Crítica | Os Diamantes São Eternos, de Ian Fleming

Os Diamantes são Eternos, de 1956, é o quarto livro de James Bond escrito por Ian Fleming.

O contrabando de diamantes e suas implicações no submundo do crime são as motivações desta aventura escrita por Fleming. Os diamantes eram contrabandeados na África, lapidados na Europa e gastos na América. James Bond desvenda uma complicada trama internacional cujos agentes partiam do lema: “Tudo passa, só os diamantes são eternos”. A África misteriosa, as emoções de uma corrida em Saratoga e uma trepidante visita a Los Angeles fazem parte do sensacional roteiro que o leitor percorrerá ao lado de Bond, enquanto o agente secreto tenta desbaratar uma formidável gang de criminosos apátridas que agiam em todo o mundo.

Aqui não existe a figura ímpar do vilão. Se os leitores já estavam habituados com a figura superior de tipos como Le Chiffre, Mr. Big ou Hugo Drax, nesta aventura Fleming coloca Bond diante de uma quadrilha muito bem orquestrada. O tradicional gangster americano aliado à sombria figura da organização SMERSH colocam 007 em rota de colisão com tipos que o agente ainda não conhecia. Em certo momento do livro, Leiter alerta Bond sobre o perigo de se combater um gângster.

Depois que M designa Bond para investigar o “vazamento” de diamantes das reservas legais britânicas na África, este tem um interessante diálogo com Bill Turner (sabiamente este personagem está presente na fase de Craig) o que dá ao leitor um vislumbre do universo em que Bond vive e suas perigosas conseqüências:

— Então você topou a parada. – Bond voltou-se. 

— Topei sim — disse ele e acendeu um cigarro. Seus olhos miravam o Chefe do Pessoal através da fumaça. — Mas me diga só uma coisa, Bill. Por que o velho está tão cauteloso a respeito desse negócio? Chegou até a ver os resultados de meu último exame médico. Por que está tão preocupado? Afinal, não se trata de nenhuma incumbência por trás da Cortina de Ferro. A América é um país civilizado. Mais ou menos. O que o atormenta? Era dever do Chefe do Pessoal saber o que se passava na cabeça de M. Seu cigarro se apagara, e ele acendeu outro, atirando depois o fósforo gasto por cima do ombro esquerdo. Virou-se para ver se tinha caído na cesta de papéis usados. Tinha. Sorriu para Bond.

— Prática constante — disse ele. — Não há muitas coisas que preocupem M, James. E você sabe disso tão bem quanto qualquer outra pessoa do Serviço. A SMERSH, naturalmente, é uma delas. Os alemães violadores de códigos. A pandilha chinesa do tráfico de ópio… ou pelo menos sua influência no mundo inteiro. O prestígio da Máfia. E tem um bruto respeito por elas, as quadrilhas americanas. As grandes. Isso é tudo. São as únicas pessoas que realmente apoquentam o velho. E parece quase certo que essa estória dos diamantes vai levar você à luta com as quadrilhas. Elas são a última categoria de gente com que ele nos quer ver envolvidos. Já tem muito que fazer sem elas. Foi isso que o tornou cauteloso. 

Percebe-se que Fleming tinha em mente uma mistura entre o real e o imaginário. Da mesma forma que criou um personagem como Goldfinger que planejava ter o maior fundo de ouro do mundo ele também era capaz de colocar Bond diante de criminosos “normais” com interesses mais realistas. Nesta aventura, Bond enfrenta Jack Spang, o chefe de uma das quadrilhas mais organizadas dos Estados Unidos; mas outros nomes serão citados no livro tais como Tiffany Case, Peter Franks, Mr. Saye, Michael (Shady) Tree entre outros. A quadrilha é conhecida como a Turma de Spang. O grupo tem interesse em outras atividades criminosas, como narcóticos e prostituição organizada. Tais atividades são dirigidas de Nova York por Michael (Shady) Tree. A quadrilha tem agentes em Miami, Detroit e Chicago.

No livro, o FBI qualifica a Turma de Spang entre as mais poderosas quadrilhas dos Estados Unidos, acobertada por alguns setores das administrações estaduais e federal e pela polícia. A fachada para os negócios com diamantes é a empresa “The House of Diamonds, Inc”. Disputa o primeiro lugar com o grupo de Cleveland e dos “Vermelhos” de Detroit. Em uma rápida pesquisa percebe-se que Fleming, como era seu costume, sabia muito bem misturar fatos reais com ficção (algo que aconteceu com a organização SMERSH, que até a publicação do livro From Rússia White Love era tido como criação de Fleming. No entanto, o próprio autor disse que todas as informações bem como o endereço que ele fornece da agência russa em Moscou eram reais; ele tivera informações desta organização quando estivera na URSS como correspondente da agência Reuters, cobrindo o julgamento de dois jornalistas britânicos acusados de espionagem. Percebe-se isto quando lemos o diálogo entre Bond e Felix Leiter: “Entregar o caso ao FBI? Bond sabia que M falava sério. Mas também sabia quanto seria penoso para M ter de pedir a Edgar Hoover que ficasse à frente de um caso do Serviço Secreto e tirar do fogo as castanhas da Grã-Bretanha”.

Com relação à Felix Leiter o livro narra: “… braço direito amputado, a perna esquerda também, e as cicatrizes imperceptíveis, abaixo da sobrancelha e acima do olho direito, indicavam ter havido algum enxerto no local. Mas, a não ser isso, Leiter parecia em boa forma. Os olhos cinzentos continuavam impávidos, o topete cor-de-palha não tinha nem um fio branco e, no rosto, não havia nem sombra da amargura dos inválidos.”

Mas duas figuras merecem destaque neste livro, principalmente quando comparamos a obra literária com o filme: os assassinos Mr. Wint e Mr. Kidd. Se no filme estes dois personagens não foram levados a sério (como todo o filme, infelizmente) no livro a coisa é bem diferente. Veja o que Leiter diz a Bond sobre os dois:

“— Wint — disse Leiter categórico. — O outro tipo era Kidd. Sempre agem juntos. Estão entre os melhores capangas dos Spangs. Wint é um tarado, um sádico perfeito. Tem prazer na coisa. Vive sempre chupando a verruga do polegar. “Goela” é o apelido dele, mas só o chamam assim pelas costas, é claro. Todos eles têm esses apelidos infectos. Wint não tolera viajar. Enjoa de carro e de trem, e supõe que todos os aviões são arapucas mortais. Percebe gratificação especial quando faz um serviço que implica em viajar. Mas é muito atrevido quando está com os pés no chão. Kidd é um leão de chácara. “Boneca” é o nome que lhe dão os parceiros. Provavelmente dorme com Wint. Aliás, alguns desses pederastas são os piores assassinos. Kidd tem cabelos brancos, embora não tenha mais de trinta anos. Esse é um dos motivos por que eles gostam de usar capuz. Mas um dia esse Wint vai se arrepender de não ter arrancado a verruga. Pensei nele assim que você falou nela. Acho que vou dar o serviço aos tiras. Não mencionarei você, naturalmente. Mas contarei a tratantada de Shy Smile. O resto é com eles. Wint e o parceiro devem estar pegando um trem em Albany a esta hora, mas não faz mal. Vou fazer a cama deles. — Leiter voltou-se, ao chegar à porta.”

Os dois, quando Bond é capturado, o espancam com muita violência inclusive chutando-o sem dó valendo-se de estarem usando as típicas botas de cowboy americano.

É uma aventura emocionante que prende o leitor do inicio ao fim. Com relação ao filme, particularmente, lamento não as mudanças no roteiro, mas sim o início do período onde os produtores levaram a série para o caminho da comédia.

Por Ivan Júnior, cinéfilo, leitor e escritor do romance policial de 2011 intitulado “Agente 74 Pede Socorro”

VOZ DO LEITOR. . . .O "Voz do Leitor" é um espaço de socialização do Plano Crítico com seus amigos e parceiros de outros portais de cinema e artes em geral, ou mesmo de amigos pessoais dos editores do site, onde, através de convites para especiais ou outras ocasiões, ajudam a construir e ampliar o nosso conteúdo e propor novas visões. Bem vindos ao Voz do Leitor!