Lista | Top 10 – Documentários sobre Tubarões

Do clássico Tubarão, de 1975, ao marombado Megatubarão, com lançamento para 2018, os tubarões exercem um misto de medo e fascínio nos seres humanos. Com estrutura complexa, comportamento hierárquico e história evolutiva que os concede o confortável topo da cadeia alimentar marinha, os tubarões, tal como acompanhamos ao longo do recente especial, rendem filmes, livros, quadrinhos, reportagens sensacionalistas e uma longa lista de documentários.

Na contramão das linhas cronológicas ou da análise qualitativa, a lista apresentada resgata dez documentários que retratam os tubarões, tendo como foco o seguinte método de avaliação: a produção reforça clichês ou desbanca mitos? Como apresentado ao longo dos últimos textos sobre o assunto, ambientalistas culpam o filme de 1975 pela extinção de algumas espécies, bem como pela cristalização do imaginário de fera sanguinária, cruel e assassina, características atribuídas aos tubarões nos últimos 40 anos.

Desta maneira, por meio de uma análise sucinta, focada no geral em seis pontos (direção, roteiro, edição, narração, direção de fotografia subaquática e condução musical), os 10 documentários da lista foram decupados com o propósito de observar se oferecem novo ponto de vista ou se perpetuam estereótipos cristalizados e processados pela indústria do entretenimento. Vamos nessa?

1 º Lugar

Tubarão – O Perigo dos Oceanos

O ponto de partida é o gélido clima da Groelândia. Pesquisadores estão interessados em descobrir mais sobre o tubarão da Groelândia, uma espécie que não oferece perigo ao homem, desde que este o observe com distanciamento. Narrado por meio de adjetivos sensacionalistas, o documentário afirma que há o registro de “apenas” 30 espécies responsáveis por ataques aos seres humanos. Sob a direção e roteiro de Nick Caloyianis, Tubarão – O Perigo dos Oceanos parte da região gélida para outros pontos do planeta, em especial, a região das Bahamas, tendo em vista observar outras espécies. “Cruéis”, “fatais” e “ardilosos” são alguns dos adjetivos aplicados ao animal marinho, registrados pela direção de fotografia subaquática de Caloyianis e condução musical de Chris Whitten.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Um pouco de cada coisa. A produção destaca os pontos fortes, a anatomia dos tubarões e alguns prováveis dados de sua evolução natural. Ao passo que analisa o animal numa perspectiva científica, utiliza de adjetivos e uma narração grave para criar um clima de “perigo”.

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2º Lugar

O Mistério dos Tubarões

O ponto de partida é a captação de imagens de tubarões brancos na Ilha de Guadalupe, na costa do México. O documentário já abre com cenas que flertam com o desconforto e o medo, emulados pelo imaginário dos filmes com tubarões sedentos por carne humana. Sensacionalista, a produção dirigida pela dupla formada por Stephen Kajueira e Peter Kraigh, com roteiro e edição de Paul Spillenger narra a trajetória de três tubarões, nomeados de Scarface 01, Scarface 02 e Harry, animais acompanhados pelo que os pesquisadores chamam de shark sonics, ondas sonoras criadas para atraí-los. No que tange aos meandros das curiosidades, o documentário é interessante, pois analisa cientificamente em determinados momentos e levanta a polêmica do engodo, questionando se isso ajuda no estudo dos animais ou se os deixam irritadiços em seus respectivos ambientes naturais.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Tenta desbancar mitos, mas parece que o discurso sensacionalista ganha mais destaque, com a impressão os tubarões como máquinas de matar assassinas e cruéis. Ao narrar com linguajar sanguinolento o incidente com um arpoador em 1973, a produção reflete o estilo documental atrelado ao discurso jornalístico que acompanhamos constantemente na mídia contemporânea, interessada por espremer sangue na tela para delírio do público.

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3 º Lugar

Rebelião dos Tubarões

O ponto de partida é a observação do mergulhador Lawrence Wahba em relação aos tubarões de duas espécies: cabeça-chata e tigre. Por qual motivo os tubarões acompanhados na região das Bahamas e Cuba não atacam os mergulhadores, mas em Recife são apontados como os responsáveis pelos incidentes que só aumentam nos dados estatísticos dos últimos anos? Wahba chega a conclusão de que o problema é o ecossistema desequilibrado. Dirigido por Rodrigo Astiz e Malcolm Hall, a produção bancada pelo Discovery Channel radiografa a história de Recife e expõe dados históricos alarmantes: um abatedouro que jogava restos da pecuária no mar, a construção do Porto de Suape, fator preponderante para o aterramento de manguezais onde a espécie cabeça-chata se alimentava e gerava os seus filhotes, bem como outras questões delineadas em Mitos e Verdades Sobre os Ataques de Tubarões no Recife, Mar de Sangue e O Olhar da Vítima – A História Real de Um Ataque de Tubarão.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Desbancar mitos, mas há pequenas passagens que os especialistas condenaram na época do lançamento, haja vista a narração sensacionalista. A abertura lembra um filme de terror e a narração expõe os horrores dos incidentes e promove uma sensação de perigo ótima para manter o interesse do público, mas pouco correta quando o lema é a desconstrução de estereótipos.

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4 º Lugar

Território Selvagem – Tubarão 

O ponto de partida é a observação de uma fêmea da espécie tigre. Prenhe, ela patrulha uma região do oceano pacífico próxima a um conjunto de pequenos arrecifes, em busca de alimentação para os 40 filhotes que se apertam em seu interior. Dirigido por Peter Basset e editado por Chris Goddin, Território Selvagem – Tubarão, produzido pela BBC em 2006, investe no lado tecnológico da observação dos tubarões, tendo ainda contato com hábitos de caça do tubarão martelo, galha-branca oceânica e retorna constantemente para a trajetória da fêmea faminta. Liz Elkington e Charles Golding, membros da equipe de design gráfico, concebem gráficos deslumbrantes, que dialogam bem com o entretenimento e o tom didático de produções do tipo.

Reforça clichês ou desbanca mitos? Desbanca mitos, pois em nenhum instante a produção se preocupa em versar sobre a relação do homem com os tubarões. A análise realizada pelo documentário é completamente científica, focada na observação de dados sobre a evolução e elementos que compõe a anatomia das espécies apresentadas.

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5 º Lugar

Sharks 3D

O ponto de partida é a discussão sobre os tubarões como feras assassinas, imaginário cristalizado com a permanência do interesse da indústria do entretenimento pelos filmes com tubarões na posição de antagonistas. Dirigido por Jean-Michel Cousteau, realização já carregada de pedigree por conta do sobrenome, o documentário teve roteiro de David Chocron e edição de Jean Jacques Mantello. As imagens captadas pela direção de fotografia subaquática de Gavin McKinney são hipnóticas, contemplativas ao enquadrar a anatomia e os métodos de caça de tubarões das espécies tigre e silvertip. A condução musical de Christopher Jacquelin nos remete aos tensos acordes de Marco Beltrami em Águas Rasas, efeito ampliado pela narração grave em algumas passagens.

Reforça clichês ou desbanca mitos? Desbancar mitos com uma leve carga sensacionalista, o que é uma surpresa se tratando de uma produção realizada por Jean-Michel Cousteau. A demonstração com distanciamento e o texto do roteiro possuem carga ecológica, mas a condução narrativa flerta com o clima apavorante dos bons filmes de tubarões.

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6 º Lugar

O Predador e a Presa – Ataques de Tubarões

O ponto de partida é observar, tal como Rebelião dos Tubarões, os desdobramentos dos incidentes com tubarões em Recife, um dos pontos que disputa, ao lado da Austrália e da África do Sul, o posto de maior índice de “ataques”. Diferente de qualquer análise já realizada anteriormente sobre o local, o documentário flerta com o tubarão branco como o predador da história, mas logo adiante, descarta tal possibilidade, indo na linha geral sobre o assunto, entre as espécies tigre e cabeça-chata.

Reforça clichês ou desbanca mitos? Extremo reforço de clichês. Sensacionalista e guiado por simulações sangrentas, relacionadas ao imaginário dos filmes de terror, constantemente a narração personifica os tubarões, com expressões do tipo “o tubarão não saiu dali”, como se depois do ataque o animal ficasse a supervisionar o estrago feito com a vítima, além de usar a todo instante, expressões do tipo “toda a cidade está em pânico, “há pavor em Recife”, etc.

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7 º Lugar

Tubarão  Branco

O ponto de partida é a análise do que a narração chama de “sensualidade” e “medo” da humanidade diante dos tubarões brancos. Dirigido por Kenneth Cobben, com base no roteiro de Alan Peterson, o documentário editado por Leah Landry e conduzido musicalmente por Don Grady apresenta boa captação de imagens subaquáticas para retratar a anatomia e o deslocamento dos tubarões do Havaí ao México, da África do Sul à Austrália, sempre em busca de alimentação ou condições ideais de reprodução. Tubarão, de 1975, é apontado por muitos como o vilão na construção da imagem da espécie como fera assassina, mas um entrevistado faz questão de reforçar que o medo em relação aos tubarões é coisa antiga, desde o ataque em Nova Jersey, em 1913.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Desbanca mitos. Cuidadosamente construído, o documentário trata da espécie mais acometida por estereótipos, tendo em vista a projeção do filme de Spielberg e do livro de Benchley, sem necessariamente precisar de acordes e enquadramentos promovedores de medo e horror.

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8 º Lugar

O Diário do Homem-Tubarão

O ponto de partida é o método pouco convencional de Manny Puig, considerado um aventureiro por muitos. Ele aponta que o documentário é a “história nunca contada sobre os tubarões”. Com direção, roteiro, fotografia subaquática e edição de Jeff Kurr, O Diário do Homem-Tubarão apresenta um “personagem” fascinado pela destreza e “inteligência” dos tubarões, animais que segundo o seu ponto de vista, não são frios e assassinos, características apontadas pelo discurso cinematográfico. Guiado pela condução musical de Craig Dobbin, sem acordes clichês e apavorantes, o “especialista” flerta com a ferocidade do tubarão tigre, a tranquilidade do tubarão lixa (que deve ser apenas observado, não tocado) e narra alguns incidentes com o tubarão galha-preta, conhecido por sua velocidade e agressividade.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos?Desbanca clichês. A narração gutural e as imagens aparentemente ameaçadoras são logo acompanhadas de mensagens que explicitam a importância do animal para o equilíbrio do ecossistema, além de um programa educacional de visita aos ambientes escolares para conscientizar os jovens sobre os tubarões.

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9 º Lugar

Central dos Tubarões

O ponto de partida é a contemplação dos segredos marinhos no atol Rangiroa e a beleza da Polinésia Francesa, região conhecida por duas correntes marinhas em colisão, juntamente com as ondas em mar aberto, espaço para espetáculos ecológicos de grande beleza, mas também perigosos para a sobrevivência de qualquer ser humano sem experiência com mergulho e contato com as espécies de tubarões que habitam o local. Com direção e edição de Julia Whitty, tendo como guia o roteiro e a condução musical de Jeff Day, o documentário apresenta, entre as estranhas barracudas e os peixes-napoleão, detalhes anatômicos de tubarões das seguintes espécies: cação-seda, galha-preta, cinzento dos arrecifes, galha-branca e tigre.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Desbanca mitos, pois a condução lenta e poética enquadra o mar como um paraíso subaquático e trata os tubarões como animais que fazem parte de um ecossistema com regras específicas, dotados de instinto como qualquer outro animal em defesa do seu território. A intervenção humana sem bom senso é criticada, sem demonização até mesmo das espécies mais agressivas.

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10 º Lugar

Tubarões voadores

O ponto de partida é a observação do modo de caça dos tubarões brancos numa região costeira da África do Sul, conhecida por liderar, ao lado da Austrália, o posto de ambiente predileto de patrulhamento da espécie apresentada como uma fera assassina no filme de Spielberg. Jeff Kurr, responsável por O Diário do Homem Tubarão, assina a direção e o roteiro de Tubarões Voadores. Com a condução musical de Craig Dobbin, a produção demonstra como a espécie precisa nadar constantemente para sobreviver, detalham o modo operacional de caça às focas, mas peca por usar termos como “tubarões matam”, quando na verdade estamos falando de caçadores em seu habitat natural. Kurr, que parece não ter aprendido muito ao documentar a trajetória de Manny Puig, conta com a edição de Ryan Orton para transformar sua produção num amontoados de clichês.

Reforça estereótipos ou desbanca mitos? Reforça clichês e entra em contradição, pois ao mesmo tempo em que condena o clássico de Spielberg e o aponta como responsável pelo abate aos tubarões da espécie ao longo dos últimos 40 anos, reitera estereótipos de seu próprio discurso condenatório. Uma revisão de roteiro resolveria o problema tranquilamente. E aos leitores que achavam que se tratava de tubarões com asas, ledo engano, pois o título é uma referência ao modo de ataque do tubarão branco, de baixo para cima, com saltos surpreendentes quando o assunto é a sua alimentação. Se fosse um filme produzido pela galera do Sci-Fi…

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.