Crítica | “A Hard Day’s Night” – The Beatles

estrelas 3,5

Apesar de ter sido lançado juntamente com o filme homônimo de mesmo nome, A Hard Day’s Night não representa, exatamente, a trilha sonora do filme. Há duas versões do álbum: a versão americana, que traz algumas faixas instrumentais do filme em questão, e a versão britânica, cuja capa apresenta somente o nome da banda e o título do álbum. No Brasil, filme e álbum receberam o título de Os Reis do iê, iê, iê.

Com canções inteiramente compostas por John Lennon e Paul McCartney, a parceria da dois já pode ser comprovada imediatamente em sua primeira faixa, A Hard Day’s Night. Mas apesar da autoria da dupla Lennon/McCartney, a inspiração para a canção veio de Ringo Star, que após um longo dia de trabalho, exclamou: “It’s been a hard day…and I looked around and saw it was dark so I said,…night!”. Com uma batida ritmada e alegre, a canção é quase uma antítese ao desabafo de Ringo, transformando-a numa melodia contagiante sobre o amor e o apego a uma pessoa.

A faixa seguinte, I Should Have Known Better, tenta carregar o mesmo sentimento de paixão, mas através de uma melodia mais melancólica, o que talvez deixe a impressão de que se trata de uma declaração um tanto fria, especialmente se você perceber a ausência de profundidade na letra. Já If i Feel, que segue pelo mesmo tom, consegue casar de forma mais orgânica a essa proposta,  já que sua letra fala sobre desejos e dúvidas de alguém que parece ter descoberto novas coisas sobre o amor.

I’m Happy Just to Dance with You foi originalmente escrita por Lennon, porém este decidiu que George Harrison deveria cantá-la, transformando-a na única faixa solo do integrante no álbum. And I Love Her, composta por McCartney, é uma bela composição do cantor para Jane Asher, na época namorada de McCartney. E por mais que sua letra não traga nada de original, esta traduz muito bem a reciprocidade que existia no romance entre os dois. A canção firmou-se como um dos maiores sucessos do álbum, e foi regravada por artistas como Bob Marley, Sarah Vaughan, Diana Krall e até por alguns artistas brasileiros como Roberto Carlos e a dupla Zezé di Camargo & Luciano.

Tell Me Why é uma das faixas mais interessantes do álbum, uma vez que a canção fala sobre mentiras e, de forma subentendida , traição, e ainda assim é acompanhada por um ritmo bastante agitado, quase como uma forma de acompanhar a intensidade dos sentimentos expostos na musica. Can’t Buy My Love, escrita e interpretada por Paul McCartney, foi uma das primeiras da banda que apresentou a voz de apenas um dos Beatles, sem nenhum acompanhamento dos outros integrantes. Já Any Time All, apesar de trazer uma batida agradável e contagiante, se perde na repetição da ideia apresentada pela musica.

I’ll Cry Instead, curiosamente, segue por um caminho totalmente contrário. A batida é igualmente ritmada, mas a letra composta por John Lennon apresenta uma fascinante continuidade de ideias e desejos que são muito bem complementadas a cada verso, alguns bastante duros quando levamos em consideração que se trata de uma canção de amor.

Things We Said Today se salva mais pelo ritmo gostoso de acompanhar, já que sua letra apresenta pouquíssima profundidade diante de outras composições. Da mesma forma, When I Get Home novamente apresenta uma repetição de ideias dentro da narrativa da canção. Já You Can’t Do That recupera o fôlego do álbum ao trazer uma composição amarga e desesperançosa, novamente acompanha por um ritmo frenético.

Encerrando-se com a agradável I’ll Be Back, frase esta também famosa pelo filme O Exterminador do FuturoA Hard Day’sd Night não está entre os melhores álbuns dos Beatles, cujo maior interesse se deve as curiosidades envolvendo a gravação do álbum. No mais, fique com o filme mesmo.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.