Crítica | Leite Derramado, de Chico Buarque

estrelas 4

Cinco anos depois do badalado Budapeste (que acabou sendo adaptado para o cinema), Chico Buarque voltou à literatura trazendo-nos o histórico e reflexivo Leite Derramado, um romance que fala de um tempo em que ele não viveu, assim como nunca tinha viajado para a capital da Hungria antes do seu romance de 2003.

Leite Derramado conta uma história ambientada principalmente nos anos 1920, mas que volta tanto para os tempos do 2º e 1º Império ou Brasil Colônia, quanto avança para o fim da Primeira República, para o governo Vargas, para a Ditadura Militar e os dias atuais. O velho e amargurado narrador teve sua origem na personagem de Velho Chico, uma antiga e pouco lembrada canção do próprio Buarque.

Eulálio é um centenário. Toda a sua saga familiar é narrada de sua cama num hospital. Ele faz questão lembrar que veio de um passado familiar garboso, educação conservadora e religiosa, escravos e boas-relações vindas de seu pai Senador (“brincava nos jardins do Catete com os filhos do Presidente Artur Bernardes“). No presente século XXI, Eulálio se vê entre pessoas que não ouvem direito o que ele fala e o maltratam, segundo sua própria interpretação.

Acompanhar a vida deste velho enfermo e abandonado é fazer uma viagem por uma memória parcialmente falha e muitas vezes caótica. Ele confunde as enfermeiras com alguém da família, delira acreditando que irá se casar com uma delas ou que está sendo detalhadamente anotado, por isso fala devagar, afim de que “a moça” tome nota de tudo o que ele fala e desse modo possa publicar suas memórias. Às vezes ele fala sozinho, mas percebe tudo o que acontece em torno. A televisão o incomoda. O mau humor dos enfermeiros e a comida do hospital também. Eulálio é um velho fora do seu tempo.

A primeira parte do livro é bárbara. Temos uma menor cadeia de eventos confusos, uma maior interação do velho narrador com as pessoas do hospital, o que coloca frente a frente o seu passado, a sua visão desse passado e o olhar arguto para o presente. Ao passo que o livro avança e a presença de Matilde, a mulher de seus sonhos, se faz perceber em cada página, temos uma queda na qualidade geral da obra.

É possível sim interpretar a fase final do livro como um agravamento da doença de Eulálio, culminando em maiores delírios e troca de tempos passados, pessoas e situações que já haviam aparecido em outro contexto um outro ponto da história. Esse é um dos pontos positivos da fase final. É evidente que ele está cada vez mais perto da morte, ou que pelo menos sua senilidade tem se tornado plena. Por outro lado, o maior mergulho nesse mundo próprio de Eulálio apresentou uma quebra de concepção (paciente delirando – mundo real) que não precisaria existir.

Essa quebra, porém, não estraga o livro. Misturando bom humor, História do Brasil e elementos próprios da obra de seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, Chico realiza uma obra de leitura deliciosa, de trama forte e tipicamente brasileiro-elitista do início do século XX.

Uma angustiante reflexão sobre a velhice está nas entrelinhas do livro, o que fará os leitores pensar e temer o futuro, quando não irão mais ter certeza de quais histórias aconteceram primeiro, para quem foram contadas, onde se deram e quando. Leite Derramado é uma espécie de tratado sobre uma longa vida. Uma  realidade onde não há mais sentido chorar por alguma coisa deixada para trás.

Leite Derramado – Brasil, 2009
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 200

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.