Crítica | Kick-Ass: Volume 2

estrelas 2,5

Mark Millar e John Romita Jr. demoraram tanto para acabar o primeiro arco de histórias de Kick-Ass, herói adolescente nerd sem poderes que criaram para chocar o mundo dos quadrinhos, que uma adaptação cinematográfica foi lançada quase que imediatamente após seu final. Diferente do sucesso da HQ, porém, o filme amargou um relativo fracasso de bilheteria, ainda que ele eventualmente viesse a ganhar uma continuação.

Mas, aproveitando que toda a então recém-criada mitologia de Kick-Ass e especialmente de Hit-Girl estava quente na mente dos fãs sedentos por mais pancadaria e sangue, a dupla de autores entregaram justamente o que muitos queriam pouco meses depois do fim da primeira história dos vigilantes mascarados. O problema de Millar e Romitinha, porém, é o mesmo tipo de problema que continuações hollywoodianas costumam ter: o excesso.

O que era radical no primeiro arco tornou-se banal no segundo. Os autores não podiam simplesmente repetir a dose e, no lugar de criar uma história diferente justamente para não se repetirem, publicaram algo que só eleva o grau de sanguinolência e de violência sem realmente trazer nada de novo e verdadeiramente criativo.

Sim, eles começam a narrativa com o próximo passo lógico a partir do primeiro Kick-Ass: a formação de uma “Liga da Justiça” maltrapilha, batizada de Justiça Eterna, comandada pelo novo cristão e ex-capanga da máfia, Coronel Estrelas e sua cadela mascarada Sofia. No entanto, como para cada ação há uma reação – ainda que, no caso da história de Millar, a reação seja completamente desproporcional – Red Mist volta rebatizado de Motherfucker com sua própria liga de vilões, incluindo a assassina Mãe Rússia, ex-guarda costas de Vladimir Putin (sim, dele mesmo!).

Para quem não se lembra, Red Mist era o melhor amigo de Kick-Ass no primeiro arco e filho do mafioso John Genovese, morto por Hit-Girl na base de cuteladas. Assim, o antigo amigo agora se torna um “super” vilão e sai cometendo as maiores atrocidades para se vingar da dupla. Essas atrocidades incluem estourar a cabeça de criancinhas com metralhadoras, estuprar diversas vezes a menina por quem Kick-Ass é apaixonado e coisas do gênero.

É o choque pelo choque. O que era interessante e desafiador no primeiro arco torna-se exagerado e sem sentido no segundo. Até mesmo a forma de retratar Kick-Ass e a Justiça Eterna é equivocada, já que Millar efetivamente os transforma em super-heróis invencíveis. Se, na primeira história, esse papel ficava adstrito à Hit-Girl, o autor contamina os demais personagens com essa característica ao retirar a menina desse meio (ela promete ao pai adotivo ser obediente e não mais se “transformar” em Hit-Girl) somente para fazê-la voltar triunfalmente quando o caldo já está completamente derramado.

Como deixei claro na crítica de Kick-Ass – Quebrando Tudo, não sou puritano, longe disso. Apenas acho que a violência em qualquer meio deve cumprir sua função. No primeiro volume, ela era razoavelmente contida ao meio vilanesco, não derramando para civis. No segundo, a vingança absurda de Motherfucker perde impacto logo de início e todos os quadros que seguem por 150 páginas é só para adolescente sem medida achar que está vendo algo verdadeiramente transgressor e diferente.

Não tem nada mais longe da verdade, porém.

De toda forma, no final das contas, quando o derradeiro embate acontece no Times Square, a forma como Millar retrata a ação policial, não diferenciando heróis de vilões – como eles poderiam, não é mesmo? – dá um vislumbre de como deveria ter sido essa continuação. Pena que o roteirista se viu infectado pelo vírus hollywoodiano do “o que é maior é necessariamente melhor”.

A arte de John Romita Jr. continua funcionando para transformar o que vemos em uma fábula, mas Millar, com toda sua violência, acaba não ajudando muito e a arte fica esvaziada. E há determinados momentos, como quando Hit-Girl finalmente reaparece, que Romitinha falha nos detalhes, parecendo até que outro artista entrou em seu lugar. Será que ele estava com pressa para terminar o trabalho ou tinha certeza que as pessoas leriam de qualquer jeito em vista do hype entorno do primeiro arco?

Kick-Ass 2 é, infelizmente, uma oportunidade perdida. Um banho de sangue que mais parece uma ducha de água fria.

*Publicado originalmente em 16 de outubro de 2013.

Kick-Ass: Volume 2 (Kick-Ass 2, EUA – 2010/12)
Contendo:
Kick-Ass 2 #1 a 7
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita, Jr.
Cores: Dean White
Editora original: Marvel Comics (selo Icon)
Data original de publicação:
 dezembro de 2010 a maio de 2012
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2013
Páginas: 212 (encadernado brasileiro)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.