Fora de Plano #16 | Sobre Cristiano Araújo e Ronaldo, Zeca Camargo e livros pra colorir

O último fim de semana foi de uma repercussão enorme nas mídias sociais. No dia 24 desse mês o jovem cantor sertanejo Cristiano Araújo, 29 anos, sofria um acidente de carro junto com sua namorada, o que causou o falecimento de ambos. A repercussão tinha dois lados: de um, uma comoção enorme por parte de milhões de fãs que possuía e do outro, um número também grande de pessoas que não tinham ideia de quem era o cantor.

Pra começar, é importante ressaltar definitivamente o quanto a questão da popularidade é relativa. A popularidade sempre foi um tema que poderia ir de acordo com nichos, claro que com algumas exceções óbvias. Assim como não é de se esperar que todos conheçam o rei do blues BB King pra lamentar sua recente morte, é questão de lógica considerar que apenas os familiarizados com o sertanejo universitário conheceriam e simpatizariam com Cristiano Araújo. É impossível acreditar que em pleno 2015 haja afirmações preconceituosas do tipo “tal artista não é popular” ou que “ninguém conhece isso” como se fosse característica determinante pra amar certo artista. Isso serve desde o forró conhecido somente em um pequeno vilarejo até a banda indie norueguesa que aquele hipster se gaba de conhecer.

Em análise para o Jornal das Dez, da Globo News, o apresentador e jornalista Zeca Camargo fez sugestões um tanto polêmicas ao cantor, colocando em dúvida seu trabalho e gerando a ideia que este não seria um “ídolo de verdade”. O resultado, claro, foi uma repercussão enorme nas redes sociais, principalmente, no instagram e facebook do jornalista, que anda penando bastante pra apagar os comentários.

Zeca citou temas que poderiam gerar discussões muito bem vindas se não fosse sua unilateralidade e visão um tanto ofensiva ao cantor. Discussões como o controle da mídia e das rádios por certos empresários, a homogeniedade na atual indústria musical, os famosos “jabás”, o monopólio de certos estilos musicais na mídia e a falta de apoio a novas bandas, artistas e estilos poderiam ser abordados em contexto totalmente diferente e de forma respeitosa.

Zeca errou em vários sentidos. E não é apenas em sua abordagem sobre o cantor, mas também no desvio desta, mostrando o quanto seu discurso foi mal organizado. Fazendo um paralelo da cultura musical brasileira com os famosos “livros pra colorir”, ele banaliza o valor de tais produtos ao mesmo tempo que diminui o valor dos ritmos populares no Brasil. Esse desvio total de tema e sua visão um tanto preconceituosa mostra uma insatisfação desenfreada do jornalista que faz seu texto perder uma quantia absurda de relevância técnica.

Ninguém nunca tentou colocar Cristiano Araújo no pedestal máximo da música brasileira, mas o jornalista aparentemente entendeu isso e achou que era válido traçar um paralelo com outros artistas e desmerecer o trabalho do cantor. Infeliz escolha de palavras. A discussão sobre o atual cenário musical no Brasil é um assunto frequente em pauta e que deve ser sim discutido, o grande problema é o contexto e a forma equivocada como Zeca resolveu o fazer. Pra falar de mudanças no cenário musical não deve haver menosprezo a estilos populares como sertanejo, mas um compartilhamento de holofotes com estilos que não tem tido vez na mídia, como o rock, a MPB e demais gêneros alternativos.

Como era de se esperar, no dia seguinte veio a retratação de Zeca Camargo feita por pressão extrema de sua emissora. Em seu programa à tarde, o apresentador diz que o público o entendeu mal e pede desculpas aos fãs de “Cristiano Ronaldo”, sendo o segundo a cair na mesma gafe que Fátima Bernardes caiu no dia 24. Se o erro foi sarcasmo ou não, acho que nunca vamos saber. O que se sabe é que dizem por aí que na terceira morte Cristiano Ronaldo vai ressucitar e sair pedalando de seu caixão com a bola no pé, revogando ainda seu direito de pedir música no Fantástico.

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.