Plano Histórico #14 | A crise na Coreia do Norte: como chegamos e como estamos?

ANTECEDENTES

A Península da Coreia é uma região da Ásia Oriental que faz fronteira com a Rússia (apenas 19 km) e uma grande fronteira com a China (1416 km), que começou a apresentar fatores importantes para a História Contemporânea em 1905, quando o território foi ocupado pelos japoneses, no meio do entrave da Guerra Russo-Japonesa. Em 1910, o Japão anexou definitivamente o país, transformando-o em uma colônia, condição que permaneceria até o final da Segunda Guerra Mundial (1945).

No desfecho da II Guerra, os esforços do Exército Vermelho (União Soviética) e uma participação notável do Exército chinês ajudaram na “libertação” de toda a parte norte da Península Coreana, cabendo aos Estados Unidos cumprir parte do acordo “libertando” a parte sul do poder dos japoneses (já então aparecia a divisão simbólica no paralelo 38°). Separada em áreas de influência (norte e sul), a Coreia ficou sob administração Americano-Soviética até 1948, quando se estabeleceu um governo próprio em cada uma das partes.

A reunificação estava na pauta dos dois governos, mas o regime do norte, com aval da União Soviética, tomou a frente do processo e em 1950, invadiu o sul com a intenção de fazer com que a reunificação acontecesse sob a égide de um sistema socialista. É importante lembrar que tal movimentação estava em alta nesse canto da Ásia, basta lembrarmos que um ano antes, em 1949, a China tinha feito a sua própria Revolução Socialista.

A guerra chegou a um ponto crítico para a parte sul. Apenas um pequeno território (Pusan) resistiu aos ataques, até que os Estados Unidos, após decisão do Conselho de Segurança da ONU, tomou as dores e entrou na briga. Observando com atenção o mapa abaixo, o leitor pode perceber que na ofensiva das tropas estadunidenses, quase todo o norte foi invadido, chegando muito próximo à fronteira com a China. Mas então aconteceu o que ninguém esperava: a recém criada República Popular da China reagiu fez uma poderosa contra-ofensiva e empurrou as tropas da ONU novamente para o sul. Observe:

A linha vermelha lisa representa o primeiro ataque da parte norte da Coreia. A linha azul representa a contra-ofensiva das forças da ONU, e a linha vermelha pontilhada representa a contra-ofensiva da parte norte já com apoio da China.

Depois de três anos de conflito, um cessar-fogo foi acertado entre as partes. A rigor, a guerra não terminou, apenas ficou decidida uma pausa entre os embates e firmada a divisão entre os países, no já batido paralelo 38°. A China se tornou defensora dos interesses da Coreia do Norte, que também tinha apoio da URSS (estamos falando de 1953, em plena Guerra Fria). Por outro lado, os Estados Unidos injetaram pesados investimentos na Coreia do Sul, no mesmo estilo do que fazia no Japão e na Alemanha Ocidental, para tornar o país um contraste econômico de alto desenvolvimento tecnológico, uma posição invejada pelos regimes opositores. É evidente que isso tornou a Coreia do Sul uma nação com bom desempenho econômico, um futuro Tigre Asiático industrializado. A Coreia do Norte, por sua vez, se tornou uma ditadura comunista hereditária extremamente fechada, com foco diplomático unilateral, parco desenvolvimento social e investimentos massivos para o setor bélico e militar.

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OS ANOS 1990 E A ATUALIDADE

Na década de 1990 a Coreia do Norte passou a desenvolver o seu programa nuclear partindo do processo de enriquecimento de urânio até a transformação de um material explosivo-destrutivo (a bomba, propriamente dito), além da tecnologia para lançamento de mísseis. É difícil definir o exato  foco monetário e mineral que permitiu ao país dar início a esse projeto (lembramos novamente que estamos falando do regime mais fechado do mundo), mas hoje sabemos que isso foi possível através do mercado negro, mediante a redes internacionais de extração e enriquecimento de urânio (ou pelo menos o seu primeiro refino) e desenvolvimento de reatores e outros armamentos, o que permitiu à Coreia do Norte fabricar armas baratas, vender para esses países no mercado negro e obter matéria-prima e outros favores para desenvolver o seu programa.

Em 1994, o país realizou o seu primeiro teste nuclear, trazendo pela primeira vez as discussões em torno de sua capacidade de fogo e possível ameaça à comunidade internacional. Desde então, o governo passou a investir cada vez mais no programa, a despeito das necessidades da população do país, que fica à margem dos interesses. Estamos falando de um povo pobre e de um país que tem falta energia em diversos locais e racionamento em outros. Parte da população é subnutrida e faltam programas satisfatórios de saúde e distribuição de medicamentos, como aspirina, por exemplo.

Exército norte-coreano

Sabe-se que a Coreia do Norte (desde dezembro de 2011 liderada pelo inconsequente Kim Jong-un, nascido em 1983, filho e neto de ditadores) tem algo em torno de 18 a 20 bombas e um Exército numeroso pronto para entrar em ação. Esse Exército grande à disposição do governo é devido uma estratégia política, uma vez que o soldado norte-coreano tem regalias que a população comum não tem, logo, é uma questão de status e melhores condições de vida entrar para a vida militar.

O mais recente míssil dos norte coreanos possui um alcance de cerca de 6000 Km, o que dá um alcance considerável, em caso de um ataque aos Estados Unidos ou países aliados.

Por um lado, sabemos que essa posse nuclear de pequeno porte tem funcionado bem como chantagem nuclear e mesmo como manutenção de um cabresto na própria população norte coreana, que teme o governo e recebe informações que o mundo também o  teme (as notícias são severamente manipuladas pela censura, como em qualquer ditadura). A questão não deixa de ser verdade, e a própria Coreia do Norte batalha internamente para manter essa tensão, investindo quase 30% de seu mirrado PIB no setor militar.

Com o apoio da China (mesmo que não seja 100% do tempo), a Coreia do Norte consegue escapar de uma atuação mais pesada da ONU sempre que um novo teste é realizado. Pyongyang justifica seus atos apontando os tratados e acordos que não foram cumpridos do lado Ocidental, como pro exemplo, a não retirada e intensificação de tropas estadunidenses na Coreia do Sul e no Pacífico, como previa o cessar-fogo assinado ao final da Guerra da Coreia, em 1953 (e nesse ponto, convenhamos, o país não está mentindo). Todavia, a essa altura do campeonato, a Coreia do Norte sai à frente no que se refere ao descumprimento de acordos diplomáticos. Se pararmos para pensar na pequena nação “acuada” e sob o governo de um líder sem experiência política ou militar, é possível entender a neurose para exibição de força, e por outro lado, pensar nas ações dos Estados Unios, que sempre protelaram a retirada de suas tropas e marinha (com poder nuclear) dos países vizinhos (Japão e Coreia do Sul). O ponto máximo da tensão veio com a recente violação de espaço aéreo que os Estados Unidos fez, sobrevoando a Coreia do Norte com antigos aviões de guerra.

Obama tem renovado suas alianças com a Coreia do Sul.

Obama tem reafirmado suas alianças com a Coreia do Sul.

De todo modo, unicamente por conta da China, a ONU e os Estados Unidos estão atuando em um regime de pressão sobre o seu atual inimigo, mas a chantagem nuclear tem prevalecido, e é uma bola de neve: uma bomba é lançada, a ONU tenta fazer algo, a China barra, a Coreia do Norte sabe que não vai ser punida, pede favores de qualquer tipo para os países estrangeiros, essa ajuda acaba em certo tempo e um novo teste é realizado, com uma nova ameaça, e tudo se repente.

Depois dos testes realizados em fevereiro deste ano (2013), o Conselho de Segurança da ONU (do qual a China faz parte) apertou mais o cinto de relações diplomáticas entre os países vizinhos à Coreia do Norte. Essas novas sanções culminaram com a ameaça de Pyongyang aos Estados Unidos e divulgação de uma prontidão do Exército para ataque a qualquer momento, o que gerou notas de alarme de Ban Ki-moon, Secretário Geral das Nações Unidas. As relações diplomáticas sempre difíceis, parecem agora condenadas a cair no mesmo vale: o da não-resolução. Desde que o ex-presidente Bush colocou a Coreia do Norte no chamado “Eixo do Mal”, percebemos um retrocesso nos possíveis diálogos entre as nações ligadas a todo esse impasse, e se já era difícil à época, imagine agora.

O governo Obama, que guinou o foco geopolítico do Oriente Médio para a Ásia, deixou isso muito claro ao reafirmar alianças antigas e recentes no continente (inclusive as que seguiam no automático, como foi o caso de sua visita a Israel, no último 20/03/2013, quando disse que a aliança dos Estados Unidos com o país era “inquebrável”). Uma briguinha recente com a China, em decorrência de cyber ataques aos computadores do Pentágono foi um dos fatores para uma posição mais crítica do presidente estadunidense em seus últimos pronunciamentos. Se por um lado a China usa a Coreia do Norte como uma barganha geopolítica, os Estados Unidos tem deixado claro, através de seus sobrevoos, mobilização de tropas e afins, que está apto a dar uma resposta imediata, e com isso, pretende trazer para perto de si o Japão e a Coreia do Sul, cantando a velha música do “confie em mim”.

Kim Jong-un, ditador norte-coreano

A polaridade parece mesmo fincar-se entre China e Estados Unidos, tendo a Coreia do Norte como meio de campo. Mas… e quanto a guerra?

Pessoalmente, acredito que a certeza de uma guerra é bem próxima do zero, mas não descarto o que uma nação com poder nuclear liderada com um inexperiente pode fazer. Entretanto, lembremos que não estamos na era de pequenos canhões e armamentos de força e explosões locais. Armas nucleares são de longo alcance e possuem efeitos catastróficos se forem usadas, e não se enganem: todos os países sabem disso. Desse modo, é possível afirmar com certeza que a guerra em si não interessa a nenhum dos lados, se bem que os Estados Unidos, vendo o apoio da China para governos polêmicos e suas sanções bem específicas no Conselho de Segurança, mais o seu crescimento econômico, não iria achar tão ruim se surgisse um modo de escantear os vermelhos do cenário mundial.

Uma guerra, certamente, destruiria a Coreia do Norte, e tanto o governo do país sabe disso, que toda a crise presente foi baseada em retórica, com definições de lugares de ataque e tudo o mais. Além disso o atual governo norte-coreano é bastante contraditório, tendo discursado, no início, sobre uma possibilidade de reunificação das Coreias, e que a paz deveria reinar na região, vejam só… A probabilidade de uma guerra, portanto, é ínfima, mas a possibilidade, infelizmente, existe sim.

Estaremos de olho no desenrolar desses eventos, e voltaremos aqui para comentar sobre possíveis alterações nesse cenário de tensão internacional pelo qual passamos. Até o próximo Plano Histórico!

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.