Crítica | Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

estrelas 4

Jogos Vorazes é o primeiro livro de uma trilogia escrita pela autora americana Suzanne Collins, que continua com Em Chamas (Catching Fire) e termina com A Esperança (Mockingjay), todos já publicados no Brasil. O bem-sucedido filme baseado no primeiro livro foi lançado em 2012 e, no próximo final de semana, a segunda parte estreará com a terceira – dividida em duas partes – prometida para o ano que vem e 2015.

Curioso para saber se a trilogia literária seria interessante, parti para ler o material criado por Collins. E devo dizer que não me arrependi. A trilogia é muito bem pensada e escrita de maneira prática, sem muitas invencionices. O que mais me surpreendeu, no entanto, foi o crescendo da série, que começa com uma premissa já bastante surrada e acaba fortemente politizado, distante até do começo mais “cinematográfico”, algo que, na verdade, desagradou muitos dos jovens que esperavam um final (do terceiro livro) mais, digamos, hollywoodiano.

Mas meus comentários, hoje, ficarão restritos ao primeiro livro, ainda que o conhecimento de toda a trilogia tenha feito eu apreciar mais a primeira obra.

A base da trama é um futuro distópico em que os Estados Unidos se esfacelaram e, no lugar dele, surgiu um país chamado Panem (quem adivinhar o porquê desse nome sem ter lido os livros ganha um doce), dividido em 12 Distritos mais a Capital. Há 74 anos, uma rebelião frustrada, que levou à total obliteração do 13º distrito, fez com que a Capital criasse os Jogos Vorazes que, nada mais são do que uma versão moderna dos jogos gladiatoriais romanos. A diferença é que cada Distrito tem que oferecer, anualmente, dois tributos: um menino e uma menina entre 12 e 18 anos. Os 24 participantes, então, são levados para uma arena gigantesca e têm que lutar até que apenas um esteja vivo.

Essa trama soou como algo que vocês conhecem? Bom, espero que sim. Suzanne Collins muito claramente bebeu de obras seminais como 1984, de George Orwell, O Jogo Mais Perigoso, de Richard Connell e O Senhor das Moscas, de William Golding. Para aqueles que nunca ouviram falar nesses livros, façam um favor a vocês mesmos e procurem-nos para ler. Mas Suzanne Collins, apesar de negar, também certamente bebeu de obras mais recentes como a japonesa Battle Royale, de Koushun Takami  e a americana The Running Man, de Stephen King, ambas adaptadas para o cinema.

De toda forma, a familiaridade da trama não deve afastá-lo da leitura de Jogos Vorazes. Primeiro porque Suzanne Collins tem um plano maior. O livro inicial trata da competição que descrevi, mas as consequências vão muito além, abrindo enormes horizontes que são tratados adequadamente nos livros posteriores. Segundo porque, muito além da violência que parece gratuita (não é), a autora quer nos contar, lá no fundo, sobre os malefícios da guerra e, tenho para mim, especialmente sobre a influência sobre as pessoas da manipulação dos meios de comunicação em geral. Os Jogos Vorazes nada mais são do que ferramentas de controle de um estado fascista, que explora seus 12 Distritos para que os habitantes da Capital vivam no luxo. No entanto, os jogos não seriam nada sem o poder da televisão filmando cada momento dos jogadores antes, durante e depois da competição. O objetivo é mostrar que a Capital controla com mão de ferro o país e que qualquer rebelião será massacrada. Mais para frente, nos livros seguintes, a temática do poder da manipulação da comunicação torna-se ainda mais forte e presente, ao ponto de determinadas cenas serem até ridículas e inverossímeis em um primeiro momento, mas que, em um segundo, considerando que vivemos em um mundo que dá audiência para coisas como Big Brother e programas semelhantes, são perfeitamente razoáveis.

Eu contei sobre a ideia geral do livro, mas tenho que comentar sobre um aspecto específico: Katniss Everdeen, a adolescente de 16 anos que, em circunstâncias muitos especiais e comoventes, acaba competindo nos Jogos Vorazes. A menina é uma caçadora que foi ensinada por seu pai falecido a se virar sozinha desde cedo. Com a mãe em estado quase catatônico (por causa da morte do marido há alguns anos), coube à ela largar de lado os poucos anos em que ela poderia aproveitar a infância e, com sua habilidade em flechar animais (algo ilegal nesse mundo) e de negociá-los no mercado negro, alimentar a família, especialmente sua adorada irmã Primrose (Prim, para os íntimos). Katniss é um personagem que só na superfície parece simples, raso. Fica claro logo no início que ela é especial, com habilidades que poucos têm. Sabemos instintivamente (até porque o livro é narrado em primeira pessoa por Katniss) como deve acabar a história. Mas, debaixo da camada de clichês, existe um personagem difícil, cheio de conflitos e, em última análise, até mesmo difícil de se simpatizar.

Isso sem falar nos conflitos de Katniss com diversos outros personagens, especialmente Gale (o parceiro de Katniss na caça), Peeta (o tributo masculino do Distrito 12) e Haymitch Abernathy, campeão do 50º Jogos Vorazes e mentor por obrigação de Katniss e Peeta. Diria que, para um livro vendido como sendo para o público adolescente, ele é bem mais complexo – e mais violento – que muita coisa disponível por aí. É só saber olhar por debaixo do verniz cinematográfico que a autora espertamente soube espalhar sobre a trama.

Aliás, é o verniz cinematográfico que emperra o livro em alguns momentos. Para começar, Collins faz de tudo para justificar as mortes infligidas por Katniss durante os jogos, tudo para mostrar que ela não é uma assassina fria. As saídas que Collins arranja são engenhosas e não prejudicam tanto seu trabalho, mas fiquei pensando se, em situação semelhante, alguém como Katniss, acostumada a caçar todos os dias para sobreviver, deixaria de matar alguém com o mesmo propósito de sobreviver. O outro aspecto “cinematográfico” que me pegou de surpresa e acabou me deixando um pouco desapontado foi o final “surpresa”, com a apresentação do último desafio na arena. Até aquele momento, o aspecto de ficção científica era muito discreto no livro, mas a porta é escancarada desnecessariamente no final, deixando um gosto ruim na boca.

De toda forma, se você gosta do gênero e quer um passatempo rápido, mas muito interessante, escrito de maneira competente, então talvez Jogos Vorazes seja uma boa opção. O único problema que você terá será conseguir largar o livro antes de acabar a última página do terceiro volume.

Jogos Vorazes (The Hunger Games, EUA, 2008)
Autora: Suzanne Collins
Editora (nos EUA): Scholastic Press
Editora (no Brasil): Rocco
Páginas: 400

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.