Lista | Top 10 – Filmes em Stop-Motion

Boxtrolls plano critico stop motion

Como disse Ritter Fan em seu texto de King Kong, “movimentar bonecos articulados 24 vezes a cada segundo de filmagem é, por si só, um esforço hercúleo”. O chamado stop-motion define-se, de maneira bastante simplificada, em fazer movimentar o que está parado. No caso de King Kong, por exemplo, cada um dos frames era fotografado individualmente, um após o outro, para que depois o personagem, um boneco na realidade, se movimentasse mais um pouquinho e novamente fosse fotografado. Por isso, um esforço hercúleo. Agora, imagine realizar um longa-metragem inteiro utilizando essa técnica de animação, que possui tantas vertentes, da claymation à animação de recorte. Sendo assim, decidimos por montar, em razão do lançamento de Ilha dos Cachorros, novo longa dirigido por Wes Anderson, um TOP 10 com essa mesma temática. Preparados para deixarem o desânimo?

  • A lista foi montada seguindo as sugestões de Luiz Skellington, O Fantástico Sr. Ritter Fan e Gabriel Achmed.
  • Apenas longas-metragens foram considerados.
  • Para a montagem da lista, os longas-metragens com uso de stop-motion, mas não feitos exclusivamente dele, também não foram considerados.

10º) Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais
(The Curse of the Were-Rabbit, 2005)

Quando o animador Nick Park criou a franquia Wallace & Gromit para a Aardman Studios, empresa que também viria a ser conhecida por A Fuga das Galinhas e traços próprios, utilizando do claymation para realizar alguns curtas-metragens, definitivamente ele não estava esperando o sucesso que bateria na sua porta. Afinal, Wallace & Gromit conquistou duas estatuetas de Melhor Curta-Metragem Animado. Não tardaria muito para que um longa-metragem da cômica dupla fosse anunciado e, em consequência do seu lançamento, adivinhem o que aconteceu? Exatamente, mais um Oscar para Nick Park. Dessa forma, Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais é a única animação em stop-motion a conquistar o prêmio de Melhor Animação no Oscar, valendo, portanto, uma posição nesse TOP 10..

9º) Planeta Fantástico
(La Planète Sauvage, 1973)

Uma cooperação internacional entre empresas da França e da antiga Tchecoslováquia deu origem ao magnífico Planeta Fantástico, absurda realização psicodélica, combinando a animação com o surrealismo e dando, portanto, margem a construções visuais extremamente coloridas, muito lisérgicas. A animação de recorte, popular pelos usos frequentes em esquetes do grupo britânico Monty Python, não apenas é uma das mais importantes dentre as vertentes abertas pelo stop-motion, como é a responsável por um dos maiores deslumbramentos do público em relação a um filme animado na história, também envolvente pela sua história alegórica, que encontra metáforas poderosas dentro do ambicioso – e estranhíssimo – gênero da ficção científica..

8º) Minha Vida de Abobrinha
(Ma Vie de Courgette, 2016)

Como trabalhar a orfandade para crianças? Minha Vida de Abobrinha sabe responder a essa pergunta com bastante louvor, colocando em primeira instância uma história extremamente encantadora sobre amizade e superação. O grupo de amigos presente nesse longa-metragem funciona extremamente bem como um ser único, que compreende vários aspectos de si mesmo. Ao mesmo tempo, Minha Vida de Abobrinha faz um trabalho espetacular de animação dos olhos, bastante emotivos. Por que não mereceria o oitavo lugar?.

7º) Coraline e o Mundo Secreto
(Coraline, 2009)

O Estranho Mundo de Jack pode até ser assustador, mas Coraline e o Mundo Secreto é ainda mais. Ambos são dirigidos por Henry Selick. Apesar de Coraline, diferentemente de O Estranho Mundo de Jack, não possuir relação com o grande Tim Burton, as referências visuais são claras, com extrema inspiração do icônico cineasta, capaz de tornar a visita de uma garotinha a um mundo completamente invertido, no qual as pessoas teêm olhos de botão, um dos encontros mais verossímeis entre a fantasia e o terror de primeira instância. O início da Laika Studios é um brinde aos amantes de animação e de stop-motion, tornando, logo de cara, o estúdio como um dos mais bem sucedidos entre aqueles do seu ramo, assim como reafirmando a capacidade de Selick em relação a essa técnica, também diretor de James e o Pêssego Gigante, longa que combinou o live-action e o stop-motion. Só não é o melhor filme da empresa, pois existe a história de um certo garoto que perdeu o olho esquerdo durante a infância… Só não é o melhor filme de Selick, pois existe um certo crossover entre o Natal e o Dia das Bruxas….

6º) Kubo e as Cordas Mágicas
(Kubo and the Two Strings, 2016)

Kubo e as Cordas Mágicas está longe de chegar ao nível de Anomalisa e Mary e Max como obra adulta, mas abordar a morte e outras temáticas com tanta verdade é uma tarefa árdua, que definitivamente comprova a maturidade da animação em saber aliar a sua beleza estética incontestável com camadas que vão além da superficialidade, ainda assim magnífica. Dessa vez, foi hora de Travis Knight, CEO da Laika, receber o cargo de diretor do longa-metragem, atingindo um sucesso mais do que comprovado, rendendo, além da nomeação ao prêmio de animação, uma indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais..

5º) Anomalisa (2015)

O triunfal retorno de Charlie Kaufman para o cinema, depois de longos anos ausente do cenário fílmico, foi um sucesso arrebatador de crítica. Quem poderia imaginar que uma cena de sexo entre “objetos” poderia ser, no final das contas, tão verdadeira? Kaufman consegue fazer isso, narrando a história de um homem incapaz de não distinguir mais ninguém. São todos iguais. Enquanto cria o seu mundo particular, Kaufman nos dá esperança, mas depois as retira, sem perder honestidade com isso. Estamos falando de demasiada desesperança, mas, acima de tudo, de uma realidade bastante triste..

4º) Mary e Max – Uma Amizade Diferente
(Mary and Max, 2009)

Quando falamos da solidão, assunto recorrente no cinema, Mary e Max – Uma Amizade Diferente é um longa-metragem que deve ser citado, comentado e aplaudido. O filme australiano, escrito e dirigido por Adam Elliot, também puxando um pouco para o humor negro, aborda tantos temas adultos que é impossível associá-lo a crianças. Assim como Anomalisa, Mary e Max é uma obra bastante séria, que emociona ao tratar de uma amizade improvável, entre uma garotinha de oito anos e um adulto obeso de 44, cheio de problemas. A menina decide escrever um carta para ele… e temos o nosso filme. O resto é história e das melhores, assim como o trabalho de claymation encontra-se ao lado das mais honestas já feitas com tal técnica.

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3º) As Aventuras do Príncipe Achmed
(Die Abenteuer des Prinzen Achmed, 1926)

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As Aventuras do Príncipe Achmed é a mais antiga animação desta lista, datada de 1926. A obra alemã, ao mesmo tempo, também é considerada o longa-metragem em animação mais antigo de todos os tempos, pelo menos, entre os que sobreviveram ao passar das décadas. O “primeiro”, muito antes da técnica tornar-se uma moda particular, já fazia uso do stop-motion, mas, como vocês devem perceber na imagem colocada para representá-lo, a utilização é diferenciada da de outros filmes citados, assim como Planeta Fantástico distinguiu-se. A técnica abordada pela alemã Lotte Reiniger na realização do filme é denominada silhueta, uma das vertentes abertas dentro da animação de recorte, categoria inserida no stop-motion. A adaptação de uma das histórias presentes em As Mil e Uma Noites é, por razão disso, e de seu visual belíssimo que permanece encantador, merecedora do terceiro lugar, em homenagem a uma das produções pioneiras não apenas do stop-motion, como da animação em si..

2º) O Estranho Mundo de Jack
(Nightmare Before Christmas, 1993)

Em segundo lugar, o icônico O Estranho Mundo de Jack, idealizado pelo célebre Tim Burton, é um filme que não poderia ser esquecido, distinguindo-se extremamente de outras produções distribuídas pela Disney – que, aliás, está mais do que na hora de abraçar o stop-motion em suas realizações. O cineasta, que, diferentemente do que muitos pensam, não dirigiu esta obra, apenas produziu-a e idealizou-a, insistira bastante nesse filme, saindo da produção do curta-metragem Vincent, realização também feita em stop-motion, recomendadíssima por sinal, com enorme interesse na técnica. Assim sendo, o amor entre Tim Burton e o stop-motion tornou-se um casamento muito conhecido pelos apreciadores desta arte tão adorada.

Lembro-me, ainda pequeno, de estar assistindo à televisão e, entre séries animadas e alguns filmes infantis clássicos, a história de Jack Skellington – com as vozes originais de Chris Sarandon, falando, e Danny Elfman, cantando -, um morador do Halloween Town que decide celebrar o Natal, pipocar no meio de tanta coisa, apesar de até sensacional, uniforme em tom. A criança precisava dessa combinação entre o mágico e o assustador. Era impossível não ficar vidrado – e algumas vezes aterrorizado – com o visual e a própria narrativa da fita, extremamente original. De tão apavorante que era para mim, assim acontecia com outras crianças, não sendo à toa que a Disney distribuiu o longa-metragem sob o selo da Touchstone Pictures. Um musical sobre monstros, amor e Natal..

1º) O Fantástico Sr. Raposo
(Fantastic Mr. Fox, 2009)

Quando falamos de Wes Anderson, estamos falando de um autor, acima de tudo, inconfundível. Com histórias puxando muito do absurdo para conversar com o espectador sobre disfunções familiares, sociais e pessoais, O Fantástico Sr. Raposo é a primeira fábula dirigida pelo famoso cineasta. Dessa forma, o absurdo não é nada mais nada menos que algo já naturalizado em cena, podendo Anderson extrapolar ainda mais as barreiras entre o real e o imaginário, entre o que está em cena, indistinto, e entre o que é colocado em cena, moldando-se, em consequência, cenários riquíssimos. Aliás, Wes Anderson até mesmo homenageia Robin Hood, inserindo a canção Love do musical da Disney para embalar uma das cenas. No final das contas, o resultado não poderia ser mais magnífico.

Com um visual de dar inveja a qualquer um, O Fantástico Sr. Raposo é uma obra extremamente espirituosa, daquelas impossíveis de serem olhadas sem, no mínimo, um sorriso no rosto. Um filme bastante dinâmico, que envolve o espectador de maneiras inimagináveis. Por falar em amor, já falei que é quase impossível não se apaixonar por essa fita? Permanecendo com a sua linha discursiva sobre disfuncionalidades, o Sr. Raposo, na voz magnífica de George Clooney, é um antigo ladrão de galinhas que começa a roubar de fazendeiros vizinhos, tendo em vista o bem estar de sua família. Um filme detentor, com toda a glória possível, do título de obra de arte, além de ser, definitivamente, uma das melhores realizações em stop-motion já feitas. Citando Ritter Fan, “em poucas palavras, O Fantástico Sr. Raposo é exatamente isso: fantástico”..

Hors Concours:

Jasão e os Argonautas
(Jason and the Argonauts, 1963)

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Como apenas filmes de stop-motion puderam ser válidos para este TOP 10, muitas obras com stop-motion foram deixadas de lado. Porém, como não se lembrar do formidável King Kong, de 1933? Uma das criaturas mais famosas do cinema não existiria se não fosse a existência dessa arte particular. Além disso, há inúmeros outros exemplos de sequências do cinema que necessitaram do uso dessa técnica importantíssima. Quebraremos essa regra, então, e homenagearemos tais usos, mesmo fora de competição. Como não há lugar para várias citações, manteremos a colocação para um longa-metragem e, especialmente, para o responsável pelos seus efeitos visuais impressionantes. Como o mestre há de ser lembrado, esse espaço é dedicado, acima de tudo, ao animador, especialista em stop-motion, Ray Harryhausen (1920-2013), responsável pela criação de cenas antológicas, como a batalha de espadas travada contra esqueletos vivos, em Jasão e os Argonautas, de 1963.

O infinito era o limite para o animador, permitindo os estúdios levar os seus filmes para dentro da Grécia Antiga, sem medo algum de explorar monstros e criaturas mitológicas formidáveis. Em Fúria de Titãs, de 1981, seu último trabalho, o Kraken tornava-se um monstro capaz de rivalizar com personagens da fita, muito antes da computação gráfica permitir que tudo se tornasse fácil, mas não tão palpável quanto. Entretanto, Jasão e os Argonautas é mesmo a obra mais célebre com a mão do inventor, demasiadamente importante para a cultura popular. Não é à toa que o ator Tom Hanks, em homenagem a Ray, disse: “Algumas pessoas falam de Casablanca e de Cidadão Kane… Eu falo que Jasão e os Argonautas é o maior filme da história”. Em razão disso, mais do que justo relembrarmos desse artista ímpar, especialista em efeitos visuais, que tornou a fantasia realidade. O cinema nunca foi tão mágico quanto o cinema proporcionado por Harryhausen.

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Agora é a hora de vocês comentarem quais são seus filmes favoritos feitos completamente em stop-motion.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.