Crítica | A Esperança (Jogos Vorazes 3), de Suzanne Collins

estrelas 4

Tudo caminhava para um final apoteótico. Suzanne Collins claramente tinha um plano quando começou a escrever sua trilogia Jogos Vorazes e ela não parece ter se desviado dele, nem se deixado levar por saídas fáceis ou simplesmente hollywoodianas. Seu objetivo, ao começar a escrever Jogos Vorazes, a saga de Katniss Everdeen em um futuro distópico em que os Estados Unidos não mais existem e, em seu lugar, há um país totalitarista chamado Panem cuja Capital controla seus 12 distritos subordinados por meio de terríveis jogos em que 23 adolescentes são sacrificados brutalmente, foi cumprido honrosamente com A Esperança.

Se Katniss Everdeen, ao descumprir as “regras” dos Jogos Vorazes em sua primeira aventura, passou a ser vista como um símbolo de esperança; se ela, mesmo fazendo força para manter o status quo, foi manobrada tanto pela Capital quanto pelos revoltosos para escapar da  arena em Em Chamas, em A Esperança, a menina caçadora se torna a mulher soldado, mesmo que, para isso, tenha que lutar literalmente contra tudo e todos.

Katniss, ao escapar da arena com a ajuda dos tributos veteranos, Haymitch, seu treinador e de Plutarch Heavensbee, traidor da Capital e Mestre dos Jogos, é recrutada pela presidente do 13º Distrito, a durona Alma Coin, como símbolo da rebelião que começa de verdade. Gale, que salvara sua mãe e sua adorada irmã Primrose da obliteração do Distrito 12, está também ao lado da luta armada. Mas Peeta Melark, assim como Johanna Mason não estão. Foram capturados pela Capital ao final dos últimos jogos.

Vendo-se completamente sem saída, Katniss entra no jogo político e passa a participar de batalhas de brincadeira apenas para posar para fotos e ter sua imagem espalhada pelos distritos revoltosos como mensagem de esperança, luta e, claro, vitória. Não demora muito, porém, para Katniss cansar da palhaçada e passar a lutar de verdade pela rebelião.

Do outro lado do conflito, Peeta passa por terríveis torturas para ser utilizado como arma psicológica – e também não psicológica – contra Katniss. O Presidente Snow, acuado, é ainda mais perigoso, como fica claro do desenrolar da narrativa.

E é na narrativa que Collins mais uma vez sai vitoriosa. Em A Esperança, ela tem a coragem de desmantelar a própria estrutura dos jogos que criou, passando a tratar da guerra civil de cabeça. E os temas de manipulação da imprensa, totalitarismo e luta contra as desigualdades são fortemente salientados, exatamente como um leitor mais exigente de uma obra rotulada como sendo para “jovens adultos” esperaria. E ela ainda acrescenta uma atuação discussão sobre a tortura e seu papel – se é que se pode chamar assim – em uma guerra.

E nessa narrativa fluida, fácil de ler porque é absolutamente crível e naturalmente decorrente dos eventos anteriores, que Collins, mais para frente, dá outra guinada, saindo de vez do molde fácil estabelecido para obras do gênero. Ela começa a questionar o próprio propósito da guerra e a duvidar de sua legitimidade, seja para que lado olhemos. Se taxarmos cegamente o Presidente Snow de vilão, cometeremos um erro terrível. Collins sabe que o mundo nunca é feito de gente unidimensional e ela enriquece seus personagens com muitas camadas e várias delas surpreendentes. Nem Gale e nem a própria Katniss ficam incólumes quando Collins começa sua desconstrução. Katniss pode parecer certeira, ética e heroica, mas suas razões não são as mais puras possíveis. É razoável até mesmo dizer que são egoístas. Ela se corrói de culpa por causa de Peeta e pela destruição de seu distrito, mas será que sua luta não é uma espécie de vingança particular, sem nenhum propósito maior?

É somente mais para frente que a catarse do personagem vem, mas a um preço pessoal terrível. E é exatamente por não se esperar esse tipo de trabalho profundo de uma obra com a pecha de voltada para o público de “jovens adultos” que A Esperança e, em última análise, toda a trilogia, é algo bastante sui generis e bem vindo. O final de Katniss Everdeen não é o que todos aguardam, especialmente não o público-alvo acostumado com historietas básicas, sem discussão que vão além do que efetivamente está explicado na narrativa e jamais com algum tipo de tragédia irreparável. Isso nem pensar, não é mesmo? E, se somarmos a tudo isso questões politicas, discursos anti-belicista com uma generosa camada de crítica social, aí a coisa fica complicada demais. Ainda bem que ainda há escritoras como Collins, para atiçar a curiosidade dos jovens e, possivelmente, levá-los a ler clássicos imortais dentro dessas temáticas como 1984 e O Senhor das Moscas.

A Esperança é um excelente fechamento do círculo que começa com Katniss se voluntariando para ir aos jogos no lugar de sua irmã. É, sem nenhum trocadilho, uma verdadeira esperança para esse gênero literário tão simplificado e estragado que vemos poluir as prateleiras – virtuais ou não – de livrarias.

A Esperança (Mockingjay, EUA, 2010)
Autora: Suzanne Collins
Editora (nos EUA): Scholastic Press
Editora (no Brasil): Rocco
Páginas: 424

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.