Crítica | Natal Sangrento (1984)

estrelas 3

Baseado na história de São Nicolau, um homem bondoso que reza a lenda, distribuía moedas aos mais necessitados no século IV, o Papai Noel foi apropriado pelo capitalismo e ganhou essa imagem “vermelha” graças ao poder publicitário da Coca-Cola, uma das representações máximas da expansão territorial simbólica dos Estados Unidos ao redor do planeta. No imaginário natalino, o velhinho está associado, juntamente às suas renas, à distribuição de presentes enquanto as crianças estão dormindo. Em Natal Sangrento, o vermelho ganha novos significados: está associado ao derramamento de sangue na noite do dia 24 de dezembro.

O gênero slasher movie sempre gostou de datas comemorativas: Sexta-Feira 13, Halloween – A Noite do Terror, Reveillon Maldito, Dia dos Namorados Macabro, etc. As opções são variadas, mas nenhum se encaixa tão bem no período comemorativo como Natal Sangrento, produção que seguia a cartilha do horror dos anos 1980: sexo e assassinatos dosados com bastante equilíbrio. Mesmo que menos conhecido que as sagas de Jason, Freddy e Michael Myers, a composição visual do filme, bem como a direção e os diálogos extremamente divertidos não ficam devendo nada aos seus “colegas” de gênero, conseguindo inclusive ser superior em alguns aspectos.

O filme estreou no dia 09 de novembro de 1984, no mesmo dia que A Hora do Pesadelo, de Wes Craven, saindo, inclusive, na frente no que tange aos aspectos da bilheteria. O problema é que a sanha assassina de Freddy Krueger não parou e ficou por semanas em exibição, em detrimento do Papai Noel que ficou em cartaz por apenas seis dias, haja vista a pressão de alguns grupos da sociedade civil que viam no filme uma aberração contra os valores que os estadunidenses tanto amam. Apesar de proibido, a produção atiçou ainda mais a curiosidade dos amantes dos filmes de terror, o que de certa forma fez o filme sobreviver até à contemporaneidade.

O roteiro assinado por Michael Mickey, baseado no argumento de Paul Caimi começa da seguinte forma: em 1971, a família Chapman vai visitar o “vovô” da família, um homem em estado catatônico que já se encontra internado há algum tempo. No caminho, o pequeno Billy (Jonathan Best) está folheando um livro de histórias natalinas e pergunta aos pais, Jim (Geoff Hansen) e Ellie (Tara Buckman) o horário da visita do Papai Noel. Os pais respondem que só depois que ele estiver dormindo.

Ao chegar no sanatório, Billy é deixado por alguns instantes com o seu avô. Logo, é surpreendido pelo idoso, que numa “pegada” Crazy Ralph (Sexta-Feira 13), diz que nessa noite algo de terrível está para acontecer e que o menino deve tomar cuidado com o Papai Noel. Eis o trauma nº 01. Os pais se aproximam, o avô volta ao estado anterior, imóvel, e o menino segue assustado com a família pela estrada, rumo aos eventos da noite que se aproxima. Paralelo ao acontecimento, um assaltante vestido de Papai Noel assalta uma loja e mata o atendente. Esse mesmo homem pede ajuda na estrada algum tempo depois aos integrantes da família Chapman, o que termina em tragédia. Billy assiste ao assassinato dos pais nas mãos de um homem que representa a imagem que ele tanto idolatrava: o Papai Noel. Eis o trauma nº 02.

O menino é enviado ao Lar de Órfãos Santa Maria. No local, vive a sua infância e adolescência sob os cuidados da tenebrosa Madre Superiora (Lilyan Chauvin), uma personagem calculada para ser odiada pelos espectadores. Ela condena o sexo, pregando constantemente a castidade, o que vai marcar a vida do menino Billy e do seu irmão, uma criança que ainda era um bebê quando os assassinatos na estrada destruíram a família Chapman. Eis o trauma nº 03. No orfanato, Billy tem apoio e carinho da irmã Margaret (Gilmer McCormick), uma mulher mais afetiva e com características mais próximas do que se entende por humanidade.

Os anos se passam e já adulto, Billy, agora interpretado por Danny Wagner, vai trabalhar numa loja de brinquedos. O rapaz parece ter superado os traumas e até possui uma paquera: Pamela (Toni Nero), uma moça bastante atenciosa. Tudo ia bem até chegar o Natal e o estabelecimento de uma situação desagradável: Billy é obrigado a se vestir de Papai Noel para fazer os atendimentos na loja. Trauma nº 01 + Trauma nº 02 + Trauma nº 03: some-os e tenha o resultado desta equação sanguinária. Um novo serial killer surge na história do cinema, desta vez, vestido da imagem do bondoso homem que distribui brinquedos nas noites natalinas.

Billy sai pelas ruas espalhado sangue e terror: as moças sexualmente libertas e os caras valentões? Pessoas que não se comportaram ao longo do ano? Indivíduos que cometem atos duvidosos que vão de encontro aos princípios da moral cristã? Não há escapatória: todos se tornam estatísticas nas mãos de Billy, um assassino criativo que sabe usar arcos, flechas, machados, facas, martelos, dentre outros utensílios pontiagudos.

Natal Sangrento não possui nenhum aspecto surpreendente em termos de argumento. Uma pessoa traumatizada sai em busca de vingança (voluntária ou involuntária) como forma de expurgar o que lhe fizeram no passado. Já havíamos visto isso antes. O que o torna diferente dos demais é a coragem em se apropriar da figura do Papai Noel para a realização dos filmes, num ritual de dessacralização que custou bastante para a produção. Jason é o assassino da Sexta-Feira 13. Michael ataca no Halloween. São datas que mexem com o imaginário sombrio, diferente do Natal, uma época clássica onde as pessoas espalham votos de bondade e amor, mesmo que na seara da “hipocrisia nossa de cada dia”.

Como já era de se esperar, Natal Sangrento ganhou uma continuação e tornou-se uma franquia, mesmo que as produções posteriores ao segundo filme sigam um caminho ao estilo Sexta-Feira 13 Parte 5 – Um Novo Começo, ou seja, não há nenhuma ligação além dos títulos oportunistas. Em 2012, a produção ganhou uma refilmagem igualmente divertida, mas sem o mesmo fôlego: lançada diretamente no mercado de DVD no Brasil, ver um Papai Noel massacrando pessoas que não se comportaram bem durante o ano já não era coisa que surpreendia ninguém.

Natal Sangrento (Silent Night, Deadly Night) – Estados Unidos, 1984.
Direção: Charles E. Sellier Jr.
Roteiro: Michael Huckey, baseado no argumento de Paul Caimi.
Elenco: Lilyan Chauvin, Gilmer McCormick, Toni Nero, Robert Brian Wilson, Britt Leach, Danny Wagner, Linnea Quigley, Nancy Borgenicht.
Duração: 79 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.