Crítica | Podemos Recordar Para Você, Por um Preço Razoável (O Vingador do Futuro), de Philip K. Dick

Depois do lançamento do primeiro O Vingador do Futuro (Total Recall) em 1990, estrelando Arnold Schwarzenegger, o até então razoavelmente desconhecido conto do brilhante autor americano de ficção científica Philip K. Dick (1928 – 1982) We Can Remember It for You Wholesale, ou, em português, Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável, teve seu nome trocado pelos editores para espelhar o título do filme. Um movimento que faz todo o sentido comercial, mas que, claro, fere de morte o direito moral básico do autor de não ter sua obra modificada à sua revelia.

Mas, reclamações à parte, o breve conto do ilustre autor, de apenas 26 páginas, é muito interessante. Publicado pela primeira vez em 1966 na The Magazine of Fantasy & Science Fiction, a história nos leva a um futuro não determinado e nos  apresenta imediatamente a Douglas Quail, um homem aparentemente normal, trabalhador, que deseja fortemente conhecer o planeta Marte, mas sabe que nunca terá as condições econômicas para tanto. Ele não tem ideia de onde vem essa vontade e sua esposa tenta sempre demonstrar que esse sonho é uma loucura. Quail, então, depara-se com um tentador anúncio da empresa Rekal, que promete memórias implantadas melhores que as experiências verdadeiras como o título deixa entrever.

Relutantemente, nosso herói acaba desembolsando o dinheiro para ter essa “memória extra-factual” devidamente implantada, mas com um bônus excitante de viajar para Marte como um espião. Acontece que, quase imediatamente, os problemas começam e os técnicos da Rekal percebem que Quail talvez seja mesmo um espião.

Não há viagem para Marte ou mesmo ação nesse conto. Todo o resto foi inserido pelos roteiristas do filme de 1990. O que Philip K. Dick escreveu, na verdade, é quase um embrião de ideia que acabou sendo desenvolvido posteriormente em um filme completo, com enredos que partem do conto, mas o expandem consideravelmente, alterando radicalmente o final.

No entanto, a história de Dick sobrevive independentemente do filme e não há como negar a criatividade do que o autor escreveu. O artifício da implantação de memórias abre inúmeras possibilidades, um verdadeiro campo fértil para discussões até mesmo de cunho filosófico. Afinal, nós somos definidos pelo que lembramos? E se um dia pudermos artificialmente alterar nossa memória, quem então passaremos a ser?

Philip K. Dick, porém, apenas faz as perguntas e as deixa no ar, sem respostas definitivas. É a natureza do que ele costuma escrever e um conto tão curto, de toda forma, não poderia abordar questões de tamanha complexidade de forma definitiva.

Se há um defeito na história é seu final “fácil demais”. Não se enganem: ao ler essa obra, não esperava ação frenética ou reviravoltas mirabolantes fora do conceito em si (ele é ou não é espião, afinal de contas?), mas o escritor reduz drasticamente o conflito de Quail e suaviza fortemente o fechamento da trama. Talvez tenha faltado um terceiro ato, um epílogo que seja, ainda que a revelação final seja engenhosa (não contarei nada em respeito àqueles que ainda não leram).

Em breves linhas, Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável é um ótimo trabalho de ficção científica que merece ser lido por todo o fã do gênero e por curiosos em geral. É uma leitura rápida e prazerosa que, porém, deixará o leitor mergulhado em conceitos complexos e discussões interessantíssimas que marcarão a história em sua mente como as memórias implantadas de Quail.

Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável (We Can Remember it for you Wholesale, EUA – 1966)
Autor: Philip K. Dick
Editora original: Houghton Mifflin Harcourt
Data original de publicação: abril de 1966
Páginas: 26

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.