Fora de Plano #41 | Seria 2018 o Ano do Retorno do Indie Rock?

A mídia musical sempre anda a procura de algum gênero para decretar sua morte. Nos últimos anos foi a vez do indie rock receber vários textos discursando sobre a monotonia do gênero. E não se trata de uma profecia infundada, muito pelo contrário. O rock, no geral, passou a ver cada vez menos a luz do mainstream e passou a ser movido para o underground, o que não é problema algum para os ávidos pelo mercado musical, uma vez que sempre encontrarão notícia nos sites especializados.

Só que o indie rock talvez tenha sido um dos gêneros que mais sofreu nessa transição. Fica difícil citar uma banda ou artista que nos últimos 5 anos tenha segurado firme e com propriedade a bandeira do gênero. Claro, afirmar tal fato pode parecer precipitado principalmente partindo do princípio de como definir o que é ou não indie rock, mas levemos em consideração seu conceito mais referido comumente, a respeito de bandas que passaram a ganhar reconhecimento desde o fim dos anos 90 e início 2000 por seu rock de garagem tocado de forma despojada.

O mercado se adapta, isso é normal. E o que passou a ocorrer foi uma migração de muitas bandas para o indie pop, subgênero do pop com doses da vibe alternativa indie. O Arcade Fire talvez seja um dos maiores exemplos disso com seu divisivo Everything Now lançado em 2017, ignorando quase inteiramente suas raízes no rock. O Tame Impala é outro, que embora não tenha abandonado sua lisergia, migrou para as pistas com baladas regadas a synths retrôs. Sintetizadores se tornaram uma constante em qualquer banda indie, sempre apelando para o synthpop e new wave, uma vibe nostálgica dos anos 80 que cresceu de forma assustadora nos últimos anos.

Unido a esse fato está o desaparecimento de muitas bandas e preferência de seus líderes em privilegiar projetos paralelos descompromissados. Dan Auerbach (The Black Keys) com o The Arcs e carreira solo, Alex Turner (Arctic Monkeys) com The Last Shadow Puppets, Julian Casablancas (The Strokes) com o The Voidz. Não que os lançamentos realizados nesses projetos sejam fracos, mas todos permaneceram em uma zona de conforto um tanto longe de traços de originalidade, muitas vezes se dedicando a eles justamente para evitar pressão de fãs ou por mero contentamento.

Só que, após um período de pouca substancialidade dentro do indie rock, 2018 vem mostrando uma força no gênero que em muito tempo não era vista. Podemos começar a discursar isso mencionando o Car Seat Headrest, que desde seu Teens Of Denial vem incentivando esse renascer do indie rock. A banda explodiu no primeiro trimestre desse ano com o fantástico remake de Twin Fantasy, recapturando toda a essência enérgica, garageira e repleta de personalidade que cobria o gênero em seu ápice. Will Toledo – o artista por trás da alcunha Car Seat Headrest – compõem canções com um olhar pessoal a respeito das particularidades da juventude, tal como Alex Turner e Julian Casablancas fizeram, todos de maneiras distintas. Não consigo lembrar qual foi o último lançamento do gênero que senti tamanha relevância. Seja em seus temas, na rica interpretação do vocalista, na honestidade das belas letras, ou na construção dos arranjos: temos aqui uma obra conceitual que, se não possui potencial de ser clássico, possui ao menos de ser cult.

Seguido disso, uma sequência de bons álbuns garantiram o interesse dos indie rockers nesse início de ano. Albert Hammond Jr. lançou seu terceiro disco solo, Francis Trouble, e ousaria dizer ser melhor que qualquer coisa que ele vinha fazendo no The Strokes desde Is This It. Pop, divertido e vibrante, repleto de excelentes linhas de guitarra. Recentemente também foi a vez de Jack White, que lançou o que é, na opinião desse humilde colunista, seu melhor trabalho em carreira solo até o momento: Boarding House Reach. Experimental, surtado e instigante, é um álbum corajoso que não agradará a todos, mas que incentiva o rock a desbravar novos territórios ao invés de remoer antigas fórmulas.

As mulheres – que andam dominando o cenário indie como um todo – também garantiram holofote nesses primeiros meses de 2018. O primeiro álbum de estúdio da artista Sophie Allison (que atua pelo codinome Soccer Mommy, quer um nome mais indie que esse?), Clean, é uma bela prova disso. Doces e melódicas linhas de guitarra unidas a sinceros desabafos garantem boas expectativas para a garota que já inicia a carreira com o pé direito, sendo uma boa pedida para os fãs de Mac Demarco. E aqueles sedentos pelo indie rock clássico e enérgico, basta ouvir Loner, excelente segundo álbum da divertidíssima Caroline Rose. Procura uma artista que transborde carisma? Veja qualquer clipe, entrevista ou apresentação da americana. Caroline emprega toneladas de sarcasmo em suas músicas, fazendo um amálgama de rock de garagem com boas doses pop.

Tudo isso considerando que ainda estamos no primeiro semestre de 2018 e ainda temos alguns expoentes com álbuns no forno. O Arctic Monkeys daqui a poucos dias lançará o sucessor de AM -Tranquility Base Hotel & Casino – provavelmente um dos discos mais esperados de 2018 levando em consideração a espera incessante de 5 anos do público. Florence + The Machine também retorna em breve, já inclusive tendo liberado dois singles novos, a pacífica Sky Full Of Song e a eufórica Hunger. Courtney Barnett, uma das maiores revelações do gênero nos últimos anos, já anunciou álbum para maio. Como se não fosse o suficiente, rumores fortes ainda garantem que o Vampire Weekend já possui um disco quase pronto para lançar este ano. Estamos apenas no quinto mês de 2018 e fazia muito tempo que não observava o cenário do gênero demonstrar tamanho potencial.

Toda essa expectativa para o resto do ano pode se transformar em decepção? É um risco, e com certeza uma possibilidade forte. Porém, até agora 2018 tem sido generoso conosco. Não custa nada querer acreditar.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.