Crítica | Livros Sobre Teoria de Cinema

Cinéfilos são seres curiosos. Ávidos por conhecer melhor a arte que tanto admiram, não negam  ou rejeitam um bom livro de teoria de cinema. Abaixo, faço alguns comentários sobre livros que me marcaram, de alguma forma. Espero que você, caro leitor, compartilhe também de algumas alegrias literárias comigo…

O MUNDO COMO CHANCHADA

DIAS, Rosângela de Oliveira. São Paulo: Editora Relume Dumará, 1993

As Chanchadas da década de 1950, tornaram-se as grandes representantes de um produto brasileiro. O “gênero” é uma mistura do hollywoodiano com todas as tendências possíveis, mas o resultado desses filmes carnavalescos sinalizam de fato um produto nosso. Nesse livro esclarecedor, temos uma análise social e cultural das Chanchadas. O imaginário popular é visitado pela autora, e o Brasil entra na análise como um país que passava por tremendas mudanças políticas e financeiras, influenciando esses filmes, que mostravam o outro lado do desenvolvimento.

A década de ouro das chanchadas compreende os governos de Vargas (1951 – 1954) e JK (1956 – 1960), e a partir daí, podemos justificar todas as questões pertencentes a essas produções nacionais. O livro não pretende salvar as Chanchadas, nem reificá-las. A proposta da autora é trazer ao leitor informações e dados históricos, estatísticos e ideológicos que permitam-no ver essas obras com um outro olhar. Leitura recomendada!
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A TELA GLOBAL: MÍDIAS CULTURAIS E CINEMA NA ERA HIPERMODERNA

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. São Paulo: Sulina, 2007

O melhor livro sobre o “comportamento do cinema contemporâneo” que eu já li. Os autores discorrem sobre o impacto e as diversas nuances e particularidades que o cinema tem passado nos últimos vinte anos, tanto em sua técnica quanto em seu formato – especialmente o de reprodução. E aí chegamos ao estudo das várias telas, a coluna desta obra. Entendemos que a proliferação de mídias reprodutoras de imagem-movimento, bem como a facilidade de filmar a publicar em rede, desestruturou e ao mesmo tempo reestruturou o cinema. Junto a outras tecnologias e seu impacto ideológico sobre diversos povos, o cinema contemporâneo apresenta-se como um guia social muito mais do que já fora. O documentário tem ganhado espaço. A experimentação não é mais tão mal vista. Um novo ar se ensaia para o cinema. Lipovetsky e Serroy discorrem sobre essas mudanças na Sétima Arte, analisando o impacto nos cinéfilos e como a nova sociedade midiática se ergue. Imperdível. Obrigatório. Obra-prima!
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CINEMA BRASILEIRO HOJE

BUTCHER, Pedro. São Paulo: Publifolha, 2005

Esse livro nos dá uma excelente visão do cinema brasileiro que se desenvolveu após os anos 1980. O foco do autor é o Cinema de Retomada – inclusive com uma breve discussão teórica a respeito dessa nomenclatura – e uma pontualíssima abordagem de boa parte dos filmes produzidos após os anos 1990. Com uma narrativa didática e muito informativa, somos apresentados aos motivos históricos e mercadológicos que impulsionaram o nosso cinema para o estrondoso desempenho que vem tendo nos últimos anos. Para quem quer conhecer ou gosta do cinema nacional, eis uma ótima pedida.
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O SÉCULO DO CINEMA

ROCHA, Glauber. São Paulo: Cosac Naify, 2006

Em relação ao conteúdo político, eu gosto mais do Glauber Rocha crítico do que cineasta. Talvez essa frase pareça polêmica demais, mas ao ler O Século do Cinema, muitas pessoas irão entender. É incrível a erudição e o modo corrido como Rocha escreve suas críticas. Esse livro aborda a história do cinema estrangeiro de Griffith a Pasolini (o cinema brasileiro mereceu um outro volume de críticas chamado Revisão Crítica do Cinema Brasileiro), e não se prende nem à forma nem ao conteúdo. E aí vemos que Glauber Rocha de fato entendia o que era o cinema. Talvez isso seja menos visível em seus filmes, cuja maioria padece de alguma coisa, sempre uma falta. E que fique bem claro: não sou inimigo cinematográfico do diretor. Ao contrário, admiro muito de sua obra, e gosto mais de Terra em Transe que Deus e o Diabo. Mas nesse livro, estamos diante de um crítico que sabe o que é estar atrás da câmera. E essa visão privilegiada é simplesmente deliciosa de ler. Além disso, temos algumas publicações que são verdadeiros relatos históricos, como o encontro do diretor com os mestres Luís Buñuel, Fritz Lang, Roberto Rossellini e Jean Renoir. E além disso, relatos pessoais não tanto cinematográficos (porém interessantes) fecham o conteúdo do livro. Certamente um dos melhores e mais fortes livros de crítica cinematográfica brasileira – e embora eu não partilhe de muitas opiniões do diretor, sua firme argumentação faz o leitor oponente ao menos pensar no que está proposto. Na minha opinião, leitura obrigatória.
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O PRIMEIRO CINEMA – Espetáculo, Narração, Domesticação

COSTA, Flávia Cesarino. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005

Dentre os períodos do cinema, o início é o que mais me fascina. Sempre achei curioso a genialidade de realizadores como Méliès, Porter, Gance, Dullac. Truques, estaticidade da câmera, mutações narrativas. A própria criação, invenção de uma nova arte é algo realmente instigante. E Flávia Cesarino Costa, com muita competência, faz um apanhado extremamente minucioso desse período. Não limitando-se apenas à análise de filmes da época, a obra nos apresenta uma história pormenorizada da estruturação ideológica do cinema, das Feiras Universais para os galpões, depois para os Nickelodeons e então para os Palácios de Filmes. Além disso, a escritora nos disponibiliza diversas visões clássicas da crítica cinematográfica em relação a esse período. Com uma erudição muito grande e uma lista preciosa de filmes, bem como indicações e informações preciosas, O Primeiro Cinema, além de nos mostrar a adaptação de uma nova arte ao mundo que a cerca, evoca uma pergunta que pouca gente sabe – alguém saberá, ao certo? – responder: o que é a sétima arte?
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COMO USAR O CINEMA NA SALA DE AULA

NAPOLITANO, Marcos. São Paulo: Contexto, 2008

Escrito pelo historiador historiador Marcos Napolitano, esse é um dos livros mais interessantes para professores cinéfilos. Confesso que após sua leitura, me arrependo de tê-lo subestimado. O livro não tem pretensões épicas, como trabalhar detalhadamente a história do cinema; ou artísticas, como mapear todas as escolas cinematográficas e os principais autores do cinema; mas consegue, de modo simples e sem complicação narrativa, dar ao professor uma ótima direção de como ele deve usar filmes e de como empreender trabalhos com os alunos através desse recurso.

O livro faz uma abordagem didática, do Ensino Infantil ao Ensino Médio, e toca em pontos específicos de como os alunos de cada faixa etária reagem a determinados tipos de filme. Além disso, sugestões de atividades, sinopses comentadas de centenas de filmes para todas as disciplinas (inclusive Educação Física e Informática) e muitas atividades para serem aplicadas no esquema de valorização da interdisciplinaridade. Mesmo para o professor mais treinado no campo cinematográfico, ou mesmo para um professor que já tenha um conhecimento crítico de cinema, a leitura do livro é muitíssimo importante, pois ajuda a dissecar com mais propriedade os elementos fílmicos para serem usados em sala de aula.

Além das sugestões de atividades, o livro traz alguns anexos com reportagens especiais, listas e questões para o professor preparar a aula e questões simples para a constatação da cultura cinematográfica dos alunos. Apesar de não citar alguns filmes que eu particularmente acho essenciais para o trabalho em sala de aula, Marcos Napolitano dá conta da tarefa a que se dedicou, e faz isso de modo simples e muito rico (para aqueles que entram em contato com a história do cinema pela primeira vez). Vale a pena ler.
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A LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA

MARTIN, Marcel. São Paulo: Editora Brsiliense, 2007

A Linguagem Cinematográfica foi o primeiro livro sobre cinema que eu li, e devo muita coisa a ele. É raro encontrar uma obra que se destina a avaliar o cinema como elemento que fala por si, com seus símbolos, significados, modos e motivos de avaliação de um filme, elementos próprios, inerentes e abarcados pelo cinema. Neste livro, o leitor percorrerá a Sétima Arte dos irmãos Lumiére até meados dos anos 1950 – o que é uma pena, porque não temos analisadas as conquistas e perdas do cinema a partir de então. A edição que eu possuo tem um Prefácio escrito pelo autor em 1985, mas o livro não recebeu nenhuma atualização. Entretanto, a leitura desse clássico estudo de linguagem nos permite mudar o olhar para o cinema. Técnica e conteúdo são abordados e somos presenteados com capítulos quase didáticos, com uma atenção especial à montagem e todos os seus elementos próximos. Leitura obrigatória para curiosos e cinéfilos experientes. A Linguagem Cinematográfica é simplesmente delicioso.
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O NEO-REALISMO CINEMATOGRÁFICO ITALIANO

FABRIS, Mariarosaria. São Paulo: Edusp, 1996

Para um movimento tão intimamente ligado à história da Itália, um livro que tratasse o Neorrealismo como um fator histórico não poderia ser mais pertinente. A professora Mariarosaria Fabris faz uma competente análise da história recente da Itália, seu envolvimento na Segunda Guerra Mundial e os fatores que permitiram o surgimento da corrente Neorrealista no país. Mas a autora não pula etapas. Somos apresentados aos “filmes do telefone branco”, aos dramas vazios do fascismo, e chegamos ao rompimento definitivo em 1945, com Roma, Cidade Aberta. A história dessa corrente cinematográfica é contada desde a sua gênese, com os primeiros filmes, os primeiros roteiristas e cineastas que se propuseram a olhar de um modo diferente a situação do país. De Visconti a De Sica, temos um apanhado cultural e histórico das realizações fílmicas italianas, e mesmo a geração seguinte é abordada em suas primeiras obras. Características do gênero também são apresentadas e trabalhadas com diversos exemplos, além das fotografias enriquecedoras. O que me incomodou um pouco foram as intermináveis notas de rodapé usadas pela autora, muitas vezes com informações e observações já trabalhadas de um outro modo no corpo do texto. Mesmo assim, o livro é um aprendizado único, e certamente quem o ler, jamais verá os filmes italianos de 1945 a 1953, do mesmo modo.
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CONVERSAS COM WOODY ALLEN

LAX, Eric. São Paulo: Cosac Naify, 2008

Biógrafo de Woody Allen, Eric Lax já escreveu valiosas obras a respeito da produção artística do diretor novaiorquino. Seu livro mais recente foi publicado no Brasil em 2008, e é o resultado de entrevistas cedidas por Allen ao jornalista desde 1971. O livro é dividido em oito partes: A Ideia; Escrever; Casting, Atores, Atuação; Filmagens, Sets, Locações; Direção; Montagem; Trilha Sonora; A Carreira.

Em cada uma dessas divisões, são abordados todos os longas-metragens feitos por Woody Allen durante sua carreira. Ao ler o livro (que já vai na 3ª Edição), entendemos os motivos pessoais e artísticos que motivaram o diretor a realizar determinado filme ou escrever determinado roteiro. Percebemos que antes de mais nada, Woody Allen é o seu maior crítico, um rígido observador de sua obra. Além das longas entrevistas, somos apresentados aos filmes de forma dinâmica e informações valiosíssimas nos são dadas através dos comentários do autor. Para quem não assistiu a todos os filmes do cineasta, há uma sinopse detalhada dos filmes trabalhados naquele ponto da entrevista, com relação dos atores principais e resumo crítico da trama. O livro ainda acompanha as concepções de Woody Allen sobre outros diretores e filmes, listas de filmes que o diretor fez a pedido de Lax, depoimentos sobre as relações de Allen com seus atores, fotógrafos e toda equipe, e abordagens sobre o caso Soon Yi, resultado da polêmica separação de Allen e Mia Farrow em 1992. Além de muito divertido e rico em informações, o livro vale o preço e a leitura. Indico efusivamente.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.