Lista | Batman vs Superman: o que Deu Certo e o que Deu Errado

Obs: Há muitos spoilers do filme.

Batman vs Superman estreou faz menos de uma semana e já dividiu toda a cultura pop, uma guerra civil entre críticos e fãs que atingiu até mesmo a equipe do Plano Crítico, ainda que, aqui, toda a discordância seja feita com elegância e um bom grau de jocosidade. Uma triste constatação veio, naturalmente, junto disso, uma cegueira que faz muitos acreditarem que o crítico tira prazer em garantir uma nota ruim a um filme somente porque se trata de um longa de super-heróis, ou até mesmo que esses mesmos que escreveram são unicamente fãs da Marvel. E isso acontece mesmo quando o crítico não fala mal, mas não faz comentários somente com elogios rasgados. Exemplo disso foi a crítica do nosso Lucas Nascimento, que avaliou o filme em 3 estrelas (ou seja, uma boa avaliação) e, mesmo assim, sofreu na mão de meia dúzia que, mesmo sem ver o filme, estava pronto para apedrejar qualquer um que não se ajoelhasse diante de Zod… digo Zack…

Naturalmente existem críticas feitas com ódio nas pontas dos dedos – assim como há outras que já partem da predisposição de adorar o filme -, mas a maioria do que se lê por aí não é isso, não são textos gerados por motivações fúteis de um lado ou de outro, e muitas vezes aqueles que a comunidade tanto critica por ter detestado o filme são pessoas que são tão fãs quanto qualquer outro, qualidade essa que nem deveria ser necessária para se avaliar um filme, pois  as regras cinematográficas não deveriam ser diferentes para “filmes de super-herói”. Mais sobre essa questão vocês poderão ler no Plano Polêmico escrito pelo nosso editor Ritter Fan, que será publicado muito em breve.

Dito isso, em virtude de nossas críticas – com spoilers e sem spoilers – que bem representam a posição atual do Plano Crítico em relação ao filme, elaboramos esta lista que busca enumerar os pontos positivos e negativos de Batman vs Superman e que fundamentam minha percepção de que a obra mereceria 2,5 estrelas ou 5/10, percepção essa compartilhada pelo Ritter Fan, que também deu pitacos no texto abaixo. Iniciemos, portanto, pelas más notícias antes das boas:

Pontos negativos

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1. Narrativa fragmentada:

A tentativa de estabelecer um universo cinematográfico, aos moldes do que a Marvel Studios vem fazendo desde Homem de Ferroem apenas um filme era, no mínimo, ousada e com grande chance de ser um gigantesco deslize – e foi. Duas horas e quarenta e três minutos para apresentar o Batman, Mulher Maravilha, fazer os dois maiores heróis dos quadrinhos entrarem em conflito, formar os primórdios da Liga da Justiça e, de quebra, matar o Superman. Tudo soa como um eterno vai e vem, ora focando em um personagem, ora em outro, não oferecendo a profundidade necessária para qualquer um deles. Wayne, talvez, seja a única exceção, mas mesmo isso soa sub-explorado, especialmente em sua epifania logo antes de quase matar o kriptoniano. Para piorar, a montagem comete verdadeiras atrocidades na fluidez da obra, não consegue criar antecipação e expectativa, como dito pelo Lucas Nascimento na crítica sem spoilers, trazendo situações risíveis como Batman esperando 1h na chuva ou Lois Lane esperando por alguns dias para jogar a terra no caixão de Clark.

2. Motivação dos personagens:

Naturalmente, a motivação de cada personagem seria afetada por essa narrativa instável. Não é preciso sequer de uma análise muito profunda para enxergarmos que Luthor faz o que faz somente porque “deu na telha”. Antes que os mais afoitos achem que não percebi que ele tem daddy issues, devo logo avisar: isso está mais do que obviamente presente. O engraçado é que muitos consideram, porém, talvez para dar ares mais complexos a um filme que de complexo não tem nada, que os problemas paternos de Luthor estão nas entrelinhas de um roteiro oscarizável de Goyer e Terrio, mas a grande verdade – não adianta lutar contra fatos! – é que isso faz parte de momentos para lá de expositivos do personagem, do tipo “olha, papai era imigrante e muito chato, bobo e feio e eu, então me tornei quem sou”, com direito, ainda, a um quadro sobre o céu e o inferno que poderia ser um gráfico explicando em detalhes o que ele acabou de falar. Nosso crítico, Matheus Fragata, na crítica com spoilers, coloca as ações de Lex justificadas em virtude de sua impotência como ser humano diante do deus que caiu das estrelas e ele está absolutamente certo, só que isso não está escondido ou soterrado debaixo de um roteiro “esperto”, mas sim dito com todas as letras por Alfred no meio do filme. A motivação do vilão, todavia, não é explorada cuidadosamente e é apenas jogada em tela, forçando-nos a aceitar que esse é seu motivo sem uma maior elucidação, soando como um ódio infundado do personagem.

O mesmo ocorre para Clark, que ainda sofre com o mesmo dilema de O Homem de Aço: qual a sua função na Terra. Tudo piora quando o motivo de seu embate com o Morcego ocorre em virtude do sequestro de sua mãe (e devemos simplesmente aceitar que Luthor sabe quem é o herói, sem qualquer tentativa de justificativa) – ele realmente não conseguiria pensar em qualquer outra solução para encontrar Martha? E notem que a rivalidade entre os dois heróis já havia sido bem construída no primeiro terço do filme, mesmo antes da interferência de Lex Luthor. Mas esse caminho natural e fluido se perde completamente no roteiro que, de repente, muda de ideia e decide usar Martha Kent como catalisadora do embate.

3. Batman vs Superman:

Entramos, portanto na cena que garante o título da obra, uma luta que parece ter sido feita para os videogames: jogue kriptonita no Super, bata nele, quando ele se recuperar jogue novamente. Snyder tenta mostrar que Kent está relutante em lutar contra Batman, mas não hesita em colocá-lo acertando alguns golpes no vigilante de Gotham. Ele não poderia simplesmente gritar do alto que sua mãe fora sequestrada? Ou imobilizar o humano com sua super-força logo no início? Temos aqui um gigantesco anti-clímax, que, apesar de ter sido inspirado, não chega aos pés do que Frank Miller fez duas décadas antes em sua seminal obra O Cavaleiro das Trevas. E o roteiro, novamente tentando mostrar que é mais profundo e inteligente do que realmente é, encerra a luta da maneira mais repentina e simplista possível, deixando mais evidente ainda que a pancadaria nem mesmo deveria ter sido iniciada.

4. Apocalipse:

O conflito que dá título ao filme, então, dá lugar ao vilão especialmente criado (tanto nos quadrinhos quanto no longa metragem em si) para matar o Superman. Apocalipse, ou Doomsday no original, contudo, nada mais faz que dilatar a trama de forma ainda mais exagerada, suprindo as necessidades de Snyder por um espetáculo visual. A luta em si funciona, consegue ser mais interessante que o duelo entre os dois heróis, mas traz à tona um acontecimento de forma prematura: a morte do Superman. Enquanto o sacrifício do herói em si funcione, não posso deixar de sentir como se houvessem adiantado demais este arco – não tivemos tempo o suficiente para nos aproximar de Clark, o personagem não cresceu ou criou vínculos com outros heróis (tirando a forçada e repentina amizade com Wayne) e já é morto. Uma espera maior certamente traria melhores frutos e contribuiria para um embate maior entre Clark e Bruce, que, então, constituiria o clímax da obra. Isso sem falar no roteiro que seria menos entrecortado.

5. Flashpoint/ Injustice e outras referências dos quadrinhos:

O trecho inspirado em Ponto de IgniçãoInjustice certamente é um gigantesco fan service, além de nos dar um vislumbre do que poderá vir no futuro. Visualmente espetacular, mas totalmente perdido dentro da trama, a sequência apenas tira espaço de uma melhor construção narrativa fora do sonho, ela basicamente não faz sentido na obra sozinha e um filme, sim, deve ser analisado independente de suas continuações, deve se sustentar por si só e esta é um ponta solta que parece jogada no meio da projeção.

Deixe-me fazer, então, um desafio mental: pensem no filme e pensem nas sequências do pesadelo, da aparição do Flash, da apresentação de toda a Liga da Justiça naqueles vídeos (que têm até o logotipo do heróis!) e até mesmo em todas as sequências com a Mulher-Maravilha. Pensaram? Estão com um sorriso no rosto revivendo esses momentos de fan service? Pois bem, agora imaginem o filme sem esses momentos e respondam à seguinte pergunta: como é que a narrativa muda? Se vocês realmente conseguirem se afastar do lado fã da coisa (e sei que isso é muito difícil, pois até nós mesmos temos dificuldade de trilhar por esse caminho), perceberão que a história não muda em absolutamente nada. São pedaços de história que estão lá unicamente para montar um universo. “Ah mas eu sei disso e você não entendeu o propósito do filme.” A isso eu respondo repetindo o que já disse no começo e ao longo do texto. Um filme tem que ser analisado de maneira estanque, como tendo um fim nele mesmo. No momento em que empregarmos regras diferentes de análise para filmes que são prólogos formados por imagens desconexas, então dificilmente poderemos analisar negativamente qualquer filme que seja. Se a narrativa não muda ao retirarmos o fan service (que poderia – deveria – estar presente, mas de maneira menos “na sua cara”), então é quase que necessária a conclusão de que há problemas sérios com o roteiro.

Pontos Positivos

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1. Lex Luthor:

Jesse Eisenberg foi, sem dúvidas, uma escalação ousada para o papel de um dos maiores vilões da DC. O nêmesis de Superman certamente precisaria vir à altura do herói e essa retratação atualizada do personagem faz jus ao seu nome. Embora seja essencialmente diferente de sua contraparte nos quadrinhos e também de suas encarnações live action anteriores e não conte com motivação bem construída, como dito anteriormente, o Lex de Batman vs Superman é, como o Lucas Nascimento muito bem apontou em sua crítica, o retrato do jovem milionário, um Steve Jobs das trevas preenchido por uma distorcida visão da realidade. Seus tiques e maneirismos compõem a figura problemática do empresário perfeitamente e o visual de sua empresa, LexCorp. reflete a persona por trás dela. A ousadia da escalação e a capacidade quase camaleônica de Eisenberg que cada vez mais se mostra um ator completo, merecem todos os aplausos aqui.

2. Mulher Maravilha:

Apesar de a presença em si da Mulher Maravilha não ser muito mais do que fan service (vide item 5 dos pontos negativos) é inegável que outro grande acerto foi Gal Gadot como a guerreira amazona, que simplesmente rouba a cena com sua aparição. Snyder inclusive opta por uma direção que se assemelha com o seu trabalho em 300 nas sequências envolvendo a heroína, referenciando, naturalmente, as origens mitológicas da personagem através do paralelo com o famoso filme dos espartanos. Evidentemente tirando grande prazer da luta contra Apocalipse, temos aqui um verdadeiro retrato da amazona, da mulher guerreira e do potencial do filme solo dela em 2017. O mais engraçado é que os mesmos fãs que hoje aplaudem BvS sem nem pensar nos pontos negativos do filme, diziam que Gadot era uma terrível escolha para viver Diana Prince…

3. Batman:

De todos os novos personagens, contudo, nenhum deles consegue ganhar mais espaço que o Batman de Ben Affleck. Amplamente criticado no momento de sua escalação, o ator conseguiu nos trazer um Morcego que ainda não havíamos visto em tela, um herói mais bruto e até mesmo cruel, que soa como se tivesse sido tirado diretamente das páginas de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Batfleck é um retrato  da paranoia, da xenofobia e consegue ser um dos únicos, senão o único personagem com uma verdadeira e crível motivação no longa metragem. Curiosamente foi o ator mais abalado com as críticas negativas do filme, conforme vimos nos inúmeros vídeos e memes que explodiram na internet afora. Se Batman vs Superman merece 2,5 estrelas certamente não é por causa de Ben Affleck e fico imaginando como teria sido um filme solo do herói…

4. Trilha Sonora:

A trilha é outro grande acerto de Batman vs Superman (a nossa crítica você encontra aqui). A parceria entre Hans Zimmer e Junkie XL (responsável também pela fantástica trilha de Mad Max: Estrada da Fúria) cria um evidente senso de continuidade com O Homem de Aço, enquanto nos traz novos temas memoráveis. Devo dar destaque aqui a The Red Capes are Coming, tema de Lex, que certamente faz jus ao personagem, contribuindo e muito para a formação do personagem. Outro ponto alto é Is She With You? que marca a entrada da Mulher Maravilha em cena, denotando os primórdios da Liga da Justiça. O problema que existe, porém, não é com a trilha em si, mas sim com sua mixagem no filme, já que há um desbalanço grande no uso dos leit motifs e até mesmo confusão entre eles, já que o próprio Batman chega a ser identificado pelo tema do Superman em alguns pontos da fita.

5. Simbologia:

Por fim, Snyder, como fizera em O Homem de Aço preenche sua obra com uma forte simbologia cristã. Desde o pedaço do prédio em forma de cruz que quase cai em cima da menina no início do filme até a morte de Superman (com ele envolto em sua própria capa e, mais uma vez, repleto de cruzes atrás), o filme parece ser uma adaptação à la Noé da Bíblia, o que combina perfeitamente com a concepção de que Clark é um deus vindo das estrelas, com um poder praticamente absoluto que faz os homens bons se tornarem cruéis. Toda essa composição garante uma profundidade ao filme, estabelecendo paralelos e contribuindo para a simbologia do herói e para o conflito dia vs noite. Infelizmente essa mesma profundidade não se aplica a todos os aspectos do longa-metragem.

Além disso, cabe dizer aqui, chamando a atenção dos fãs mais fervorosos e esquecidos, que essa iconografia toda não é novidade para Superman, não foi Snyder, ou Goyer ou Terrio que inventou. Ela está presente nos quadrinhos do herói há décadas e está MUITO presente em Superman – O Filme, de 1978, de forma, arrisco dizer, ainda mais eficiente do que aqui.

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Dia vs Noite: Zack Snyder

Cabe uma palavrinha sobre Zack Snyder. Muitos têm endeusado o diretor e outros muitos têm colocado a culpa dos problemas do filme sobre seus ombros. Ambos os lados estão absolutamente errados.

Snyder tem uma breve, mas marcante carreira no cinema, com excelentes obras como 300 e Watchmen, outras boas como Madrugada dos Mortos e O Homem de Aço e duas fracas (ou péssimas) como Sucker Punch e A Lenda dos Guardiões. Mas, inegavelmente, ele é consistente, tem estilo, sabe contar visualmente uma história e é perfeitamente possível ver o esforço e paixão que ele emprega em seus trabalhos. Com quase nada, ele criou um deslumbre estético em 300 e, com coisa demais, ele conseguiu criar uma obra cinematograficamente palatável e essa sim complexa em Watchmen. Não é todo mundo que sabe trabalhar nesses opostos.

Se ele era o diretor certo para BvS, tenho para mim, considerando suas obras anteriores, que sim. No entanto, a obrigação de se transformar o filme em um trampolim para o Universo Cinematográfico DC criou grandes dificuldades para ele e a necessidade de trabalhar o exagero pirotécnico ao extremo algo que, em suas mãos, acabou parecendo realmente um videogame. Não havia escapatória. A Warner/DC quer exatamente a mesma coisa que a Marvel conseguiu construir ao longo de oito anos (que ninguém ache o contrário, por favor, pois seria muita ingenuidade), mas só que emulando o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek: 50 anos em 5 ou, no caso aqui, 8 anos em 1. Falta de programação ou incapacidade de Snyder? Certamente que não. A culpa está na Warner que não soube valorizar seus personagens ao longo dos anos e perdeu o bonde da história de universos compartilhados (sim, perdeu, não tem como negar isso). Com apenas a trilogia de Nolan como triunfo (e que triunfo!) em seu currículo super-heroístico recente, a produtora atirou para todos os lados e errou todos os alvos. Quando acordou, uma página importante havia sido virada por sua concorrente.

Snyder foi chamado para colocar a empresa de novo nos trilhos e BvS é o resultado. No entanto, o resultado não consegue cumprir bem o papel de ser um filme sobre Batman vs Superman nem um filme sobre A Origem da Justiça. Ele fica em um meio termo incômodo, que poderia ter sido resolvido mais facilmente se a Warner simplesmente tivesse tido a coragem de seguir adiante com um filme da Liga da Justiça direto e trabalhar a partir desse ponto. Portanto, deixem Snyder em paz, mas também não achem que seu trabalho está acima do bem ou do mal, pois, mesmo com as imposições da produtora, BvS poderia ter se beneficiado de uma direção enérgica, mas não confusa como, por exemplo, a de um Christopher Nolan.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.