Crítica | O Quarto do Pânico

estrelas 4

Eu seu quinto filme, David Fincher larga seu mundo predominantemente masculino explorado em Seven, Vidas em Jogo e Clube da Luta e volta à sua origem em Alien³, com uma forte protagonista do sexo feminino em mais um eletrizante, mas não especialmente profundo, thriller de sua carreira. Saem as discussões filosóficas de Clube da Luta e Seven e entra uma trama mais direta e linear, semelhante ao que vemos em Vidas em Jogo, mas muito menos dependente de reviravoltas.

Mas isso não é algo ruim, apenas fato. Fincher é um diretor perfeccionista que transita muito bem entre o complexo e o simples, sempre demonstrando sua incrível técnica diretorial, com o controle absoluto de seu ambiente, algo especialmente presente em O Quarto do Pânico. Afinal de contas, toda a fita acontece dentro de uma casa de quatro andares no Upper West Side de Nova Iorque para onde se mudam a recém-divorciada Meg Altman (Jodie Foster) e sua filha diabética de 11 anos Sarah (Kristen Stewart bem antes de lidar com vampiros brilhantes) e a premissa é básica: elas se vêem ilhadas no “quarto do pânico” ultra-moderno, mas incompleto da casa quando ela é invadida por três bandidos.

Com esse ambiente, Fincher pode construir seu cenário integralmente em estúdio, o que permitiu absoluta liberdade de set design, fazendo com que a casa literalmente se transformasse em mais um personagem da história, de maneira muito semelhante a que Alfred Hitchcock fez no brilhante Janela Indiscreta. Assim, a movimentação de câmera pode ser a mais ousada possível, mas sempre dentro da lógica da narrativa, nunca apenas para fazer pirotecnia. Além disso, usando a lição que aprendera em Clube da Luta, o diretor pode fazer uso de efeitos gerados em computação gráfica para gerar movimentos de câmera impossíveis, com um mergulho pela fiação da casa e por outros lugares de difícil acesso. Essa mescla de efeitos práticos com efeitos visuais em computador é tão ou mais eficiente que em seu filme anterior, sem que sintamos qualquer quebra do realismo que o roteiro tenta impor.

Aliás, o trabalho de David Koepp faz jus às suas obras anteriores, como Jurassic Park e Missão Impossível, já que ele constrói um clima tenso, mesmo deixando claro que Meg e Sarah estão em relativa segurança em sua pequena fortaleza doméstica. Koepp cria uma trama crível, recheada de technobabble sobre as defesas do local, mas muito cativante, daquelas de deixar qualquer um roendo as unhas, especialmente nas sequências em que as protagonistas têm que sair momentaneamente do quarto do pânico. E David Fincher, exatamente como fez em Vidas em Jogo, não se furta em trabalhar sua câmera e a trilha sonora (por Howard Shore) de maneira a avolumar a tensão a níveis estratosféricos, mas sem perder a linha e descambar para o impossível completo como acontece em seu filme com Michael Douglas.

Não há no roteiro, porém, qualquer tentativa de ser muito mais do que ele é. Há tangenciamento com temas como a emancipação da mulher, uso da tecnologia (especialmente em termos de privacidade, com câmeras em todo lugar), mas não muito mais do que isso. Estamos diante de uma fita de ação e suspense de alto nível, com a marca registrada de David Fincher.

Em termos de atuação, o show é de Jodie Foster, que consegue convencer facilmente como a mãe que fará de tudo para proteger seus filhos. Sua calma e resignação do começo evolui para uma fúria poderosa no terço final, em uma honesta evolução da personagem. Stewart também não desaponta, apesar de passar o tempo quase todo no seu papel de “filhote sendo protegido pela leoa”, sem muita chance de mostrar latitude. Do lado dos vilões, temos os sempre excelentes Forest Whitaker, fazendo o hesitante ladrão e Jared Leto, como o mentor da operação. Há, também, o costumeiro “vilão pavio curto” vivido por Dwight Yoakam que, assim como Stewart, não tem muito espaço para atuar, especialmente em contraposição a Whitaker e Leto.

No final das contas, O Quarto do Pânico é um excelente thriller minimalista (se é que posso chamar assim) que engaja o público sem pretender ser mais do que é. A fita prima pelo rigor visual característico de Fincher e por atuações à altura. Não é muito mais do que isso, mas em uma época em que thriller é, basicamente, sinônimo de explosões e canastrices, com direção burocrática, a quinta obra de David Fincher definitivamente se destaca.

O Quarto do Pânico (Panic Room, EUA – 2002)
Direção: David Fincher
Roteiro: David Koepp
Elenco: Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker, Jared Leto, Dwight Yoakam, Patrick Bauchau, Ann Magnuson, Ian Buchanan, Andrew Kevin Walker, Paul Schulze, Mel Rodriguez
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.