Fora de Plano #48 | O Legado de Halloween

Michael Myers é um dos marcos da cultura pop, personagem presente no imaginário coletivo desde que apareceu pela primeira vez em 1978. Assassino de babás, o antagonista da franquia Halloween deu o pontapé inicial para os mascarados que aterrorizaram os jovens incautos na década de 1980, tornando-se um fenômeno da indústria cultural que ainda alcança as gerações mais atuais de cinéfilos. Além de ter atravessado os anos 1980 em mais quatro filmes, Michael Myers esteve nos anos 1990 em duas sequências, além de ter retornado na era da cibercultura em 2002, ganhado duas reformulações por Rob Zombie entre 2007 e 2010 e em 2018, surgir numa continuação direta de Halloween – A Noite do Terror, a sua primeira noite de matança.

Estampado em camisetas, globos de neve, bonecos e estatuetas artesanais, histórias em quadrinhos, almofadas, jogos Atari, dentre outros elementos da cultura do consumo cinéfilo, Michael Myers possui extenso legado, apresentado ao longo dos últimos 40 anos. Curtis Richards publicou um romance com a versão literária repleta de explicações sobre os impulsos assassinos do antagonista. O grupo Berkley Books assinou o projeto editorial com três romances juvenis ligados ao personagem. Recentemente, John Passarella publicou outra versão em romance da história de Michael Myers.

Na série Ghost Whisperer, protagonizada por Jennifer Love Hewitt, o mascarado possui uma participação especial no décimo quinto episódio da terceira temporada, intitulado Horror Show. Ao se comunicar com um espírito que a coloca diante de diversas cenas de filmes de terror, a protagonista enfrenta a fúria de Michael Myers e precisa de muito esforço para sair ilesa. Cold Case, famosa série sobre investigação criminal, apresentou ao público um episódio em que os protagonistas retomam um caso de 1978, pois novas evidências surgem para estudo e averiguação. A análise dos dados dialoga com o caso de uma vítima morta por um homem perturbado psicologicamente após ter assistido ao filme Halloween – A Noite do Terror numa sala de cinema.

Diante do exposto, o questionamento: o que tornou Michael Myers um predador tão poderoso? A resposta, caro leitor, encontra-se nos tópicos que seguem esta reflexão, uma análise crítica estética e contextual de um dos filmes de terror mais bem sucedidos da história do cinema nos últimos anos. Seu legado é extenso e em 2006, a produção foi selecionada para compor o National Film Registry, ambiente canônico que preserva filmes na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

A produção estreou em 25 de outubro de 1978, há exatos 40 anos. No Brasil, chegou apenas em 17 de maio de 1980. Com orçamento de U$300 mil, a distribuição ficou por conta da Compass International. Inesperadamente, Carpenter viu a sua criatura promover o faturamento de U$40 milhões nos Estados Unidos, fora o sucesso internacional. Era o começo de uma trajetória longa no bojo da cultura pop.

John Carpenter: um homem em meio ao turbilhão político e social dos anos 1970

Halloween – A Noite do Terror abandonou os temas dos anos 1930 e 1940 e focou no contexto mundial pós-guerra, com trama sediada numa “cidade quase fantasma”. Não que Vampiros, Lobisomens e outros monstros clássicos não importassem para a indústria, mas o foco dos anos 1970 era a heroína quase virginal, a data simbólica e o acontecimento do passado como recursos que estruturavam as narrativas, e, assim, permitiram a criação de um mapa mental básico para as produções que foram lançadas na esteira do sucesso de Michael Myers. Stephan Hutchinson, realizador do documentário sobre os 25 anos da franquia, lançado em 2003, reforça que o terror deixa de ser gótico para habitar o mundo moderno.

Na época, Jimmy Carter, então presidente dos Estados Unidos, via a derrocada de seus projetos no partido Democrata, problema diretamente ligado aos vetos que recebia dos não aliados, o que culminou numa administração caótica que aumentou a sensação de insegurança da população. Marcado pela estagnação econômica, o período sofreu com a constante inflação, além das crises oriundas dos conflitos com o Oriente Médio. No geral, havia um senso de que a moral e os bons costumes encontravam-se deteriorados. Em breve depoimento para o documentário Em Pedaços, John Carpenter reafirma que seu filme foi um retrato cabal desta época, pois nas palavras do cineasta, “as pessoas viviam diante de um sentimento angustiante de insegurança”.

Eleito em 02 de novembro de 1977, o democrata Carter se tornou o 39º presidente dos Estados Unidos. Venceu as eleições após investir em reflexão ao longo de sua campanha. Pediu aos estadunidenses que se lembrassem do escândalo Watergate, propôs mudanças radicais e a adoção de um programa liberal, mas pelo fato de não ser um representa popular, enfrentou tenebrosas forças em sua gestão, época marcada pelo nível de confiança baixo nas instituições.

Assim, podemos enxergar em Halloween – A Noite do Terror, uma radiografia dos conflitos socioeconômicos e políticos de uma nação que havia saído derrotada nos conflitos do Vietnã. Jimmy Carter, então evangélico, atraiu uma fatia considerável dos eleitores evangélicos, mas como a sua administração não estava ancorada na ação governamental a circular pelos meandros da seara religiosa, o político viu o aumento vertiginoso da sua desaprovação. Desta maneira, a Direita Cristã, munida pelo sentimento de decepção, buscou aliança com o republicano Ronald Reagan, tendo destaque no apoio à sua candidatura na eleição seguinte.

Sendo assim, os filmes de terror, ao atraírem os nossos “medos coletivos”, projetando-os mesmo que indiretamente na tela, mostram-se extremamente vitais vitalmente para os interessados na cultura política e social de seus dias. Ao ganhar ressonâncias em meio aos nossos sentimentos e angústias, o subgênero slasher cria um espaço dinâmico para a reflexão, no qual projetamos nossos medos coletivos na tela ao mesmo tempo em que eles são projetados de volta para nós.

Carpenter foi um cineasta que soube manipular bem esse esquema. Com associação direta aos filmes de ficção científica e terror, o cineasta cresceu em meio ao ambiente familiar que respirava “arte”, em especial, a música, vivência que lhe permitiu assumir a trilha sonora de alguns filmes que dirigiu. Fascinado pelas produções de John Ford e Howard Hawks, bem como as ficções científicas denominadas de filmes B, o cineasta seguiu a sua intuição e decidiu estudar na Escola de Artes Cinematográficas da Universidade do Sul da Califórnia, em 1968, tendo graduado em 1971.

Na época do colegial, produziu curtas experimentais que culminaram em seu estilo próprio mais adiante, parte integrante da “geração do horror”, grupo capitaneado por Tobe Hooper, Wes Craven, dentre outros, jovens realizadores que foram tomados pela onda de acontecimentos que decidiram os rumos dos Estados Unidos entre os anos 1960, 1970 e 1980, fatos que de alguma forma, respingaram nas relações internacionais e ressoaram ao redor do planeta.

A criação de Michael Myers em seu tempo e espaço ou como o Halloween criou um antagonista eficiente!  

A estrutura emula os elementos do filme giallo: um assassino em série revelado próximo ao final, um detetive em busca de resolução enquanto assassinatos chocantes formam uma trilha de corpos por onde os personagens mais relevantes da narrativa passam. As mulheres são as principais vítimas, perseguidas em cenas tensas e com apelo aos requintes de violência dos assassinatos. Estilo que também encontrou ressonâncias em filmes mais cheios de pompa e classe, tais como as narrativas de Brian De Palma e o eficiente Seven – Os Sete Crimes Capitais, de David Fincher, a fórmula inspirou um grupo de realizadores nos Estados Unidos, dando início ao subgênero slasher, um dos mais profícuos do terror.

Halloween – A Noite do Terror é, nas palavras da crítica especializada e dos cinéfilos, um clássico absoluto. Dirigido por John Carpenter, cineasta guiado pelo roteiro escrito em 10 dias, numa parceria com a produtora Debra Hill, o filme abriu espaço para o estabelecimento do slasher “com data comemorativa”, recurso já presente em Noite do Terror, filme anterior, mas sem o mesmo impacto social adquirido pela produção de Carpenter. Inspirado por uma viagem realizada num instituto de saúde mental em Kentuchy, Carpenter e sua equipe levantaram os U$300 mil necessários para cobrir o orçamento independente da produção. O cenário estava pronto para o surgimento de Michael Myers.

A história é simples, como já comentado nos textos sobre a franquia. Em 1963, Michael Myers, vestido com uma fantasia de palhaço em pleno Halloween, desfere golpes mortais de faca em sua irmã, Judith Myers. Encarcerado em Smith Groove, instituição que fica a 250 km de Handonfield, o antagonista escapa no dia 31 de outubro de 1978 e segue para a sua cidade natal, em busca de novas vítimas após a “dieta” de 15 anos. No caminho, mata aleatoriamente algumas pessoas, dentre elas, um motorista, numa falta de lógica proposital, pois a mensagem é direta: os ataques poderiam ser a qualquer um, sob qualquer circunstância, isto é, “não estamos seguros”.

Mais adiante, Michael Myers rouba a máscara e uma faca e se mantém na residência onde viveu a sua infância, no aguardo da noite para espalhar o terror. Viola o túmulo da irmã, ataca alguns adolescentes incautos e marca para sempre a história dos filmes de terror. Com variações sutis de Tubular Bells, de Mike Oldfield, parte integrante do clássico O Exorcista, a trilha sonora que acompanha a trajetória do antagonista foi composta com a prevalência de duas notas e sintetizadores, o que a tornou um marco. O trabalho de som também, principalmente a captação da respiração de Michael Myers, interpretado por Nick Castle, ator que retornou para a versão 2018, responsável pela dublagem do maníaco, tendo em vista emular o clima de 1978.

Editado por Charles Bornstein e Tommy Lee Wallace, Halloween – A Noite do Terror evita a estética dos cortes bruscos e excessivos e investe em imagens que permanecem para contemplação no desenvolvimento de cada cena. Desta maneira, Tommy Lee Wallace, também responsável por assinar o design de produção, teve a sua construção visual devidamente registrada pela direção de fotografia de Dean Cundey, sem picotar a narrativa para dar a sensação de movimento e intensidade, registro que capta o tempo e o espaço com rigor, o que permite apresentar ao espectador a suposta calmaria dos subúrbios estadunidenses da época, aparentemente tranquilos, com ruas arborizadas e equilibradas, sem elementos que desestruturassem a sobrevivência das famílias em suas existências tradicionais.

Com direção de arte de Randy Moore e cenografia de Craig Stearns, o design de produção de Halloween – A Noite do Terror, concebido milimetricamente, teve como proposta ser simples, com “precisão” visual determinada a captar o clima da narrativa sem distrações. Com a “cena” montada, Dean Cundey passeou pelos espaços por meio do constante uso de plano-sequência, inspirados pela concepção visual de Michael Powell em A Tortura do Medo. Com aplicação do minimalismo na fotografia, cada enquadramento do filme é simétrico, com presença de cores neutras que evitam influenciar o “tema” principal.

A textura, juntamente com as linhas, luzes, sombras e pontos de fuga direcionam o espectador e nos faz mergulhar intensamente no clima de horror, associado de maneira eficiente ao já citado uso da trilha sonora e do som. Com antagonista onipresente, tal como o tubarão-branco de Spielberg, John Carpenter e sua equipe evidenciam o clima de perigo diante do “desconhecido”, estilo narrativo competente ao criar o clima ideal de medo e pavor. Sem materializar constantemente o antagonista, o filme cria uma sofisticada atmosfera de suspense. Até mesmo nos momentos em que aparece completamente, Michael Myers é iluminado pela direção de fotografia por meio de estratégias que inviabilizam a violência puramente explícita, dando ênfase ao poder da sugestão.

Todo o aparato narrativo descrito, juntamente com sua heroína quase virginal, a presença de uma data simbólica e um acontecimento trágico do passado, tornaram Halloween – A Noite do Terror o filme responsável por estabelecer para sempre uma fórmula de sucesso para os filmes de terror, o que culminou na cristalização de Michael Myers como psicopata imortal no imaginário cinematográfico.

Michael Myers está de volta, mais uma vez, com planos de vingança!  

Um depravado sexual? Essa é uma das diversas interpretações para Michael Myers, “o puro mal”, a “materialização” e a “soma de todos os medos” de uma comunidade imaginada num determinado tempo e espaço histórico. Para Stephan Hutchinson, Handonfield é a causa do comportamento de Myers, pois em seu ponto de vista, o antagonista é produto do meio, parte integrante das emoções reprimidas e dos falsos sorrisos apresentados por Norman Rockwell. Nas palavras de Dr. Loomis, “ele é o puro mal”, pois o psiquiatra havia percebido que “aquilo que vivia por detrás dos olhos daquele menino era pura e simplesmente o mal”.

Referido no roteiro como “The Shape”, Michael Myers é a representação do bicho-papão, uma figura alegórica utilizada para se referir aos medos que habitam o nosso subconsciente. O andar ameaçador e a respiração ofegante por debaixo da máscara são elementos responsáveis por transforma-lo numa das figuras mais emblemáticas dos filmes de terror, a ponto de ficar atrás apenas de Hannibal Lecter no quesito “lado negro da natureza humana”, segundo um estudo realizado pelo Laboratório de Psicologia na Universidade do Estado da Califórnia. Essa figura ganhou, mais uma vez, a chance de circular pelo imaginário coletivo e garantir seu espaço no bojo da indústria cultural.

A crítica especializada e o público abraçaram o novo Halloween. O filme é um sucesso e conseguiu homenagear adequadamente a franquia e garantir a presença de Michael Myers como antagonista da contemporaneidade, mesmo tendo sido lançado há 40 anos. Supõe-se que haja mais um filme em breve, pois o final da trama dirigida por David Gordon Green deixou algumas brechas para continuidade, algo que tal como apontado na crítica do lançamento, revela-se como uma aposta industrial desnecessária, haja vista o enfraquecimento e a saturação do monstro apresentado para as novas gerações. Agora é aguardar o futuro do personagem, enquanto isso, fiquemos com a sequência direta do filme de 1978, recém-lançada nos cinemas brasileiros.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.