Plano Histórico #21 | Literatura, Cinema e Monstros Marinhos

Megatubarão é a comprovação do interesse do cinema, da literatura e das demais artes pelos monstros que habitam nosso imaginário cultural desde a Antiguidade. O filme não conseguiu cumprir o que nos prometeu durante a sua massiva campanha publicitária, isto é, uma versão turbinada e absurda do clássico de Spielberg, pois a timidez da direção de Turteltaub e o desenvolvimento da narrativa repleto de cortes e pouco “tempero”, provavelmente para passar pela censura, pecam no quesito “imagem e ação”.

Para melhor entender as proporções gigantescas da criatura ameaçadora que Jason Statham enfrenta durante os 95 minutos de aventura, torna-se importante fazer um exercício retrospectivo, até mesmo para julgar adequadamente a obra, afinal, não é de hoje que os as criaturas do fundo do mar exercem um misto de medo e fascínio nos leitores, espectadores e atualmente, internautas, que navegam pelos mares da ficção em busca de aventura e muita adrenalina.

Compreender tais monstros requer trafegar pelo caudaloso mar da fantasia, da mitologia e do fluxo literário que continua em profícuo exercício desde os tempos de Homero e da Bíblia Sagrada. Dividido em duas partes e complementado pelo especial que antecedeu a estreia de Megatubarão, bem como as críticas sobre filmes envolvendo tubarões e outros monstros que habitam o imaginário cultural há eras, publicadas no site em momentos distintos, este Plano Histórico pretender expor de forma panorâmica alguns pontos da historiografia literária e cinematográfica referentes aos “monstros ficcionais” que metaforizam questões “bem” reais. Vamos nessa?

Monstros Marinhos na literatura e as ressonâncias cinematográficas

O mar é um espaço que já rendeu pomposas narrativas literárias. A Odisseia, de Homero, um dos marcos narrativos ocidentais, nos ambienta nas aventuras de Ulisses ao retornar da Guerra de Troia, castigado por ter desrespeitado Poseidon, o deus dos mares. Ao passar por provações, o astuto personagem consegue vencer a todos os desafios, tornando-se uma referência na construção de perfis de literários esféricos, bem como moldou as bases para aventuras marinhas posteriores.

Um dos desafios de Ulisses foi enfrentar criaturas marinhas, mitos que fermentam produções culturais desde sempre, sendo a literatura e o cinema alguns dos espaços mais férteis. No que tange aos animais marinhos como combustível para a criação de histórias, a memória acerca do assunto é densa. Na Bíblia Sagrada temos uma das mais famosas alegorias envolvendo criaturas que habitam o fundo do mar. É a trajetória de Jonas, personagem título de um dos livros que compõe o feixe canônico ainda considerado sagrado para muitos seguidores religiosos. Segundo os relatos bíblicos, depois da morte do profeta Eliseu, Deus ordenou que Jonas fosse até Nínive para pregar a “palavra”, haja vista a corrupção que tomava conta do espaço. Desobediente, Jonas não seguiu as ordens do “senhor” e tomou uma embarcação em direção oposta.

Deus, furioso por conta do não cumprimento da ordem, provocou uma tempestade que colocou todos os tripulantes em perigo. Jonas, por sua vez, ao se dar conta da situação, percebeu os danos causados pelo seu comportamento. Consciente da sua falha pediu aos marinheiros que o jogasse ao mar. Inicialmente o seu pedido não é cumprido, mas ao perceberem que a tempestade tornava-se pior, os homens decidiram cumprir às ordens do jovem rapaz. Nas águas profundas, o personagem é engolido por uma baleia. Diante da provação, arrepende-se da sua desobediência e ao passar três dias e três noites dentro do animal, ora ao senhor, pede perdão e agir com clemência, tem as suas preces atendidas: o animal o “cospe” em terra. Há estudos que apontam a possibilidade das primeiras versões não tratarem de uma baleia, mas de “um peixe de grandes proporções”, no entanto, como estamos diante de um relato que daria horas de debate com o filósofo Walter Benjamin, tamanha a carga “aurática” do texto, fiquemos com a versão mais conhecida, a baleia, animal que já deu trabalho para outros enredos literários bastante famosos.

Ainda na Bíblia Sagrada, no Livro de Jó, especificamente no capítulo 41, há uma passagem que trata de outra criatura marinha que fermentou as narrativas mitológicas durante longo período. Trata-se de Leviatã[1], peixe feroz descrito no Antigo Testamento, criatura citada por Deus em um diálogo com Jó, um dos livros mais hiperbólicos das sagradas escrituras. Bastante comum nos textos bíblicos e figura presente nas navegações empreendidas pelos europeus no final da Idade Média, a criatura é descrita por Deus como um monstro que ao “se levantar, faz tremer as ondas do mar”.

Na epopeia Os Lusíadas, de Camões, a criatura é citada como um dos perigos aos homens que atravessam mares “nunca dantes navegados”. Interpretada às vezes como polvo, dragão do mar, serpente ou peixe de enormes proporções, a criatura que para os católicos na época medieval, representava a inveja, no imaginário popular, possui o mesmo efeito devastador que os tubarões replicados constantemente pela indústria cinematográfica. Não é a toa que em um dos seus relatos de bastidores de produção, Steven Spielberg compara a sua criatura ao monstro mitológico.

Em Moby Dick, de Herman Melville, publicado em 1851, temos um romance revolucionário no que concerne às estratégias narrativas, mas relativamente estigmatizada, pela crítica especializada da época, campo discursivo que reconheceu o valor da narrativa de Melville apenas na posteridade. Os elementos românticos que nos remetem aos enredos aventureiros fornecem as bases da história, inspirada no naufrágio do navio Essex, embarcação afundada por uma baleia de proporções exorbitantes. O volumoso romance nos apresenta ao veterano Ismael, um pescador que decide embrenhar-se na pesca de baleias. O seu trabalho é capturar o animal e extrair a gordura (espermacete), produto requintado e parte da indústria na época. Na mesma embarcação está o capitão Pollard, um homem tomado pelo instinto de vingança, personagem de perfil ambicioso e que coloca a todos em perigo por conta da sua meta: matar a baleia que no passado lhe trouxe problemas.

A lição filosófica é evidente e moralista: radiografar o estado do homem naquela época ao apontar a ambição como um dos maiores problemas dos seres humanos. Não é preciso muito esforço intelectual para perceber que a narrativa flerta com o velho embate entre a razão humana e o instinto animal, algo que foi apresentado recentemente no desenvolvimento de Águas Rasas, aventura comandada pelo cineasta Jaume Collet-Serra, tendo como base o roteiro de Anthony Jaswinski. Nesta extensa malha literária ainda temos o popular Pinóquio, de Carlo Colladi, a história do boneco de madeira que se torna “humano”. Em determinado momento, o personagem precisa atravessar uma provação. Ao adentrar numa baleia, a metáfora para a luta contra a ignorância (ou escuridão) ganha os seus contornos e molda a “mensagem” da narrativa, numa eficiente relação intertextual com a história bíblica de Jonas.

Em 1952, durante a sua estadia em Cuba, o escritor Ernest Hemingway publicou O Velho e o Mar, romance que encontrou recepção morna, tal como Moby Dick, mas que alçou voos e foi reconhecido posteriormente. A história nos apresenta o pescador Santiago, um homem que se encontra numa agonizante maré de azar, pois há quase três meses não consegue pescar nada. Certo dia, Santiago captura um peixe de enormes proporções e força extrema, mas uma sacrificante luta se estabelece, pois a criatura arrasta a sua embarcação para um ponto mais longínquo da costa. Depois de muito embate, o pescador consegue vencer o peixe, mas ao retornar, enfrenta constantes ataques de tubarões, infortúnio que o faz perder boa parte da pesca que provavelmente lhe renderia, mesmo que peremptoriamente, um punhado de tranquilidade.

Além destes clássicos consagrados, na seara da literatura juvenil, o escritor Aristides Fraga Lima lançou, em 1985, Perigos no Mar, trajetória de três jovens náufragos que ficam à deriva depois de partir do porto de Salvador, rumo aos momentos de aventura e medo mais atenuados de suas vidas. Em meio aos eventos, o autor coloca uma cena envolvendo um tubarão, numa tentativa de tornar tudo mais eletrizante para o público leitor. A forma como a criatura marinha aparece na narrativa deixa claro que há elementos cinematográficos e literários da memória cultural presentes para efeito nos receptores.

Antes mesmo de Spielberg lançar o seu filme, o ator Burt Lancaster já havia enfrentado tubarões no equivocado Shark, de 1969, narrativa de ação sobre criminosos digladiando entre si, tendo os tubarões como peças adicionais para aumentar o nível do “jogo”. Além da premissa do tubarão que tira a paz de um determinado grupo de pessoas, a indústria cinematográfica já se valeu das barbatanas de diversos tubarões para o efeito catártico desejado, numa inevitável referência ao filme de maior sucesso, a já citada produção de Spielberg.

Monstros Marinhos no Cinema: perspectiva histórica

Os amantes dos gêneros aventura e terror geralmente conhecem bem as bases dos filmes de monstros, campo adubado por uma extensa tradição literária, como foi apontado no tópico anterior. Ao dar ênfase para setores específicos da linguagem cinematográfica (e audiovisual), isto é, delinear a cenografia, a maquiagem e os efeitos visuais, as narrativas sobre monstros ocupam uma posição confortável e privilegiada no bojo da indústria cinematográfica, pois mesmo que a crítica em determinados momentos históricos não compreenda os subtextos que minam tais produções, o público geralmente se mantém fiel.

Como apontado por Jonathan Lenkim no ensaio Archetypal Landscape and Jaws, “fora do controle humano, o mar tem todos os aspectos de selvageria de uma floresta virgem”, o que abre precedentes para a ação da baleia Moby Dick, do assustador mito de Leviatã, da Hidra de Lerna, etc. Desde o “Primeiro Cinema”, época dos experimentos e trucagens dos irmãos Lumiere e do mágico Mélies, os monstros já apareceram para assustar as plateias. King Kong, as produções da RKO e o estilo expressionista, em especial, pavimentaram um campo que rendeu bastante material memorialístico para ilustrar a história de uma das artes mais jovens, o cinema, emergente entre o final do século XIX e legitimado ao longo do século XX, após muitas transformações.

Historiadores da literatura e da cultura contam desde sempre que muitos monstros surgiram para privar a controlar populações e comportamentos. Da Antiguidade (Medusa, Minotauro) ao avanço industrial e tecnológico da Idade Moderna (Drácula, Frankenstein), tais monstros são a contraposição da ideia de normalidade que a sociedade tanto almeja. O que está fora desde eixo integra a zona do mal-estar de uma civilização que anseia pela “ordem”. As Grandes Guerras que sacolejaram o planeta Terra durante o século XX abriram espaço para o surgimento de novas criaturas, oriundas do estabelecimento do caos (Godzilla é um dos casos mais icônicos, fruto das bombas atômicas e da Segunda Guerra Mundial).

E diante disso, a relação com o mar. Diferente dos grandes centros urbanos, o mar é o território do desconhecido. É um ambiente que até serviu, absurdamente, de testes para as bombas atômicas, realizados em espaços isolados no meio dos oceanos. Na busca pela defesa dos humanos e das metrópoles, os descuidados cientistas e políticos esqueceram os danos causados na vida marinha. Ao longo dos anos 1950, o público tinha novos medos para suas sessões de psicanalíticas. A ojeriza ao estrangeiro que permeia Drácula, bem como as incertezas diante das novas tecnologias, bem ilustrados em Vinte Mil Léguas Submarinas, foram questões abriram espaço para os impactos do homem com os conflitos que cicatrizaram o século XX, situações que já vinham num processo de cultivação desde o século anterior, repleto de inovações tecnológicas e teorias mal interpretadas por cientistas, intelectuais e representantes políticos oportunistas.

King Kong ganhou nova roupagem, além de ter sido relançado. Godzilla representou os impactos da radioatividade, pois a aventura revela uma criatura gigantesca adormecida no fundo do mar, despertada pela ação do homem. Na esteira do subgênero rentável surgiram O Mundo em Perigo, Tarântula, O Monstro do Mar Revolto, A Mosca da Cabeça Branca, O Monstro da Lagoa Negra. O que dizer do Vietnã? Um dos conflitos bélicos mais desastrosos do século passado promoveu uma onda gigantesca de monstros, oriundos das mentes perturbadas pelos envolvidos na guerra.

Filmados durante muito tempo com orçamentos pífios, os filmes de monstros marinhos ganham novos rumos com o investimento em Tubarão, lançado em 1975, um filme “bem conectado” com sua época, mesmo que os realizadores assumam a não intencionalidade em tocar em determinadas cordas sensíveis da sociedade, tais como Watergate, Vietnã, movimento negro, liberação feminina, etc. Até mesmo representações de classes sociais em embate, corrupção política e “variações” de masculinidade estão presentes no filme de Spielberg, o que só reforça a importância tão delineada nas críticas aos filmes de tubarões que constantemente citam o ponto de partida dos anos 1970.

Na esteira de Tubarão, os filmes do jawsploitation vieram à superfície, narrativas conectadas com a mesma estrutura, empolgadas em lucrar com o sucesso do filme, numa ação parasitária lucrativa para ambos os lados. Integrantes do que a crítica intitulada de eco-horror, tais filmes são metáforas para a cobrança da mãe natureza, furiosa por conta dos impactos causados pela ação humana destrutiva. Ratos, baratas, coelhos, lesmas, rãs e outros animais surgiram paulatinamente, numa demonstração de interesse da indústria e do público por narrativas deste quilate, o que nos leva ao questionamento, quando adentramos a seara das feras assassinas marinhas, apresentadas nos últimos dois anos por narrativas do mainstream, tais como Águas Rasas, Medo Profundo e Megatubarão: os tubarões ainda funcionam?

[1] Nome da obra do cientista político Thomas Hobbes. No texto, o autor flerta com temas sociais e críticas aos modelos de governo de uma determinada época, sendo a criatura uma metáfora para a centralização do poder e representação das dimensões analíticas da obra.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.