Crítica | Kick-Ass – Quebrando Tudo

estrelas 4,5

Quando escreveu Kick-Ass, uma de suas mais radicais criações, Mark Millar era o cara “do momento” nos quadrinhos da Marvel Comics, com uma especialidade principal: chocar. Ele foi o responsável pelos primeiros e ótimos arcos dos Ultimate X-Men, pela divertida pancadaria de Velho Logan e pelo super-mega-evento Guerra Civil.

Unindo-se a John Romita Jr. e sendo publicado por um selo menor da editora – Icon – Millar começou uma campanha para divulgar Kick-Ass no final de 2007, prometendo a revendedores de quadrinhos publicidade gratuita em sua revista caso eles divulgassem a obra. Deu certo. Diria até que deu absurdamente certo. Kick-Ass vendeu que nem água e, antes mesmo de terminar o atrasado arco inicial de oito números, foi adaptado para o cinema pelas mãos de Matthew Vaughn, que até então só dirigira Nem Tudo É O Que Parece e Stardust – O Mistério da Estrela.

Vocês vão me perguntar o porquê de eu ter chamado de radical essa criação de Millar. A explicação é simples. Apesar de eu não ser nenhum puritano, não dá para não se chocar – mesmo hoje em dia – com uma história cuja premissa é colocar crianças bancando super-heróis “reais”, que arrebentam bandidos sem dó nem piedade. O conceito em si não é novo, mas a execução é e deixa qualquer um de queixo caído. Millar não se contentou em usar adolescentes em sua narrativa, como seria de se esperar. Na verdade, seu melhor – e de longe o mais violento – personagem é Hit Girl, uma menina de 10 anos que, como o personagem título Kick-Ass muito bem coloca, é a mistura de Rambo com Polly Pocket ou de Dakota Fanning com Desejo de Matar 4

Kick-Ass conta a história de David Lizewski, um típico adolescente geek que não tem namorada, mas é doido pela menina mais bonita da sala e tem atração por sua voluptuosa professora. Coleciona quadrinhos e tem um círculo bem pequeno de amigos. Por puro tédio e inspirado nos quadrinhos, ele resolve vestir uma roupa de mergulho verde, com máscara, para sair pelas ruas corrigindo as injustiças. Como todo adolescente, ele age apenas por impulso, pela emoção, sem treinamento algum e sem pensar nas consequências.

Suas ações, porém, e aí talvez esteja o diferencial da criação de Millar, acaba fazendo com que outras pessoas “saiam do armário” e também se vistam de super-heróis. Com a fama repentina, Kick-Ass logo ganha a concorrência de Red Mist, outro doido fantasiado que adora aparecer e chama a atenção de Big Daddy e Hit Girl, dois heróis mascarados já “veteranos” que atuam mais profissionalmente.

Big Daddy é um adulto com diversos parafusos a menos que treinou sua filha desde o nascimento para ser super-heroína. A garota pede metralhadoras de Natal, para se ter uma ideia do absurdo. Hit Girl nos é apresentada salvando a pele de Kick-Ass da forma mais destruidora possível: usando katanas, ela dilacera, em seus tenros 10 aninhos, uma gangue inteira de marmanjos traficantes de drogas. São braços, cabeças e pernas cortadas e um enorme sorriso no rosto da menina. Seria doentio se não fosse tão divertido…

A história se desenvolve muito bem, de maneira mais inteligente do que imaginei que seria. Ela é muito superior a HQs de pancadaria pura que vemos por aí e, apesar dos exageros, tem um tom sério, de crítica e não necessariamente de aprovação como muitos mais politicamente corretos podem achar em uma leitura superficial, normalmente só da sinopse.

Kick-Ass é uma história interessante, antenada com tudo que há de mais recente à época para agradar os jovens (as menções a Facebook, filmes então recentes, quadrinhos e coisas do gênero são abundantes) e que diverte a cada página sem ser exatamente emburrecedora como tantas outras. As motivações dos personagens estão todas lá, apesar dos breves oito números do primeiro arco.

Os desenhos de Romitinha ajudam muito na narrativa, pois, apesar de Millar procurar ser realista, nós sabemos que, no fundo, isso não poderia acontecer. A vida de um “super-herói” como Kick-Ass seria, digamos, extremamente curta. Assim, o traço escolhido não foge do realismos, gerando uma composição final próxima da perfeita, com exageros estilizados e um excelente uso de enquadramentos para fazer a ação fluir como um filme de ação bem coreografado.

Em suma, como muito bem colocou Dan Phillips do site ign.com, aqui, Kick-Ass é “tudo o que Frederic Werthem avisou ao Congresso sobre quadrinhos”. Para quem não sabe, Wertham foi um psiquiatra teuto-americano que escreveu um livro sobre a influência dos quadrinhos sobre os jovens e liderou uma cruzada contra a Nona Arte e a comunicação de massa em geral, na década de 40, levando à proibição de várias publicações e à criação do famigerado Comics Code. Na verdade, acho que Wertham não fazia ideia que um dia alguém escreveria uma história como Kick-Ass. O psiquiatra deve ter rolado em sua tumba e bem feito para ele…

*Publicado originalmente em 15 de outubro de 2013.

Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, EUA – 2008/10)
Contendo:
Kick-Ass #1 a 8
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita, Jr.
Cores: Dean White
Editora original: Marvel Comics (selo Icon)
Data original de publicação:
 fevereiro de 2008 a fevereiro de 2010
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: junho de 2010
Páginas: 212 (encadernado brasileiro)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.