Plano Polêmico #7 | O Final de Watchmen (filme) é Superior ao Final de Watchmen (HQ)…

(arte: medli20)

Obs: Não sei nem se deveria dizer isso aqui, mas se você leu o título desse artigo e acha que o que escrevi não contém SPOILERS, então, talvez, você precise usar aquele chapéu cônico e se sentar bem no cantinho da sala…

Sim, eu vou comparar Watchmen, a venerada graphic novel de Alan Moore desfavoravelmente em relação a Watchmen, o filme muitas vezes execrado de Zack Snyder. É isso mesmo que você leu: DESFAVORAVELMENTE (mas só o final).

Não adianta nem mandar e-mails raivosos ou dizendo que me vão alcaguetar para o próprio Moore, pedindo para ele jogar algum feitiço em mim, pois já me protegi devidamente com um encantamento do Olho de Agamotto, que sempre fica ao redor de meu pescoço. Portanto, bring it on!

alan moore

Cara feia, para mim, é fome…

Mas sério, sei – e defendo – que HQ é HQ e filme é filme e, sempre que posso, evito dizer que o filme é bom ou ruim porque seguiu ou não seguiu a HQ em que se baseou. Entendo perfeitamente as distinções das duas formas de arte e elas devem ser mesmo respeitadas, pois adaptação é diferente de transliteração, por mais que fanboys e fangirls teimem em não aceitar esse simples fato da vida. No entanto, mesmo plenamente consciente disso, um exercício comparativo é divertido vez ou outra, não é mesmo?

Bem, para realmente começar, preciso que todos aqui estejam em pé de igualdade e, para isso preparei um resumo dos respectivos finais:

Watchmen (quadrinhos): Ozymandias, para trazer paz ao mundo, sequestra diversos cientistas e artistas, coloca-os em uma ilha deserta e despeja dinheiro para que eles desenvolvam um monstro horroroso com o objetivo de teletransportá-lo para o meio de Nova Iorque e, com a descarga psíquica resultante, matar milhares de pessoas. Tudo que ele faz ao longo da saga tem ligação com esse evento, incluindo o icônico assassinato do Comediante, que abre a narrativa. Seu plano é bem-sucedido e o resultado é que as nações se unem contra esse “inimigo em comum” e todos vivem felizes para sempre – menos Rorschach, que vira patê – ou pelo menos até que o diário dele seja descoberto e a revelação da tramoia aconteça. Descem as cortinas.

watchmensquid

Repitam comigo: final marromeno…

Watchmen (filme): Ozymandias, para trazer paz ao mundo, manobra o Dr. Manhattan, despejando dinheiro para que ele desenvolva um novo tipo de reator nuclear limpo, com o objetivo de detonar o de Nova Iorque, matando milhares de pessoas. Tudo que ele faz ao longo da saga tem ligação com esse evento, incluindo o icônico assassinato do Comediante, que abre a narrativa. Seu plano é bem-sucedido e o resultado é que as nações se unem contra esse “inimigo em comum”, no caso o próprio Dr. Manhattan, que é visto como o responsável em razão da assinatura atômica deixada pela explosão, e todos vivem felizes para sempre – menos Rorschach, que vira patê – ou pelo menos até que o diário dele seja descoberto e a revelação da tramoia aconteça. Sobem os letreiros.

watchmen movie final

E repitam mais uma vez: final maneiraço!!!

Reparem logo de cara um aspecto crucial: a ameaça criada por Ozymandias na HQ é exógena, ou seja, externa à trama, enquanto a ameaça criada por ele no filme é endógena, ou seja, está completamente dentro da trama. Esse é o primeiro elemento que me faz admirar o trabalho de David Hayter e Alex Tse no roteiro do filme.

Afinal de contas, essa ameaça endógena é o próprio Dr. Manhattan, peça essencial da narrativa e o único “super ser” de verdade desse universo, alguém criado como Godzilla, ou seja, dentro da paranoia armamentista nuclear e que desequilibra a balança de poder no mundo, tornando os Estados Unidos a nação mais poderosa da Terra. Toda a tensão da guerra fria estendida que Moore criou na obra original, transformando os EUA em uma nação fascista, tem perfeita origem e eco na fissão do átomo.

Com isso, o final do filme consegue trabalhar a temática geopolítica que permeia a obra de Moore sem recorrer a qualquer tipo de invencionice. O que é uma ameaça extraterrestre comparada com uma ameaça interna, com alguém – um de nós, caramba! – que é visto como nosso algoz? É claro que essa questão é particularmente relevante hoje em dia (a do inimigo interno) com a ameaça de nações terroristas, mas, mesmo em 1986, quando Watchmen (a HQ) começou a ser publicada, isso já era algo presente o suficiente no dia-a-dia para que houvesse também grau de importância adequado, até porque Moore é britânico e o IRA estava a toda nessa época.

mosaico ozy

E então, você aposta em quem?

Sei que vocês já se convenceram completamente que eu estou certo, que sou genial e que eu deveria escrever Watchmen 2 agora mesmo, mas calma que tem mais!

O mundo de Watchmen é um mundo sem heróis. Um mundo normal, com que podemos nos relacionar, com as mesmas agruras e problemas porque o mundo passava na década de 80. A grande – e única diferença efetiva – é a presença de uma anomalia, o Dr. Manhattan. Nem mesmo os Minutemen podem ser considerados completamente fora do comum, pois eles são pessoas normais (bem, quase normais…) com uma vontade exacerbada de fazer cosplay. Se pensarmos dessa forma, o plano de Ozymandias vai além de “só” trazer paz para o mundo (se, no processo, você tiver que matar milhares de inocentes, isso não importa, claro). Ele traz normalidade total ao mundo, uma espécie de reversão ao status quo anterior ao fenômeno Dr. Manhattan. Afinal, ele é o cara mais inteligente do mundo e, portanto, o azulão pelado é uma ameaça a ele, sempre e, se há uma ameaça a ele, então há uma ameaça ao mundo. Vilão que se preze tem que estar sempre muitas jogadas a frente, mesmo de alguém que exista em todo o espaço-tempo simultaneamente, além de ser um tantinho megalomaníaco…

watchmen 2

A continuação/crossover que o mundo aguarda!

Com isso eu não quero absolutamente dizer que a graphic novel de Moore é ruim. Longe, mas muito longe disso. É uma obra-prima. Não é “a melhor obra em quadrinhos do mundo” como os fanboys defendem por aí, mas é certamente uma das mais sensacionais já feitas. O final funciona, mas o final do filme não só funciona muito bem na projeção e dentro da narrativa, como funcionaria também muito bem nos quadrinhos, potencialmente melhor do que a “lula lelé” do bruxo de Northampton. Certamente é uma heresia o que acabei de afirmar e Cthulhu vai puxar meu pé à noite, mas tentem observar Watchmen de maneira menos apaixonada, menos intensa, menos defensiva, para vocês começarem a ver que talvez esse tenha sido um momento megalômano de Moore, que, como o roteiro do filme (que, claro, ele desaprova, mas o que é o que ele não desaprova, não é verdade?) deixa claro, ele não precisava recorrer.

O filme, por sua vez, tem diversos outros problemas, dentre eles a violência cartunesca, a caracterização de alguns personagens e outros elementos, mas o final certamente não é um deles, por mais que você ache que Snyder e sua equipe devam ser ejetados para Marte. É, na verdade, o filme possível, considerando-se o material fonte e isso é muito mais do que se pode dizer de muito filme baseado em obras infinitamente mais rasteiras.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.