Fora de Plano #18 | Faith No More – De Rock in Rio a Rock in Rio

Já sentindo o peso da “idade”, mas também muito por culpa da fraca seleção de bandas no Rock in Rio comemorativo dos 30 anos de um dos  eventos musicais mais importantes do mundo, somente tive a oportunidade (e vontade) de assistir ao vivo e à cores um dia do festival. Por questões alheias à minha vontade, tive que faltar ao dia do Metallica e fiquei “apenas” com o dia do Faith  No More (ao fãs do Slipknot que discordarão do batismo que dei a esse dia, perdoem minha “velha guardice”, pois, apesar de gostar do grupo dos mascarados como um divertido e pirotécnico show, nunca apreciei de verdade berros guturais ininteligíveis ao microfone…).

Na verdade, o dia do Faith No More era, para mim, até mais interessante que o do Metallica, primeiro por que já tive a oportunidade de ver James Hetfield e sua galera uma penca de vezes antes e, segundo, porque no Palco Sunset o Nightwish tocaria com a nova vocalista e, principalmente, o mestre Steve Vai se apresentaria em conjunto com a Camerata Florianópolis em um show que acabou sendo uma inusitada combinação de instrumentos clássicos e, bem… guitarra tocada com a língua…

Mas eu divago, pois estou aqui, como o título deixa claro, para falar da minha experiência entre um Rock in Rio e outro como o Faith no More no lineup. Aliás, agradeço ao nosso editor de música Handerson Ornelas pela sugestão do artigo e por sua insistência que eu o fizesse, apesar de não me sentir completamente à vontade para escrever sobre música (por isso eu me desviei de uma crítica e decidi por um Fora de Plano).

Duas coisas o leitor que se interessar por esse artigo deve saber sobre mim: sou o que se pode chamar de um veterano do Rock in Rio. Afinal, fui a todas as edições do festival realizadas no Brasil, desde a mítica primeira vez – EU FUI! – em 1985, quando, ainda muito jovem, com apenas 12 anos, tive a oportunidade de assistir ao lendário e talvez imbatível show do Queen com minha mãe (que foi aos DOIS dias do grupo e não me levou no segundo – ARRRGGGHHH!!!!!!!). Portanto, conheço bem a evolução do festival de algo meio “nas coxas”, mas maravilhoso, com direito à lama até o joelho (que, aliás, surrealmente está sendo vendida como troféu nas enormes lojas do evento espalhadas na Cidade do Rock por “meros” 180 reais), para uma versão mais domada e regrada como essa última edição, em que, no dia que fui, foi até frustrante o grau de exatidão de tudo que ocorreu: nenhum (NENHUM MESMO) atraso, com shows em geral que não deram asas ao improviso e à extensões maiores do que uma hora e bem pouco, com exceção do último que, porém, também não foi tão longo. Sinto falta de um pouco de desorganização (eu sei, maluquice…) e não vi isso no dia em que  fui – até os banheiros estavam limpos!

Bem, a segunda coisa que o leitor deve saber é que eu acompanhei o nascimento da versão definitiva do Faith No More, em 1989, quando Mike Patton passou a ser o vocalista. Então com apenas 21 anos, Patton era um poço de estranheza, de energia e era detentor de uma voz característica, rascante e inesquecível. Sua chegada reviveu o grupo, que antes nunca havia alcançado qualquer grau de sucesso, com o cantor escrevendo as músicas que comporiam o fantástico álbum The Real Thing em meras duas  semanas. O sucesso do videoclipe de Epic, repetido ad nauseam na MTV foi explosivo e eu, junto com amigos, enlouquecemos na sana de (1) adquirir o CD (aquele objeto redondo e prateado, estão lembrados?); (2) escutá-lo até nossos pais berrarem conosco para pelamordedeusetudoqueémaissagrado pararmos; (3) decorar TODAS as músicas, tintim por tintim, inclusive tentando imitar a voz do vocalista e (4) dançar que nem o Patton insano literalmente quebrando os objetos mais frágeis de nossos respectivos quartos.

Portanto, quando a organização do festival que eu já amava e cuja segunda edição esperava ansiosamente, anunciou que o Rock in Rio II, a ser realizado em janeiro de 1991, traria o então substancialmente recente (na fama) Faith No More, não houve dúvidas que teria que estar lá na frente. O foco foi literalmente terminar de estourar os ouvidos com We Care a Lot, Introduce Yourself (os dois discos pré-Patton) e The Real Thing e arrumar grana para comprar os ingressos.

Apenas para relembrar, o dia original do Faith no More colocava o grupo como o antepenúltimo a tocar, depois dos brasileiros Hanói Hanói e Titãs e antes de Billy Idol e Guns N’ Roses (este último também em sua época de ouro, antes de Axl enlouquecer de vez). É ou não é um lineup “de responsa”? O engraçado é notar que, há 24 anos, o Faith No More não encabeçou um dia de RiR e, agora, também não, avançando apenas uma mísera posição, para o penúltimo da noite…

Mas o importante é que, por incrível que pareça (e sim, até eu me espanto com isso), lembro-me com detalhes do show original do FNM (cansei de escrever o nome completo, ok?), da simplicidade e sobretudo improviso de palco de Patton e companhia, em um show gutural, cheio de coração e muita, mas muita loucura. Quando o grupo entrou no palco, a galera da frente – eu e meus amigos em plena forma física de outrora – não se conteve e foi abaixo, muito provavelmente para surpresa do grupo e da “galera de trás”.

O palco era simples, com caixas de som empilhadas e apenas o grupo. Nada de floreios (e a palavra aqui não foi escolhida em vão) ou frescuras. Era rock mesmo, sem firulas, sem saídas do palco (Nightwish, estou falando com você!), sem preparativos, sem pirotecnia, sem caveiras de bode ao fundo e baterias giratórias (ok, agora estou implicando…). Eram só Patton, o baterista Mike Bordin, o baixista Billy Gould, o tecladista Roddy Bottum e o guitarrista Jon Hudson. Mas meus olhos ficaram transfixados em Patton, por seu magnetismo, seu olhar vidrado, sua movimentação insana no palco, sua voz que ao vivo se mostrava tão ou mais potente que no álbum de estúdio.

Lembro-me de Patton andando como um zumbi, cantando com microfone enfiado na cara, pulando e girando como o Taz (aquele dos Looney Tunes) e chutando caixas de som ao ponto de derrubá-las. Devia ser a sensação musical equivalente a cheirar algumas carreiras de cocaína (substância essa que, não é possível, Patton tinha que ter usado antes de entrar no palco e nos micro-intervalos). O setlist foi magnífico e eu o trago abaixo para que o leitor possa relembrar (ou descobrir agora):

The Real Thing
We Care a Lot
The Crab Song
Epic
War Pigs (cover do Black Sabbath)
From Out of Nowhere
Sweet Dreams (cover de – pasme – um comercial da Nestlé)
Surprise! You’re Dead
Underwater Love
Easy (cover dos Commodores)

Com exceção de We Care a Lot, The Crab Song e os covers dos Commodores e do bizarro anúncio da Nestlé, todas as demais canções foram tiradas do super-sucesso The Real Thing. Uma espécie de best of de um álbum só, com os melhores do passado pré-Patton e Easy, que se tornou padrão da banda.

No ano seguinte, a banda lançou o álbum Angel Dust, talvez mais experimental ainda que o anterior e meu interesse pela banda começou a cair, ainda que eu a tenha acompanhado até seu fim em 1998. Quando o FNM voltou a se juntar dez anos depois, em 2008, meu interesse por eles já havia desaparecido, ainda que eu volta e meia lembrasse da loucura de 1991 e as horas e horas de diversões que tive escutando The Real Thing. Tamanha foi minha apatia que simplesmente ignorei os shows deles pelo Brasil nessa volta e só comecei a ligar novamente meu radar quando Sol Invictus, o primeiro álbum do FNM em 18 anos, foi anunciado.

Muito graças à crítica do editor de música Handerson Ornelas (Handerson, como combinado, te citei duas vezes na minha crônica – aguardo o depósito do valor acertado em minha conta agora, ok?), procurei o álbum para escutar e comecei devagar, descobrindo aos poucos que o grupo tinha conseguido recapturar seu  vigor antigo. Afinal, como ignorar canções como Motherfucker, Sol Invictus, Superhero e Matador? A qualidade do trabalho da “terceira” volta da banda atiçou minha curiosidade pelo show ainda mais.

E, com essa curiosidade no pico, me vi lá no meio da “muvuca” mais uma vez, com um de meus  amigos de 1991, depois de todos esses anos nessa indústria vital. Aguardava Faith No More depois de ter me desapontado um pouco com Nightwish e me divertido com Steve Vai e de ter solenemente ignorado a musicalidade nula do De La Tierra e de ter me surpreendido com o Mastodon. As pernas estavam doloridas – ah, a idade… – mas a disposição era grande.

Quando a caveira de bode do Slipknot (que não deveria estar lá naquele momento para começo de conversa) começou a ser coberta por uma enorme cortina branca como os dentes do Sílvio Santos, o show de 1991 passou todinho na minha cabeça novamente. Quando, em seguida, o palco foi se transformando em um terreiro de macumba, todo branco e cercado de vasos de plantas também brancos, comecei a ficar preocupado, mas aí me lembrei que esse cenário hospitalar era meio que padrão para o grupo há algum tempo por razões que não me preocupei  em pesquisar (cada louco com sua mania…).

O Faith No More, então, afastando a chuva que começava a armar (foi macumba?), entrou, como cinco pais de santo. Uma visão, digamos, ridícula e de difícil aceitação para quem viu o grupo despido de frescuras em 1991. Mas excentricidades são excentricidades e se a Madonna pode exigir que o tampo dos vasos sanitários que ela usa viajem de volta com ela, porque o FNM não poderia receber a pomba gira no palco? Afinal, o que importa é a música, o show em si, não é mesmo?

E, com isso em mente, comecei a escutar Patton cantando. Diferente de minha experiência com Axl Rose no Rock in Rio 2011, a primeira coisa que ficou abundantemente evidente é que Patton sabe dos limites do peso da idade sobre sua voz. Nada de exageros desconcertantes como a insuportável banana amarela há quatro anos. Nada de ir além do que alguém com a abrangência vocal de Patton pode fazer com a idade que tem, considerando o quanto as músicas do grupo exigem dele. Esse foi o primeiro momento em que senti que o show não desapontaria.

Começando com Motherfucker do novo disco, escolha perfeita pela simplicidade da canção e o quanto ela marca mesmo quem a escuta pela primeira vez, o FNM logo engatou no classicão From Out of Nowhere, de The Real Thing e Caffeine, de Angel Dust, seguida de Evidence, de King for a Day… Fool for a Lifetime, fechando a quadra de ases inicial com Epic. Foi outro momento em que senti que o show não desapontaria, pois o grupo preferiu o pot pourri no lugar de focar apenas no álbum mais recente, algo que TODA banda deveria fazer em festivais dessa natureza.

Não sei se foi exatamente nesse ponto que o maluco do Patton, completamente sem aviso, se tacou na plateia, esperando ser agarrado, mas não foi muito depois dessa hora. Esse foi o momento que eu achei que voltaria para casa sem ver o resto do show, pelo fato de o vocalista ter sido hospitalizado por estupidez musical (senti isso uma vez em um show do Iron Maiden em Los Angeles, quando Bruce Dickinson tomou um estabaco épico no palco sem que seus parceiros sequer parassem de tocar). Mas ele sobreviveu e, mancando (devia estar doendo pacas, pois ele fez algumas caretas de dor ao longo da apresentação), voltou ao palco. O que veio em seguida foram Black Friday, do álbum mais recente, Midlife Crisis, de Angel Dust e The Gentle Art of Making Enemies, de King for a Day… Fool for a Lifetime, fechando um novo ciclo com o já clássico cover de Easy. Estava consolidada a vontade do grupo de passear pela sua carreira no apertado tempo regulamentar de uma hora. Eu = pinto no lixo!

Jogando um portunhol aqui e ali, na tentativa de se comunicar com o público – mandou até mesmo um estranho “Fé Não Mais”, Patton não conseguiu criar um rapport muito bom. Talvez pela banda ser “antiga” (tinha gente jovem à minha volta que falava “esse tal de Faith No More“), talvez pela ansiedade pela chegada do Slipknot, o FNM não empolgou como em 1991. Mas gente, estamos falando da volta do grupo ao RiR “só” 24 anos depois. Tá mais que bom, especialmente para um “velho” como eu que estava adorando apesar da cara de poucos amigos de Patton (dor na perna ou fome?) e os babalorixás invocados no palco por aquela brancura florida toda.

A festa continuou com a trinca pré-bis: Separation Anxiety (Sol Invictus), Ashes to Ashes (a única de Album of the Year) e Superhero (Sol Invictus). A banda estava já um tanto quanto apressada, querendo acabar logo (ou talvez sendo obrigada a acabar logo, não sei, já que a rigidez de horário me impressionou ao mesmo tempo positiva e negativamente). O bis veio rapidamente, com a trinca final: I Started a Joke (cover do Bee Gees que o grupo já havia tocado no Brasil e cuja  faixa foi incluída em King for a Day… Fool for a Lifetime), We Care a Lot (clássico da fase pré-Patton que foi transformada em ouro por Patton) e, finalmente, Just a Man (também de King for a Day).

Foi um final menos empolgante de que poderia ter sido em um show em medidas iguais nostálgico e de apresentação do novo álbum, que serviu para mostrar que o grupo está sim bem obrigado e ainda sabe tomar o palco em mega-eventos. Poderia ter sido melhor? Sempre. Mas o “nível 1991”, pelo menos em meu coração, jamais poderia ser repetido.

Vinte e quatro anos separaram essas duas apresentações e o tempo “ruge”. Mike Patton e companhia sentiram o tempo e, sim, se adaptaram. Que eles continuem assim, pois este fã antigo aqui tornou-se um fã novo mais uma vez.

X-X-X-X-X-X-X-X

Obs (ou seria melhor dizer “reclamação sem relação com o texto acima”): Sei que a organização do evento, que permitiu a venda de cigarros no local também tem muita culpa, mas será que as pessoas REALMENTE precisam fumar (estou falando de cigarros comuns mesmo) em aglomerados de gente? Não existe nenhum grau de atenção à pessoa ao lado e consideração pelo fato que o raio da fumaça de cigarro atrapalha? Sei que é show ao ar livre, mas respeito ao próximo é um exercício constante. Quer estragar seus pulmões, vá lá para trás, de preferência em um canto qualquer com menos gente, e dê suas baforadas. Jogar fumaça na cara dos outros, em qualquer lugar, aberto ou fechado, é MUITA falta de educação. Mas acho que talvez seja pedir demais em uma cidade (é a minha, posso falar de cadeira!) e um país onde jogar lixo no chão é mais padrão do que exceção… Pronto, desopilei o fígado…

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.