Crítica | Cassino Royale, de Ian Fleming

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Aviso: O texto abaixo contém spoilers para quem não leu o livro ou viu 007 – Cassino Royale, com Daniel Craig.

Cassino Royale é a primeira aventura literária de James Bond, o livro onde o agente é criado e que começou a longeva série cinematográfica e toda sua mitologia. Ian Fleming fora membro ativo do Serviço Secreto Britânico na Segunda Guerra Mundial, tendo planejado várias missões na Europa. Uma destas missões, no entanto, fora um total fiasco. Ao saber que alguns membros do Partido Nazista jogavam no Cassino Estoril, elaborou um plano simples: limpar os bolsos dos nazistas na mesa de baccarat. No entanto, seu plano virou-se contra si mesmo e ele saiu com grande prejuízo naquela noite.

Anos depois da guerra, reza a lenda que em fase inicial de depressão, procura um psicólogo amigo que, depois de algum tempo conversando com Fleming, disse que nunca conhecera alguém com mente tão fértil quanto ele e sugere que escrevesse um livro (seu irmão Peter Fleming escrevera um livro de aventuras anos antes com grande sucesso). Ian Fleming acata o conselho e, quando de férias em sua casa na Jamaica, escreve seu primeiro romance de espionagem. Cassino Royale nasce a partir da experiência de sua fracassada missão em Portugal. Ele que era fascinado pelo mundo da espionagem e por baccarat, imaginou um personagem que fosse uma versão ideal de si mesmo, que trabalhasse para o Serviço Secreto Britânico e que tivesse sorte nos jogos e com as mulheres.

Para o nome, Fleming inspirou-se em um livro que estava lendo em suas férias na Jamaica, Birds of the West Indies, escrito por um ornitólogo chamado James Bond.  Conta  o verdadeiro James Bond que, com o passar dos anos, sempre que viajava tinha de enfrentar as brincadeiras dos funcionários da alfândega que o perguntavam onde ele guardava sua Walther PPK.

No livro, M, o chefe do Serviço Secreto, atribui à James Bond, o agente especial 007, a missão de enfrentar Le Chiffre (que significa “a cifra”), em um jogo de alto risco no Cassino Royale-Les-Eaux, no norte da França. Le Chiffre é tesoureiro de um sindicato controlado pela temida e real organização da contra espionagem russa SMERSH (acrônimo de SMERt’ SHpionam – Morte aos Espiões – nome do departamento de contra-espionagem e extermínio do GRU (Diretorado Principal de Inteligência) da União Soviética. A organização foi criada a mando de Stalin e estava sob o seu controle direto. Conta-se que os próprios agentes da KGB temiam ser mortos pelos agentes da SMERSH).

Le Chiffre, então,  pega dinheiro do SMERSH e compra vários bordéis na França esperando pagar o empréstimo com os lucros. No entanto, o governo francês sanciona leis contra tais estabelecimentos e isso acaba levando-o à falência. Sabendo que a punição para tal ato era a morte, Le Chiffre banca uma disputa milionária no cassino francês para recuperar a quantia roubada da SMERSH. O disfarce de Bond nesta missão é o de um rico jamaicano. M coloca Vesper Lynd como sua assistente. A Deuxième Bureau francesa envia Mathis e a CIA Felix Leiter, pois todos estavam interessados na derrota de Le Chiffre para poderem conseguir dele importantes informações da SMERSH O jogo logo se transforma em um confronto intenso entre Le Chiffre e Bond. Le Chiffre ganha a primeira rodada, quebrando Bond. Com Bond sem poder apostar contra Le Chiffre, o agente da CIA, Felix Leiter, o ajuda e dá a ele um envelope com 32 milhões de francos. O jogo continua apesar das tentativas de um dos acompanhantes de Le Chiffre de matar Bond. James Bond finalmente ganha 80 milhões de francos de Le Chiffre, pertencentes à SMERSH.

Desesperado para recuperar o dinheiro, Le Chiffre seqüestra Vesper e submete Bond à uma tortura brutal, ameaçando matá-los se ele não conseguir o dinheiro de volta. Antes que ele faça isso, um assassino da SMERSH mata Le Chiffre, como punição por perder o dinheiro. Depois de se recuperar da tortura, Bond se apaixona por Vesper e pensa em deixar o Serviço Secreto. No entanto, acaba descobrindo que, na realidade, Vesper Lynd era uma agente-dupla.

Alguns detalhes interessantes para quem viu o filme com Daniel Craig, de 2006  (aliás, bastante fiel ao livro, apesar das atualizações):

  • No filme, Bond é envenenado. No livro, um dos capangas de Le Chiffre fica atrás da cadeira de Bond e o ameaça com uma faca. A saída que Bond vê é se jogar para trás fazendo-o cair ao chão. Com a confusão, o capanga de Le Chiffre não tem como atacar Bond que se finge de constrangido pela sua repentina queda.
  • No filme, todos têm uma conta bancária com senha eletrônica. Vesper, após ser sequestrada por Le Chiffre, lhe passa o número da conta e este tortura Bond para que ele lhe passe a senha para assim ter acesso ao dinheiro. No livro, Bond recebe o prêmio em cheque e, desconfiado, esconde-o atrás da plaqueta de ferro indicativa do número de seu quarto no hotel. Os capangas de Le Chiffre reviram todo o quarto de Bond e não encontram o cheque. Daí, quando este está sendo torturado, Le Chiffre lhe pergunta onde ele escondeu o cheque.
  • No filme, a cena da tortura é fiel ao livro, inclusive com a utilização da cadeira de palhinha. Alguns detalhes não são exatamente como no livro, o que é compreensível (no livro Bond é levado para um bairro e a tortura se passa em uma abandonada casa de campo). Aliás, no filme, Bond é torturado com uma grossa corda de marinheiro; no livro Le Chiffre utiliza um chicotinho comumente usado por cavaleiros em competição de equitação. Bond estava tão abalado que, ao final, Le Chiffre apenas balançava o chicotinho ou o batia no chão fazendo com que Bond sentisse como se estivesse apanhando.
  •  No filme, Le Chiffre é friamente assassinado por Mr. White com um certeiro tiro na testa. No livro, o mesmo acontece, sendo que o agente aparece na trama apenas para este fim; quando este olha para Bond lamenta não ter recebido ordens para matá-lo, mas faz uma “tatuagem” nas costas da mão direita com um fino estilete: um M invertido, a inicial russa de SMERSH.
  • No filme, Vesper se deixa afogar dentro do elevador. No livro, ela e Bond passam alguns dias em um pequeno hotel no interior da França. No entanto, a pressão de ser uma agente dupla (ela era membro do MWD, à serviço dos russos) a faz se matar (ela se envenena). Bond encontra seu corpo deitado na cama. Ela havia deixado uma carta onde explica tudo o que ocorrera. Fleming assim descreve a cena: “Bond jogou a carta no chão. Automaticamente esfregou os dedos uns contra os outros. De repente bateu nas têmporas com os pulsos e levantou-se. Olhou o mar calmo pela janela, depois praguejou em voz alta, um enorme palavrão. Estava com os olhos molhados e enxugou-os”. Ele se arruma e vai até um telefone público onde se comunica com a agência por um número que era a fachada do MI6 (Universal Export). O agente que o atende era chamado de “o elo” que transferia estas ligações para a chefia da agência. O livro termina com a seguinte frase de Bond: “Quem está falando é o 007. Estou num telefone público. É uma emergência. Você está me ouvindo?. . . Transmita isto imediatamente: 3030 era um agente duplo a serviço dos ver­melhos… Sim, que diabo!, eu disse era. Aquela vaca morreu”. No filme, Daniel Craig repete o final desta frase para M, mas tanto a dublagem como a legenda em português não foram fiéis ao original.

Neste romance, Fleming nos apresenta um agente frio, durão e passional; seja para matar seja para amar. Alguns criticaram o fato de em Quantum of Solace Bond estar sofrendo pela morte de Vesper. Mas é isto mesmo que Fleming narra não só neste, mas em toda a saga de 007.

Cassino Royale (Casino Royale, Inglaterra, 1953)
Autor: Ian Fleming
Editora (no Brasil): Record
208 páginas 

Por Ivan Júnior, cinéfilo, leitor e escritor do romance policial de 2011 intitulado “Agente 74 Pede Socorro”

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