Plano Histórico #19 | Cultura POP: História e Possíveis Definições

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O mundo se popificou”. Esta é uma afirmação de Ítalo Moriconi. Apesar de tão comentada, como podemos definir a cultura pop? Segundo o senso comum e alguns teóricos, a cultura pop é uma forma de entretenimento criado para grandes audiências, como os filmes populares, os shows, as músicas, os vídeos e os programas de TV. Como o autor observa, muitas vezes é comparada à alta cultura, elitizada e dita intelectualmente superior ao pop.

Segundo a pesquisadora Cristiane Sato, o pop estadunidense tornou-se uma modalidade cultural presente nos lares distantes da América, afinal, quase nenhuma nação ocidental ficou imune à influência; até mesmo no Oriente, a situação não foi diferente. Isto é perceptível no Reino Unido com as obras de Richard Hamilton, em que é possível perceber certo deslumbramento pelo american way of life, através do processo de mitificação da cultura estadunidense.

Nos idos dos anos 1920, os Estados Unidos iniciaram o processo de consolidação da sua hegemonia cultural mundial, graças ao fortalecimento da indústria cultural local, focada nas produções hollywoodianas e na música popular. O especialista Clodoaldo Lino descreve em sua tese Cultura pop, Globalização e Brasil, que as indústrias fonográficas e cinematográficas estadunidenses foram os ícones dessa expansão capitalista transnacional, que funcionou de forma tão eficaz quanto o uso da força.

A cultura pop estadunidense ganhou ressonância com a Guerra Fria, pois as suas manifestações artísticas eram uma arma na luta pela hegemonia, numa busca incessante pela dispersão do american way of life. Com base nos dados da pesquisa de Décio Torres, o fenômeno pop está definido no âmbito das artes plásticas como um movimento da arte ocidental que surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos. Com as raízes fixadas no urbano, a arte pop reflete as ânsias dos grandes centros, como Londres, Nova Iorque e São Francisco.

O termo cultura pop é bastante comum, principalmente na produção contemporânea. Segundo as considerações de Tiago Velasco, outro especialista em Cultura Pop, este é um termo utilizado sem critérios, fazendo parecer que tudo no mundo de hoje é pop. Em busca de uma definição, podemos encontrar o que o inglês Richard Hamilton diz sobre a Pop Art: uma arte popular, transitória, consumível, espirituosa, sexy, chamativa e um grande negócio.  Para Frith, outro pensador da cultura pop, autor do livro Sound Effects: youth, leisure and the politics of rock´n roll, esse é um termo de amplo sentido, sendo o rock uma de seus vertentes, como música diretamente ligada ao mercado de consumo de massa. O autor ainda afirma que, mesmo que o disco não venda muito, foi criado dentro de uma lógica que busca, de forma frenética, uma grande fatia da audiência.

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Na contemporaneidade, há um novo olhar sobre a cultura de massa e a busca de aproximação da arte com a vida, consideração, que, sob meu ponto de vista, favorece a circulação da cultura pop. Para Jameson, historiador neomarxista, estas são as características do pós-modernismo no pop, seguidor da lógica cultural do capitalismo tardio, momento em que a arte vira commodity.

O pop, nos anos 1960, não era uma produção artística das belas artes, mas um novo estilo de vida dos jovens, que tinha as suas relações com o rock, o culto à rebeldia, as drogas e o movimento hippie como aliados, além das subculturas e culturas undregrounds abalando as estruturas da sociedade.

Em O Pop: literatura, mídia e outras artes, o autor Décio Torres alega que a arte pop era semelhante às vanguardas dessacralizadoras da arte do início do século XX. O pesquisador reforça que esta modalidade artística se baseou nos aspectos do cotidiano da sociedade de consumo, nas técnicas e na temática iconográfica dos meios de comunicação, penetrando a cultura auratizada, elitizada. Assim, transformou-se no ponto de encontro entre a arte culta e a comunicação de massa. Aquele foi o momento mais próximo entre a cultura pop vendável e os princípios da arte elitizada, tamanha a estilização das imagens.

Os temas da arte pop são o banal e o prosaico, estes, símbolos veiculados pelos meios de comunicação de massa. Exemplos: quadrinhos, revistas ilustradas, anúncios e embalagens, o mundo do espetáculo popular, a música pop, o cinema hollywoodiano, feira de amostras, parques de diversão, rádio, televisão, dentre outros. O autor diz que a arte pop surgiu em um momento em que a parte ocidental do mundo atravessava um processo de revisionismo dos valores tradicionais, adornados pelos movimentos de contracultura nos anos 1960, também denominados pop.

Com isso, o fenômeno pop não pode ser interpretado, nas palavras de Décio Torres, como uma proposição artística limitada ao campo das artes plásticas, mas também como uma atitude geral das pessoas que viviam nas grandes cidades, em movimentos que englobavam reivindicações e participação dos jovens, das mulheres, dos estudantes, dos poetas, dos artistas, dos grupos étnicos não dominantes e das chamadas minorias. Neste jogo de novas possibilidades, propunham a quebra e liberação de tabus, principalmente os sexuais, os religiosos e os familiares, tríade que Madonna iria incluir no feixe de temáticas algum tempo depois, nos idos dos anos 1980, 1990, 2000 e na atualidade, em videoclipes e canções polêmicas, considerados, pela sociedade tradicional, como ultrajantes.

Entre os elementos da arte pop que constam no inventário apresentado por Décio Torres temos: o mundo do cinema, as estrelas de Hollywood, a cultura urbana e industrial, o nonsense, o clichê, o kitsch, os comerciais, os quadrinhos, o erótico, etc. Na seara técnica há a visão macroscópica, o zoom, o close-up, os takes cinematográficos, a superposição de imagens, colagens e descolagens. No âmbito da linguagem, a insubordinação às regras, a busca de novas formas, o discurso do sonho e do inconsciente e a carnavalização, todos estes, temáticos, técnicos e de linguagem direcionados a uma análise no âmbito das artes plásticas, mas aplicáveis a outros segmentos como o audiovisual e a literatura.

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A linguagem pop caracteriza-se por aspectos alegóricos da irreverência e da ironia paródica, herança da tradição moderna que apostava na carnavalização da linguagem. Segundo a proposta de Bakthin, as diversas vozes do discurso se reúnem para desenvolver e revelar a voz do outro. Com isso, a polifonia pop revela o entrelaçamento de signos, num discurso que se pretende caótico, embasado na proliferação da multiplicidade de linguagens. Torres afirma que, para proceder com essa polifonia, os autores precisaram recorrer a uma série de técnicas utilizadas pelo cinema, pela mídia, pelas artes plásticas e pela literatura. A apropriação, a colagem, o cut-up, a acumulação, o discurso cinético, a transnominação e o trocadilho são alguns destes.

Ainda dentro deste panorama pop, cabe afirmar que, segundo Tiago Velasco, a cultura pop apontava uma relação diferenciada de consumo. Na cultura pop, estabeleceu-se um diálogo contínuo de produção e demanda. Ao trazer essa afirmação para este texto, é possível perceber uma dimensão interna dentro do trabalho de Madonna: ao apontar para várias direções e agradar públicos variados, seu trabalho se reforça como exemplar dos trâmites da cultura pop. É o que veremos nas críticas aos documentários Na Cama com Madonna e I´m Going to Tell a Secret, análises programadas para esta semana.

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Com essa dimensão de fluxo contínuo de demanda, o público deixa de ser visto como uma massa homogênea e passiva, pois passa a ser encarado como diferentes segmentos, estratificados por gênero, faixa etária etnia e classe. Velasco ainda reforça que, desta forma, diferente da produção massiva, que impõe produtos homogêneos, a produção segmentada procura atender aos diferentes anseios do público.

O pop é a cultura do devir pelo fato de manter-se em constante busca por novidades, novos resultados, novos produtos para segmentar e agradar ao público ávido por consumo, numa espécie de campo de batalha onde cada artista, ao lidar com produtos efêmeros e escorregadios, precisa definir as suas estratégias para se manter. Madonna, por exemplo, através de táticas e estratégias bastante espertas, manteve-se firme no disputado jogo do pop, definindo bem o seu lugar, principalmente no campo do videoclipe.

Saiba mais:

LINO, Clodoaldo Machado. Cultura pop, globalização e Brasil. Rio de Janeiro, 2000. Tese (Doutorado). Programa de Pós-graduação em Comunicação e cultura. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

LINO, Clodoaldo Machado Fo. Cultura pop, globalização e Brasil. 2002. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura)–Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: UFRJ/ECO

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a nova e seu destino na sociedade pós-moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

MORICONI, Ítalo. O intelectual pop. Revista O Globo. Rio de Janeiro, ano 5, nº 268, p.28, 13. Set. 2009.

VELASCO, Tiago. Pop: em busca de um conceito. Revista Animus, Santa Maria, RS. v. 17, 2010.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.