festival de novo em 2019 e isso sem contar em um ou outro show até lá. Sairei xingando boa parte, adorando outra parte e certamente ainda mais rabugento.

It’s only rock ‘n’ roll but I like it!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.