Plano Histórico #22 | A Poética do Terror: Casas Assombradas no Cinema

Suntuosas e aparentemente “vivas”. As casas amaldiçoadas ou perturbadas por entidades malignas fazem parte de um rentável subgênero do terror: os “filmes de casas assombradas”. São portas que rangem e janelas que abrem sozinhas, ventos uivantes do lado externo, especialmente na calada da noite, sombras que circulam e deixam dúvidas a pairar entre os personagens, porões e sótãos que guardam segredos obscuros, bem como quartos e salas de jantar que habitam o nosso imaginário por conta de lendas e rumores tratados seriamente como histórias verídicas.

Frequentemente transposta para o cinema, televisão, literatura e outros suportes narrativos, as casas assombradas carregam uma longa história cultural. Antes de adentrar em nossa seleção crítica, creio ser necessário refletir um pouco sobre o conceito de casa/lar/moradia, tendo em vista deixar a nossa análise mais embasada. Vamos nessa?

As Casas e Suas Significações Culturais: Um Lugar Para Chamar de “Lar”?

Simbolicamente, a casa é a representação dos elementos de ordem cognitiva e emocional que nos constitui como indivíduos distintos do “grupo”. No que tange aos aspectos psicológicos, a casa simboliza questões relacionadas às nossas vivências físicas, afetivas e intelectuais. É nela que expressamos a história da nossa vida, os paradoxos da nossa memória, espaço geralmente organizado para espelhar muito de como nós nos sentimos, pensamos e agimos perante o mundo. Em nossa casa, oferecemos ao “outro” algumas pistas sobre valores, crenças e peculiaridades que delineiam a nossa personalidade.

Enquanto as ruas, escolas, universidades, hospitais e outros locais de circulação pública são pensados para o acolhimento da diversidade de tipos humanos, no espaço privado estamos diante de nós mesmos, refúgio para nossa expressão em caráter integral, tal como as cavernas eram para os antepassados, constantemente em fuga diante de coisas desconhecidas e ameaçadoras. Alegoricamente falando, a nossa casa é o nosso “ninho”.

Repleta de dimensões simbólicas, a casa é um lugar que deve transmitir liberdade e segurança, pois como afirma o especialista Jorge de Campos Valadares, no artigo Qualidade do Espaço e da Habitação Humana, “são verdadeiros pontos de encontros e despedidas” Em suma, um sítio de recordações e memórias, um ambiente que por meio de sua dinâmica espacial, registra, atesta e testemunha percursos e práticas. Para o autor, no espaço da casa nos sentimos nós mesmos em meio a um ambiente de refúgio que nos conforta e alivia as dores. Cada quadro exposto na parede, cada foto colocada no porta-retratos, cada flor cultivada no jardim espelha aos nossos comportamentos e delineiam traços de nossa personalidade.

Em determinado ponto de Ser e o Tempo, Martin Heidegger afirma que estamos constantemente em busca do lugar “essencial”, isto é, a casa como contingência da condição humana. A casa serve para abrigar o corpo, tendo em vista mantê-lo protegido em um lugar para dormir, comer, etc. Espaço de interações, rituais e partilhas, simbolicamente a casa está conectada ao necessário clima de segurança e proteção.

No desenvolvimento de A Poética do Espaço, o intelectual Gaston Bachelard aponta que a simbologia da casa torna-se o elemento de unificação e integração do homem frente um mundo de dispersão dos sonhos, das lembranças e do pensamento do ser humano. É uma imagem do refúgio, do abrigo, do aposento, dentre outros. Numa passagem bastante elucidativa, o autor diz que “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões e ilusões de estabilidade”, no entanto, não deixa de ressaltar que locais como sótão, porões e corredores representam constantemente o refúgio para as emoções, algo que ao dialogar com o nosso especial, encontra-se muito presentes nas narrativas de suspense, terror, isto é, nos filmes de casas assombradas.

Em suas palavras, “o porão representa as relações de intranquilidade que permeiam a trajetória de alguém”, enquanto os quartos dão forma ao processo de construção da memória de cada um, espaços conhecidos pela representação da intimidade, local “maculado” por alguém. Próximo ao desfecho de suas elucidativas reflexões, Bachelard afirma que “os cantos” da casa representam a “negação do universo”, o ato de se esconder, meditar ou confrontar a solidão que lhe acompanha, sendo ainda espaço de confrontação e tomada de consciência diante da vida.

Todo espaço habitado, por sua vez, traz a concepção de casa. Nem sempre, entretanto, as casas são erguidas por meio de presenças agradáveis ou ideais, tal como o campo teórico da simbologia e da representação cultural da casa nos apresenta. Na literatura, A Queda da Casa de Usher, de Edgar Allan Poe, nos apresentou uma casa indesejada, amaldiçoada, carregada por memórias depreciativas. Stephen King é um mestre da criação de casas assombradas por entidades malignas.

No romance Enfield 1977, de Guy Lion Playfair, acompanhamos a transposição literária dos eventos supostamente reais sobre uma mãe e seus filhos atormentados por manifestações sobrenaturais responsáveis por mover objetos, emitir odores insuportáveis e ecoar sons assustadores. Por questões de limitação editorial e seleção crítica, não será possível tentar expor uma lista gigantesca de casas assombradas na literatura, haja vista a quantidade exorbitante de publicações.

Diante do exposto, partiremos para o nosso próximo tópico: a análise dos elementos da linguagem cinematográfica que possibilitam a criação de casas impiedosamente assombradas.

Design do Horror: Os Mecanismos Que Engendram Uma Casa Assombrada

Não adianta deter muitos recursos financeiros. Se a base de tudo, isto é, o argumento e o roteiro, não estiver sólida, erguida por uma premissa interessante, desenvolvimento envolvente e carga dramática arrebatadora, os efeitos especiais são apenas coadjuvantes de luxo do processo. Filmes como A Casa da Colina e 13 Fantasmas, ambas as produções, releituras de obras adaptadas anteriormente, penaram por se preocupar muito com efeitos mirabolantes e se esqueceram do primordial: apresentar uma boa história.

Isso não significa, entretanto, que a equipe técnica é pouco necessária. Na verdade, em muitas situações, os aspectos visuais colaboram com a caracterização dos personagens, numa promoção de delineamento dos perfis físicos, sociais e psicológicos. Por isso, um bom filme de terror com a temática “casa assombrada” deve investir criativamente num excelente design de produção, isto é, setor da realização que gerencia a direção de arte, a cenografia, o figurino e ainda dialoga constantemente com a maquiagem.

A equipe de som também precisa estar afinada, pois os clichês funcionam bem, caso sejam utilizados à favor do desenvolvimento narrativo, não como mero caminho para promover sustos aleatórios.  Junto ao grupo, a produção depende bastante da direção de fotografia, responsável pela captação de imagens por meio de enquadramentos e movimentos de câmera que captam o melhor número de sequências visuais que for possível, erguidas graças ao grupo que assumiu o design de produção. A iluminação, também, é um recurso muito importante, pois permite revelar e esconder elementos narrativos, a depender das intenções dramáticas dos realizadores.

O Homem nas Trevas, por exemplo, é um filme que não trata de uma casa assombrada, mas teve a sua concepção visual erguida por meio de corredores estreitos, presença de blackouts, espaços sinuosos, tudo em prol da tensão diante da proposta do roteiro. A segunda temporada de American Horror Story, também, é bem sucedida ao construir um trecho do sanatório, isto é, um corredor obscuro e pouco frequentado, com cerâmicas que possuem um design que nos remetem ao couro de um réptil, estratégia narrativa visual interessada em nos causar estranhamento.

Um Panorama das Casas Assombradas: Herde, Pague ou Alugue para Entrar, Reze e Clame para Sair!

A quantidade de filmes sobre casas assombradas nos coloca, enquanto críticos, diante de um exercício hercúleo. Antes de adentrar na análise mais pormenorizada dos filmes e séries selecionados para uma abordagem mais ampla, creio ser interessante estabelecer um breve panorama. 1959 foi o ano de lançamento de A Casa dos Maus Espíritos, do genial William Castle. Ele nos apresenta um milionário que oferta uma grande quantia de dinheiro para um grupo de pessoas, tendo como foco a seguinte missão: passar uma noite inteira numa casa supostamente repleta de fantasmas, com passado sombrio envolvendo misteriosos assassinatos.

No famoso A Casa da Noite Eterna, de John Hough, um grupo de pessoas decide investigar se há entidades sobrenaturais na fantasmagórica “Hell House”. Com estreia em 1973, o filme foi lançado dois anos depois de A Casa Que Pingava Sangue, de Peter Duffell, narrativa de mistério sobre o sumiço de um ator de filmes de terror, investigado por um detetive que durante a análise e observação da situação, ouve quatro histórias sobre a tal casa do título. Em A Casa dos Horrores Mortais, de John L. Moxey, lançado em 1974, uma família se vê atordoada pelos mistérios que envolvem a casa onde mora, um local de estranhos acontecimentos. Depois que um possível comprador morre sem explicações, o grupo percebe que a casa é alvo de uma terrível maldição.

Com lendas e rumores que gravitam em torno de sua existência, Poltergeist – O Fenômeno, de Tobe Hooper, lançado em 1982, nos apresenta a típica família representante do american way of life, envolvida numa macabra onda de horror ao ter que enfrentar as presenças sobrenaturais que insistem em persegui-los e sua nova moradia. Sean S. Cunnigham, idealizador da franquia Sexta-Feira 13, decidiu assinar a produção de A Casa do Espanto, lançado em 1986, tendo como diretor Steve Miner, responsável pela condução de Sexta-Feira 13 parte 2, filmes que estavam na “crista da onda” na época. No filme, um veterano do Vietnã sobrevive a escrever histórias de horror, tendo como desafio futuro enfrentar o desaparecimento de seu filho e as demoníacas criaturas que habitam o seu lar.

Os anos 1990 foram marcados pelos já mencionados A Casa Amaldiçoada e A Casa da Colina, produções oriundas de grandes estúdios, mas também foi a “década arena” para diversos filmes de terror sobre maldições e casas assombradas. Um dos melhores é A Noite dos Demônios 2, responsável por retomar o mito de Angela (Amelia Kinkade), explorado . A direção de Brian T. Smith não se preocupa em nenhum momento em ser levado pela seriedade e investe num manancial de cenas de horror e humor diabolicamente insanas. Lançado em 1994, o filme é sequência de A Noite dos Demônios, de 1988. A trama é básica: jovens invadem a lúgubre Hull House, palco dos acontecimentos satânicos do primeiro filme. Libertam Angela e um reinado de terror se espalha pelos quatro cantos. A produção ganhou uma continuação monótona e deslocada em 1997, intitulada aqui no Brasil de A Casa do Diabo, mas na verdade deveria ser A Noite dos Demônios 3.

Apartamento 143, dirigido por Carlos Torrens, investe em telefonemas mudos, emissões de luz, objetos disparados de um lado para o outro sem explicação, bem como o desespero de uma família recém-alocada no apartamento. Lançado em 2012, o filme antecipou em um ano a trama de 1303 – O Apartamento do Mal, narrativa que nos demonstra que o barato pode sair caro. Na trama dirigida por Daniel Fridell, um apartamento com ótimo preço diante da localização sofisticada demonstra, em pouco tempo, ser um espaço menos interessante do que aparenta. Suicídios, eventos sobrenaturais e situações insólitas colocam a vida da protagonista em perigo.

Os filmes da franquia Atividade Paranormal, iniciados em 2007, também retratam pessoas comuns perturbadas por entidades sobrenaturais que insistem em tirar-lhes a paz. No primeiro filme, um casal percebe uma presença estranha em casa e decide registrar em vídeo, mas se deparam com o inesperado. Tal como o casal, os personagens de Sobrenatural, Sessão 9, A Mulher de Preto, A Mansão Macabra, O Solar Maldito, Água Negra, Assombrada Pelo Passado, A Casa do Cemitério, A Maldição da Casa do Diabo, A Casa dos Mortos, A Entidade, Evocando Espíritos, A Sétima Vítima, Os Inocentes, A Troca, 13 Fantasmas, O Solar das Almas Perdidas, Hotel da Morte, O Iluminado, Sete Almas, 1408, Não Tenha Medo do Escuro, A Casa dos Pássaros Mortos, Os Mensageiros, A Casa dos Sete Mortos e muitos outros.

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LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.