Crítica | Harry Potter e as Relíquias da Morte, de J.K. Rowling

estrelas 4

Obs.: Leia também a visão de Cida Azevedo sobre o livro aqui. E leia a crítica do todos os livros da saga – e além – bem aqui.

Para ser completamente transparente, devo esclarecer que nunca fui o maior dos fãs do bruxo favorito de todos, especialmente dos filmes mas, como lá em 1997, ano de lançamento do primeiro capítulo da saga, li despretensiosamente o livro e apreciei o resultado, decidi que iria até o fim e isso muito antes do bruxinho tornar-se o fenômeno cultural que hoje conhecemos. Devo dizer que me diverti com o primeiro e terceiro livros mas não gostei tanto do segundo, do quarto, do quinto e do sexto.

harry_potter_e_as_relíquias_da_morte_capa_plano_criticoAliás, o sexto é um tomo gigantesco em que absolutamente nada acontece e, quando acontece (nas últimas 50 páginas), tudo é rápido demais e mal acabado. Devo dizer que J.K. Rowling suscita em mim dois pensamentos diametralmente opostos: admiro-a por ter quase que sozinha instigado os jovens a ler novamente. Por outro lado, tenho receio que ela – e todos os vários escritores que se seguiram a ela, basicamente repetindo Harry Potter sob vários disfarces, tenham acostumado os jovens a esse tipo de literatura mais, digamos, simples, voltada unicamente à ação e com as miras apontadas para uma adaptação cinematográfica.

Mas Rowling, como disse, tem seu mérito e o mundo de Harry Potter é, de fato, muito bem pensado e estruturado, ainda que a narrativa coesa dos primeiros livros tenha se perdido completamente nos livros seguintes, como se a qualidade fosse inversamente proporcional à quantidade de páginas. Claro, falo como alguém que já leu o livro como um “ancião”, ou seja, já era adulto quando a harrypottermania assolou o mundo, o que claramente me diferencia (positiva ou negativamente, podem escolher) de alguém que cresceu devorando as aventuras de Harry, Ron e Hermione contra Voldemort.

Com toda essa minha má vontade, apesar de ter comprado um exemplar do sétimo livro quando de seu lançamento em 2007, apenas o li no final de 2010, logo antes do lançamento da primeira parte de sua adaptação cinematográfica. E devo confessar que tive uma grata surpresa.

Talvez voltando à forma, mas creio que mais porque precisava amarrar as várias pontas soltas, Rowling escreveu um livro longo, porém, pontilhado de momentos relevantes, que não deixa a ação concentrada apenas nos últimos capítulos. Há mais ritmo e cadência na história.

Se você não leu os livros ou viu os filmes anteriores, sugiro que pare por aqui a leitura e pule para o parágrafo no final pois haverá alguns SPOILERS inevitáveis sobre o que aconteceu até aqui, mas nada sobre o sétimo livro, pode ficar tranquilo.

A trama começa com Harry e seus amigos de luto pela morte de Dumbledore e temendo a inevitável ascensão de Voldemort no mundo mágico. Harry está prestes a completar 17 anos, quando a magia protetora de sua mãe expira, deixando-o vulnerável ao mal. Assim, a Ordem da Fênix não perde tempo e põe em funcionamento um plano mirabolante para retirar Harry da casa de seus tios trouxas e levá-lo a um lugar seguro. Com isso, o romance já começa com uma ótima pancadaria aérea. Em seguida, Harry resolve exilar-se do convívio de seus pares e, junto com Ron e Hermione, desaparece pelo mundo para tentar achar as demais relíquias da morte e, com isso, tentar destruir Você-Sabe-Quem. Acontece, claro, que os três não fazem ideia por onde começar e passam por maus bocados, com diversas aventuras até o gigantesco e épico final cujos detalhes não comentarei, bastando dizer que é um digno encerramento, ainda que não particularmente original, para o conflito entre as forças do bem e do mal.

Em As Relíquias da Morte, J.K. Rowling escreveu a história que enrolou para contar nos livros anteriores e, apesar de longo (umas 800 páginas no original em inglês com capa dura e pouco menos de 600 na versão brasileira), o livro é fácil de ler e transcorre meio que naturalmente, com apenas um problema maior, mas que já é comum na série e completamente esperado. Rowling não resiste à tentação e, de novo, insere elementos novos no mundo de Harry Potter, elementos esses que, ainda que possam ser interessantes, não acrescentam efetivamente muito à trama. No caso deste livro, temos o emprego de numerosas páginas dedicada à destrinchar um passado desconhecido na vida de Dumbledore. Não consegui deixar de lado a sensação de que Rowling estava só acrescentando páginas vazias ao livro. Para os fãs incondicionais da série tenho certeza que isso foi bem vindo, mas, para alguém que consegue ver de fora, os trechos sobre a vida pregressa sobre o finado – e misterioso – mestre de Harry Potter são indesejáveis freios à fluidez do livro. Além disso, há as tais relíquias da morte, MacGuffins que, no frigir dos ovos, apesar de serem efetivamente mais interessantes que a vida de Dumbledore, não impulsionam de verdade a narrativa.

No lado bom, temos o amadurecimento dos personagens com o longo exílio que a autora muito bem explora. O trio formado por Harry, Ron e Hermione sai fortalecido dessa história, mas, mesmo assim, Rowling mostra como a tentativa de dominação total de Voldemort afeta a comunidade ao redor dos três. E a autora não suaviza ou deixa barato: ela mata personagens sem dó, mas de maneira muito mais eficiente que com as mortes ocorridas nos livros anteriores. Sobre as mortes, o livro pode até fazer aqueles de coração mais mole deixarem uma lágrima furtiva cair. E só uma boa história consegue isso, algo que Rowling, finalmente, depois de seu ótimo terceiro livro, entrega para os ávidos leitores.

No final das contas, Rowling nos oferece o que talvez seja o terceiro melhor livro da série (atrás somente do primeiro que deslumbra por sua novidade e frescor e do terceiro, que engata uma bem-vinda pegada sombria), com um encerramento completo, digno do legado que ela deixou. Gostaria muito de ver a autora deixar Harry descansando por muito anos e partir para criar outras obras, completamente sem relação com o mundo do famoso bruxo, mas sabemos que Rowling provavelmente nunca se desapegará do mundo que criou.

Harry Potter e as Relíquias da Morte (Harry Potter and the Death Hallows, Reino Unido – 2007)
Autora: J.K. Rowling
Editora original: Bloomsbury
Data original de lançamento: 21 de julho de 2007
Editora no Brasil: Editora Rocco
Páginas: 592

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.