Lista | Better Call Saul – 4ª Temporada: Os Episódios Ranqueados

Temporada

Comentários sobre a temporada como um todo:

O que falar sobre a 4ª temporada de Better Call Saul que eu já não tenha falado ao longo de minhas críticas por episódio lindamente complementadas pelos comentários dos leitores aqui do site? Já rasguei elogios para as atuações de Bob Odenkirk e de Rhea Seehorn, que simplesmente precisam ganhar todos os prêmios possíveis; já empreguei parágrafos e mais parágrafos para babar em cima das cuidadosas cenografia e direção de fotografia da série; já endeusei Vince Gilligan incessantemente e faço aqui o mea culpa por negligenciar comentários sobre o tão brilhante quanto Peter Gould; já fiquei literalmente sem palavras para descrever o desenvolvimento dos personagens e das histórias ao longo de uma temporada que é magistral em cada detalhe, cada diálogo, cada interação.

Better Call Saul, como afirmei algumas vezes em temporadas passadas, é como uma escultura renascentista em movimento, uma obra que, se acabasse hoje (e não acabará, pois a 5ª temporada foi autorizada uma semana antes da 4ª começar), já mereceria lugar cativo pelo menos no Top 10 de qualquer um (sendo que ela está prestes a entrar no meu Top 5, quiçá Top 3…). É um spin-off que saiu da sombra de Breaking Bad e ganhou vida própria já na 1ª temporada e que, hoje, até o momento, tem tudo para ultrapassar a qualidade da série original.

É bem verdade que esta temporada talvez tenha sido a mais perceptivelmente “lenta” de todas, mas Better Call Saul tem em seu DNA exatamente a chamada queima lenta. Não é uma série de ação ou que tenha qualquer semblante de pressa. Gilligan e Gould criaram algo bem diferente de Breaking Bad, com preocupação extrema na estética e no desenvolvimento de personagens que, porém, não esquece e não trai suas raízes. A 4ª temporada não é muito diferente das anteriores em termo de ritmo, mas, diria, é a que mais bem trabalha seus personagens em duas linhas narrativas substancialmente separadas – Mike de um lado e Jimmy de outro – com convergências limitadas aqui e ali, mas que contam uma história macro que muito claramente deságua no “futuro” que conhecemos e também no futuro que ainda não conhecemos completamente, com Gene na Cinnabon, nas sequências em preto-e-branco que abrem cada temporada.

Ao final da 4ª temporada, Saul efetivamente nasce. Pode não ser ainda exatamente o mesmo Saul de ternos espalhafatosos que conhecemos, mas é quase lá. A sinfonia de Gilligan chega mais próxima do fim sem desafinar uma nota sequer. E a jornada tem sido arte televisiva da mais alta qualidade.

Comentários bipolares sobre o ranking abaixo:

Toda a qualidade quase incomparável da 4ª temporada de Better Call Saul me causou um seríssimo problema ao confeccionar a lista abaixo. Afinal, nas minhas críticas, avaliei nada menos do que SEIS episódios com a nota máxima, três com 4,5 estrelas e apenas um com 4 estrelas. O ranqueamento, portanto, foi um sufoco e eu fiz e refiz a lista uma dezena de vezes e mesmo assim não fiquei completamente satisfeito.

Portanto, fica desde já um aviso: eu mesmo já discordo da minha lista. Não, não sou bipolar (ou pelo menos acho que não sou). Mas, no momento em que eu desisti de fazer a dança das cadeiras para manter o pouco de minha sanidade mental, eu já percebi que ela estava errada, que não poderia ser assim e que eu sou – desculpem-me o francês – um “crítico arrombado bosta lixo prepotente do caralho”. Portanto, sintam-se livres para concordar com a minha parte que discorda de mim mesmo e mandem suas próprias listas, pois tenho certeza de que não vai ser nada fácil fazê-las, mas eu quero muito vê-las. De toda forma, como diria Jimmy, S’all good man!

Vamos lá então?

10º Lugar
(mais conhecido como a única colocação que tenho certeza):
Piñata

4X06

De todos os espetaculares episódios desta quarta temporada de Better Call SaulPiñata é o primeiro destaque negativo. Mas deixe-me esclarecer: negativo, no conjunto da obra apresentada até aqui, não significa ruim ou mesmo apenas bom. Trata-se de um episódio ainda muito bom, mas que não alcança o patamar dos anteriores por talvez tentar lidar com muita coisa ao mesmo tempo, da narrativa principal de Jimmy às voltas com seu negócio paralelo de celulares burners até a relação de Mike com sua nora, passando por mais uma demonstração de calma e rancor extremo de Gus por Hector Salamanca.

9º Lugar: Smoke

4X01

São oito minutos que contêm mais tensão do que muito filme de terror e suspense por aí e que a constrói com coisas triviais do dia-a-dia, começando pelo tratamento médico que ele recebe, com os vários exames que seguem ao seu desmaio e, principalmente, com sua interação com a atendente do balcão do hospital e, em seguida, no táxi de volta ao shopping. Falar é um esforço tremendo para “Gene” e a verificação de sua identidade é algo que, para ele, é excruciante, o mesmo valendo para a tensão criada no táxi quando ele constata que o motorista não só não para de olhar para ele pelo retrovisor, mas também tem um purificador de ar de Albuquerque, no Novo México.

8º Lugar: Something Beautiful

4X03

O plano mirabolante da vez é a forma como os capangas de Gus encontram para livrarem-se do corpo de Arturo, morto no chocante final de Breathe. Certamente havia outras maneiras de se fazer isso, mas havia um objetivo duplo, ou seja, usar o corpo de um soldado do lado Salamanca do tráfico para instigar a desconfiança de Bolsa e abrir espaço para Gus introduzir sua própria droga made in America. São os primeiros passos para a já familiar linha narrativa de Breaking Bad, com a apresentação breve de um personagem “do futuro”, o químico Gale Boetticher (David Costabile em uma hilária ponta em que ele aparece cantando uma canção sobre a tabela periódica como se fosse o hit do momento).

7º Lugar: Breathe

4X02

O primeiro deles são os quase 10 minutos em que vemos Jimmy vender-se a uma empresa que fabrica fotocopiadoras. Deixando Kim bem cedo para procurar emprego, ele procura uma colocação de vendedor na empresa, localizada embaixo de um deprimente viaduto, e precisa convencer o diretor a contratá-lo mesmo que ele não tenha experiência alguma em vendas. Se o primeiro monólogo dele já é incrível, o segundo, depois de alguns momentos de hesitação sobre voltar ou não para tentar novamente, é um primor de texto e de atuação por Bob Odenkirk.

6º Lugar: Something Stupid

4X07

É aqui, porém, que Gus mostra toda sua raiva e rancor quando deixa entrever uma felicidade incontida por dentro – e quase por fora, já que ele esboça um sorriso – ao notar no vídeo da médica que ele contratou a peso de ouro para cuidar de seu rival, que o velho traficante está de volta. Hector Salamanca está plenamente consciente em seu corpo debilitado e não poderia haver vingança maior do que deixá-lo entrevado dessa maneira, o que é exatamente o plano de Gus, apesar de a médica ter sido assertiva que seria possível ele voltar a falar e andar (reparem no paralelismo disso com a “prisão” dos trabalhadores alemães). A maldade da sequência na cozinha de Gus ficará para sempre marcada na mente de quem assisti-la, assim como as inestimáveis atuações de Giancarlo Esposito e Mark Margolis.

5º Lugar: Talk

4X04

Mas o mais curioso – e genial – é como o roteiro usa o tédio de Jimmy na loja como arma para que ele desça mais um degrau. Ao decidir esquentar os negócios da loja pintando a fachada com uma mensagem “cifrada” para bandidos (basicamente um “compre aqui seu celular para cometer crime e jogar fora em seguida”), ele próprio, talvez ainda inconscientemente, esteja armando seu futuro.

4º Lugar: Wiedersehen

4X09

Se eu precisasse escrever uma crítica focando em apenas um momento do penúltimo episódio da 4ª temporada de Better Call Saul, eu definitivamente escolheria a sequência da visita de Lalo e Nacho a Hector. Não me lembrava dos detalhes espetaculares do trabalho de Mark Margolis como Hector já entrevado na cadeira de rodas e comunicando-se com uma campainha, mas essa cena fez minhas lembranças voltarem a galope no mesmo momento em que meus olhos se fixaram na performance do ator e meu queixo caiu. Mesmo tendo tido um gostinho disso em Something Stupid, vê-lo em sua versão Breaking Bad foi fenomenal.

3º Lugar: Winner

4X10

Winner é um episódio que torna a temporada toda 100% circular, encerrando-se exatamente como começou, mas sem deixar de efetivamente desenvolver personagens, introduzir outros e encerrar os grandes arcos. Jimmy agora é Saul, talvez não exatamente aquele Saul, mas alguém muito próximo dele e Mike é o grande capanga de Gus, capaz de fazer o que for preciso – dentro de seu código moral, claro – por seu chefe.

2º Lugar: Coushatta

4X08

E é por isso que é tão satisfatório e absolutamente cativante ver os dois trabalhando efusivamente em um esquema complexo de “relações públicas” para levar a promotora pública a aceitar um acordo que evitasse que Huell fosse para a cadeia por agressão a um policial. Aqui, a construção do “golpe” ganha os ares calmos e detalhados das sequências que mais comumente envolvem Mike, primeiro focando no detalhe – as cartas e cartões postais febrilmente sendo escritos por Jimmy na viagem de ônibus – e, depois, bem aos poucos, abrindo para a estratégia macro que, por mais ilegal que possa ser, traz sorrisos (e, no meu caso pelo menos, gargalhadas) nos rostos de qualquer espectador.

1º Lugar: Quite a Ride

4X05

A questão, porém, é que essa longa sequência que coloca Bob Odenkirk em mais um grande momento de sua atuação na série, não é exatamente o ponto de virada mais relevante. Este acontece de forma muito mais discreta quando Jimmy, no tribunal, primeiro encontra um Howard completamente arrasado pela culpa que sente pela morte de Chuck e, depois, tem uma entrevista com seu oficial de “condicional”. Com Howard, ele aprende que procurar um psicólogo não adianta muita coisa e que ele fez muito bem em se recusar a aceitar qualquer traço de culpa pelo suicídio do irmão. Com o oficial, Jimmy, ao responder sobre seus planos de futuro, vagarosamente fala sobre o quanto ele quer ser novamente advogado, trabalhar com sua parceira e crescer na atividade. Mas reparem em como Odenkirk atua nesse momento crucial. Reparem em como ele, olhando para lugar nenhum, idealiza e força esse futuro limpo e bonito como um grande advogado. É nesse exato momento que vemos Jimmy decidir ser Saul, tenho para mim. Não, ele não decide mudar seu nome ali e nem exatamente o que fará em suas minúcias. Mas é nessa construção espetacular que vemos Jimmy ter certeza de que ele no mínimo não quer ser aquilo que ele diz ao oficial que quer ser. Incrível como a performance pode ser tudo, como pode abordar todo um sub-texto que desfaz o texto verbalizado, como areia movediça. O mais discreto momento do episódio foi, para mim, o mais revelador e aquele que, mais do que o belíssimo prólogo, merece ser visto e revisto.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.