Crítica | O Mestre e a Margarida

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estrelas 5

Dos romances russos do século XX, a obra-prima de Mikhail BulgákovO Mestre e a Margarida, é considerado um dos melhores romances do século. O livro narra a chegada e a breve permanência de Woland (o diabo) e seu séquito (Behemoth, um grande gato preto que adora vodka, xadrez e armas de fogo; Korôviev, um grande negociador com um pincenê rachado e roupas apertadas; Azazello, um ruivo com um canino à mostra e um olho vazado, e Hella, uma jovem totalmente nua, ruiva e com olhos ardentes e fosforescentes) à Moscou stalinista de 1929.

A partir da chegada dos demônios, tudo se torna um inferno. Coisas estranhas e aparentemente impossíveis começam acontecer por todos os lados da capital e cidades adjacentes. Tudo é reinventado nas linhas do livro. Paralela à história principal, vemos uma outra. A história de Pôncio Pilatos, ambientada na Jerusalém do ano 29 d.C., onde se recria toda a trajetória de Jesus, do julgamento perante o Sinédrio, até a sua crucificação. Na exposição de Bulgákov, porém, isto está longe de se alinhar à história bíblica (um dos motivos da polêmica em relação ao livro, inclusive, acusado por muitos religiosos de ser uma obra satanista). Esta fantástica série russa de 2005, dirigida e adaptada por Vladimir Bortko, captura muitíssimo bem a essência e a estrutura do livro.

A Primeira Parte do show (Episódio 1), trabalha os três primeiros capítulos do livro: Nunca Falem com EstranhosPôncio Pilatos e A Sétima Prova. O espectador é apresentado aos protagonistas (um crítico literário e um poeta, membros da MASSOLIT – Literatura de Massa) já a partir de um diálogo que nega as Sagradas Escrituras:

 _ Veja… o que está escrito nos Evangelhos nunca aconteceu. […] O que eu quero mostrar é que Jesus simplesmente nunca existiu nesse mundo. […] Não há uma única religião Oriental na qual, como norma, uma virgem imaculada não dê à luz a um deus. Assim, sem inventar nada de novo, os cristãos criaram Jesus […].

Tal qual na obra de Bulgákov, o diretor Vladimir Bortko deixou o ambiente herege bem fecundo para que o diabo se interessasse pelos desinteressantes literatos e pedisse para sentar-se junto a eles e partilhar da conversa, afirmando, ele próprio, que Jesus existiu sim e narrando detalhes vívidos da conversa entre o Procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, e o acusado Jeshua Ha-Notzri, no palácio de Herodes, o Grande, “na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan…”.

Para uma narrativa com tantos espaços cênicos, apenas uma alteração da realidade poderia trazer ao espectador a necessária força dramática de cada um deles, algo que Bortko resolveu com simplicidade e sem optar pelo caminho fácil da fusão em flashback: todos os acontecimentos reais em Moscou são fotografados em sépia; já os acontecimentos fantásticos — como o Baile do Reis, onde dançam convidados como Napoleão, Calígula e Leopoldo I, embalados por uma orquestra regida por Richard Strauss — são plasmados em vivo colorido, assim como a versão da história em Jerusalém. Entretanto, vale dizer que a fotografia das cenas na cidade de Cristo possui muito mais brilho e é composta por muitas cores quentes nos figurinos e nas incidências diretas de luz nas bordas dos planos. Para as mortes e as cenas de loucura, o diretor usou tons marrons e o vermelho, azul e preto para os quadros.

Embora o tema da série não agrade a todos os gostos, a adaptação de Bortko logra prender o espectador pela carga de absurdo que equilibra junto aos episódios ou cenas mais “sérias”. Há partes muito teóricas, especialmente as sequências que abordam a vida do Mestre, mas há momentos de pura ação, fantasia, humor negro e suspense, o que faz da minissérie um produto destinado a todos os gostos, equilibrando tendências e gêneros narrativos.

Com um tema central tão incomum, seria normal que as atuações se aproximassem do estilo da “escola do ator excêntrico”, mas, ao contrário, o trabalho sério e muito emotivo dos atores da série acrescenta outros significados ao caos que ronda Moscou e à mesquinhez e covardia que rondam Jerusalém. Destacam-se o séquito infernal, o casal protagonista, e a personagem de Pilatos e Jesus Cristo, este último, por saber compor o silêncio através de expressões faciais muito inquietantes.

A trilha sonora vai do clássico wagneriano ao místico das melodias produzidas em estúdio. Nas sequências muito dramáticas ou muito fantásticas, a música acompanha a imagem em crescendo, executando o papel de aprimoramento da atmosfera do episódio. Em outros momentos, a música é usada como canal de ligação entre cortes de cena e introdução a uma nova situação dramática. O uso do som direto não extrapola nenhuma convenção, mas não deixa a desejar.

A partir do sétimo episódio é praticamente impossível ao espectador tirar os olhos da tela. A excelente adaptação de Bortko alcança níveis artísticos surpreendentes em se tratando de um produto feito para a televisão. Duas referências cinematográficas para a minissérie, estão muito claras: Peter Greenaway, nos momentos antes de Margarida (ou Rainha Margot) entrar no apartamento nº50, quando ela mergulha no lago cheio de plêiades e nenúfares, sendo depois recepcionada por um fauno, ninfas e fadas; e Tim Burton, na gótica representação das ruínas, palco do Baile dos Reis. Desde o final do sexto episódio, uma série de acontecimentos macabros e fantásticos tomam o lugar da corriqueira realidade imóvel da cidade, e isso é transposto para a tela como um espetáculo expressionista de tirar o fôlego. Não há um momento na série que não seja bom. Os episódios menos movimentados são os de número quatro e cinco, mas por um claro motivo: o desenvolvimento de uma história que tomaria fôlego mais adiante.

Para uma série de televisão, O Mestre e a Margarida supera todas as expectativas de qualidade artística e liberdade de conteúdo. Primeiro, porque o diretor não negou o caráter fantasmagórico ou fantástico do livro, e optou pelo caminho das artes plásticas, fotográfica e musical, para guiar sua adaptação.

Quanto mais nos aproximamos do Epílogo, mais rigorosas e pomposas se tornam a composição das cenas, e quem ganha com isso é o espectador, que tem diante dos seus olhos um desfile primoroso de direção de arte e uma competente adaptação de um dos maiores livros da literatura russa contemporânea. Depois, porque o roteiro não se furta em ser chulo nas construções de frases coléricas, nem as personagens femininas dão muita atenção a roupas, o que enche de maior beleza as cenas. Assim como no livro, a nudez feminina é uma espécie de regra para as sequências fantásticas, e o clímax disso é o baile final, onde todas as mulheres estão nuas, e os homens, bem vestidos.

A minissérie de Vladimir Bortko é uma das adaptações literárias mais bem sucedidas da televisão. Sua sensibilidade em trabalhar com o macabro, o humor negro e as peripécias demoníacas de Woland e seu séquito, resultou em um produto completamente diferente daquilo que temos no Ocidente (algo levemente parecido é a série Twin Peaks, de David Lynch e Mark Frost). No Epílogo, a poesia impera no escrupuloso trabalho interno das cenas, a começar pela maior duração dos planos. Todas as pontas começam a se amarrar, e muitos encontros acontecem: Mateus Levi e o diabo; Jesus, Pilatos e o cão Banga; o Mestre, a Margarida e o poeta Ivan Bezdômni; e então, a paz ou o Paraíso, que tanto esperavam.

De uma inominável cena na Lua, até os delírios daqueles que saíram do hospício após a partida dos demônios de Moscou, o último episódio da série é um exemplo de coerência em realização televisiva, sendo todos os mistérios pontuados (não necessariamente respondidos, mas cheios de elementos que nos permitem dar múltiplas interpretações a eles). As perguntas da população são respondidas por um órgão do governo, que tenta dar explicações científicas aos atos sobrenaturais. Estas cenas, filmadas em 16mm, alternam-se com filmagens de julgamentos do período stalinista, e panorâmicas de Moscou no final do anos 1920 – realidade e ficção, história e construção crítica se encontram, tanto por parte da fonte literária, quanto do responsável pela atual adaptação . Ao fundo, podemos ouvir vozes gravadas em tapes radiofônicos, e o pronunciamento conclusivo é tanto uma crítica ao período da ditadura real-socialista, quanto uma ironia feita à mídia e à ciência, com suas respostas-para-tudo.

A minissérie O Mestre e a Margarida foi um sucesso de audiência na Rússia, e muito elogiada pela imprensa – inclusive a Ocidental. A Goskino Company não poupou investimentos, e permitiu ao diretor Vladimir Bortko realizar um trabalho impecável. Os ótimos efeitos especiais e as finalizações, são uma prova disso. A série abarca quase todos os gêneros dramáticos, e se fixou como um dos melhores programas de curta temporada já exibidos na televisão de seu país, e não é para menos. Ninguém há de negar a excelente adaptação e as características autorais de Vladmir Bortko nessa série, “nem o assassino sem nariz de Gestas, nem o quinto procurador da Judeia, o cavaleiro Pôncio Pilatos”.

O Mestre e a Margarida (Master i Margarita) — Rússia, 2005
Direção: Vladimir Bortko
Roteiro: Vladimir Bortko (baseado no livro homônimo de Mikhail Bulgákov)
Elenco: Aleksandr Abdulov, Oleg Basilashvili, Vano Miranyan, Semyon Furman, Aleksandr Chaban, Alexander Filippenko, Valentin Gaft, Vladislav Galkin, Leonid Maksimov, Dmitriy Poddubnyy
Duração: 500 min. (minissérie completa – 10 episódios)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.