Crítica | A Confissão da Leoa, de Mia Couto

estrelas 4

A minha porta de entrada para a literatura de Mia Couto foi Antes de Nascer o Mundo (2009), um livro sobre o autoexílio em tempos de crise e descobertas do mundo e da vida além do horizonte. A obra é de um encanto e de uma profundidade notáveis, o que me fez adicioná-la entre as melhores publicações daquele ano e, claro, me trouxe a surpresa do contato com a literatura de um escritor moçambicano. Por isso, quando soube da chegada de A Confissão da Leoa às livrarias, não pude evitar aquela luz de expectativa que se acende em nós sempre que um lançamento de um escritor que gostamos ou uma obra que esperamos muito é publicada.

Baseado em uma história real – tendo o próprio Mia Couto estado presente em uma aldeia moçambicana onde se dava caça a leões comedores de gente – A Confissão da Leoa é um misto de elementos da cultura de Moçambique (em se tratando de África é bom evitar generalizações culturais, então vamos fechar o cerco por aí mesmo); características políticas do continente como um todo, centrado na oposição entre a tradição e o novo modelo sociopolítico; a memória histórica, nesse caso, trazida à tona como feridas da Guerra da Independência; e por fim, a problematização do papel social e do direito (jurídico e humano) da mulher.

O livro é narrado sob dois pontos de vista, um pelo diário do caçador Arcanjo Baleiro, que acompanhado pelo escritor Gustavo Regalo (alter-ego de Mia Couto), pelo administrador do distrito e a primeira dama, vão à aldeia de Kulumani a fim de resolver o “problema com o leão”. O outro ponto de vista é pelo diário de Mariamar (Mar – i – Amar), uma nativa que encarna a dor e a vida da mulher presa a uma cultura tradicional, uma mulher que se crê Leoa, uma prova viva de que milagres, magia, metamorfose e o contato com ancestrais não são apenas lendas.

Dada a ideia geral do argumento do livro, o leitor desavisado pode pensar que se trata de uma série de visões sobre um fato ocorrido, algo nada novo na literatura e que foi trabalho por outros escritores em formatos até menores que um romance (tenho em mente o conto No Matagal [também conhecido como Dentro de um Bosque], de Rynosuke Akutagawa, mas este é apenas um dentre vários exemplos). Mas aí é que entra a prosa rica de Mia Couto. Lançado o conflito e estabelecido o grupo de pessoas de ambos os lados para lidar com ele, o escritor arruma vias paralelas, atalhos oníricos, descrição de rituais, cenas do passado, alucinações, desejos e incômodos para a maior parte dos protagonistas: todos são contemplados com alguma mudança, ninguém sai isento das garras dos leões, seja direta ou indiretamente, metafórica ou fisicamente.

Nessa linha tênue entre a fantasia e a realidade, temos em destaque o papel da mulher. Aliás, a feminilidade é a alma do livro, tendo já o seu início uma declaração linda, desenvolvida com a visão da mitologia africana, claro, mas que sabemos também ser real para as outra civilizações: Deus já foi mulher. Desse ponto em diante, acompanhamos a queda livre da personalidade, da alma e da própria existência da mulher na sociedade, de Deusa a Ninguém. Os papéis sociais violentamente definidos são o cerne dessa deposição, o que faz com que tenhamos acesso aos diferentes modos dessas ex-deusas lidarem com a sua atual condição de não serem nem pessoa (se não puderem ter filhos) e de serem completamente despidas de palavra, de ação própria, de viver.

O desfecho do livro é doloroso mas muito real e coerente com a proposta geral, trazendo o assumir de uma personalidade forte, mortal e amedrontadora para Mariamar e sua mãe Hanifa Assula, ao mesmo tempo colocando em pauta a loucura e outros patamares de realização para diferentes mulheres: a imensa Naftalinda e a indecisa Luzilia. Todas elas atormentadas por diferentes demônios e saciadas a grande custo e de alguma forma. O mais curioso é que mesmo com essas realizações de desejos individuais, temos a permanência de toda a estrutura que provocou marcas no passado e que evidentemente continuará marcando a alma e o corpo dessas e de outras mulheres. Uma luta que só mesmo leoas assassinas, reais ou imaginárias, podem ter coragem de enfrentar.

A Confissão da Leoa é uma espécie grito sussurrado em louvor e em denúncia a todas as confissões taxadas de loucas, a todos os sofrimentos e rejeições, a todo o peso carregado pelas mulheres desde que deixaram de ser deusas. Há uma certa confusão na abertura à interpretação dada pelo autor na reta final, algo que poderia ser remediado se ele desse um pouco mais de elementos para que os caminhos fossem melhor traçados por quem lesse. Essa escolha, no entanto, não retira o valor e a qualidade do livro, que deveria ser um tipo de leitura obrigatória para todos aqueles que se dizem humanos, especialmente se forem homens, os terríveis destronadores de deusas.

A Confissão da Leoa – Moçambique, 2012
Autor: Mia Couto
Lançamento no Brasil: 2012
Editora: Companhia das Letras
260 páginas 

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.