Plano Histórico | O Cinema Nazista

Uma das primeiras providências de Hitler no poder foi “limpar” a indústria cinematográfica da Alemanha o mais rápido que pode. Centenas de pessoas que não se encaixavam no ideal político ou racial do Partido Nacional Socialista não estava apto para comandar a sétima arte do III Reich. Um massivo êxodo de cineastas e técnicos judeus e dissidentes políticos deixou a indústria cinematográfica alemã a mercê de realizadores em sua maioria medíocres, que nos anos seguintes fariam do documentário de propaganda, do melodrama e da comédia fácil, alguns dos “melhores meios de influenciar as massas”, como dissera Goebbels, à época.

Nos primeiros anos do nazismo, ainda circulavam filmes de realizadores húngaros, austríacos e alemães que não estavam filiados ao partido. Talvez uma pequena esperança ainda existisse, mas os acontecimentos dos anos seguintes mostrariam o contrário. É bom lembrar, que antes da Segunda Guerra, a Alemanha tinha um enorme influência cultural na Europa. O país esteve diretamente ligado aos pais do cinema, e foi um dos desenvolvedores e divulgadores do som no cinema, algo que se tornou popular no início dos anos 1930. O primeiro filme falado na Alemanha foi O Anjo Azul (1930), filme do austríaco Josef von Sternberg, com Marlene Dietrich no elenco. Vale lembrar que tanto o diretor quanto a atriz emigram para os Estados Unidos fugindo da política empreendida pelo partido nazista, e que O Anjo Azul não tem nenhuma conotação nazista.

Em 1933 surge o primeiro filme com verdadeiro apoio do partido, Mocidade Heroica, dirigido por Hans Steinhoff, diretor que se tornaria um realizador admirado e solicitado pelo partido. No mesmo ano, temos Refugiados, dirigido por Gustav Ucickly (filho único do pintor Gustav Klimt), filme que não aborda diretamente o ideal nacional-socialista, mas foi elogiado por Goebbels, porque demonizava os bolcheviques. É válida aqui a observação de que o filme data do período antes do Pacto Germano Soviético. Esse tipo de filme era muito comum na Alemanha antes da assinatura do pacto (1939), e voltou a ser depois da violação, em 1941.

Em 1934 foi aprovada a “censura prévia”. Nenhum filme poderia entrar em circulação antes de passar pelo crivo do partido, e este foi o primeiro motivo que fez a produção cinematográfica do país cair pela metade, se compararmos com a produção de uma década antes. As principais companhias do país, UFA, Tobis e Bavaria, são completamente dominadas pelo partido em três anos, e passam a seguir o modelo nacional-socialista imposto por Goebbels, ou seja, pela primeira vez na história, uma produção nacional inteira se volta para os filmes de propaganda.

Observa-se uma onda de “filmes-resgate” na Alemanha. Presidentes e imperadores ganham representações de momentos de seus governos ou suas vidas, sempre abordados pelo viés da valorização do ser ariano, do desprezo para com o “velho”, do instigar a juventude hitlerista, da manipulação ideológica das massas criando uma visão geral de superioridade e invencibilidade. Uma das roteiristas mais importantes desse período de mudanças foi Thea von Harbou, ex-esposa de Fritz Lang, e roteirista de obras essenciais do cinema como Metropolis (1927) e M o Vampiro de Dusseldorf (1931). A roteirista filiou-se desde o início ao partido nazista, o que acelerou o processo de divórcio com Fritz Lang e os caminhos opostos que seguiram, com o exílio do diretor nos Estados Unidos depois da censura de O Testamento do Dr. Mabuse (1933), considerado uma crítica ao governo.

Das inúmeras obras antissemitas, as mais populares foram O Judeu Süb (de Veit Harlan) e O Judeu Eterno (de Fritz Hippler), ambas de 1940. A essas se juntaram os filmes de educação para guerra e os documentários nacional-socialistas, de onde se destaca Leni Riefentahl, com os filmes O Triunfo da Vontade (1935) e Olympia (1938). Ao mesmo tempo, com a proibição dos filmes hollywoodianos no país, surgem os pseudo-westerns, e um sem-número de aventuras exóticas, melodramas, comédias sentimentais e operetas. Nos melodramas, destaca-se o diretor Detlef Sierck, um gênio no trabalho com fortes dramas femininos e familiares. O regime nazista começa a pressionar o diretor, cuja última obra na Alemanha foi La Habanera (1937). Ao sair da Alemanha, Detlef Sierck ainda fará dois filmes na Europa, um na Suíça e outro na Holanda. Com o início da guerra, em 1939, o diretor escolhe os Estados Unidos como pátria e muda seu nome para Douglas Sirk. O primeiro filme do diretor nos Estados Unidos mostra muito bem o tipo de visão política que o fez fugir do Velho Continente: Hitler’s Madman (1943), uma propaganda antinazista.

Até pouco antes da guerra, uma raridade de diretores não nazistas ainda faziam seus filmes na Alemanha. Ao passo que os acordos políticos eram descumpridos por Hitler e o enrijecimento do regime acontecia, as últimas levas de emigrações começaram a acontecer. Porém, há registros de diretores e artistas que passaram quase invisíveis pelo regime, mesmo não sendo ligados ao partido. Suas obras divertidas ou casuais foram consideradas aceitáveis pelos sensores, e evitaram muitas perguntas.

Concluímos que ao falar de um “cinema nazista”, estamos trabalhando com um rótulo complicado, porque é muito difícil mapear absolutamente todas as produções do período 1933 – 1945, bem como ter acesso a toda lista de realizadores e suas concepções políticas. O fato é que o cinema alemão teve uma queda gigantesca durante o período nazista, seja em produção seja em qualidade, e que o teor da maioria dos filmes ali produzidos (pelo menos os que se tem notícia) eram antissemitas, anticomunistas ou pró-nazistas, isso, a despeito dos “artistas disfarçados”, com obras ingênuas e apolíticas, artistas que assumirão a maior parte da produção alemã do pós-guerra, embora antigos realizadores nazistas ganhem espaço nessa indústria. Por uma questão ideológica, os antigos nazistas serão preferidos aos novos e antigos realizadores socialistas na Alemanha pós-1945. Mas isso é assunto para uma outra coluna.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.