Plano Histórico #15 | Um Século de Guerra Vol.1: A Nova Ordem (1900 – 1932)

O primeiro volume da série Um Século de Guerra, lançado aqui no Brasil pela Focus Filmes, é um dos mais frustrantes e caóticos documentários sobre as mudanças ocorridas em toda a comunidade internacional no início do século XX.

Escrita, dirigida e produzida por Edward Feuerherd, a série de docs tem por objetivo fazer um apanhado dos principais eventos bélicos que marcaram o período de 1899 a 1999, o que na verdade, é um período que vai do último ano do século 19 ao penúltimo ano do século 20. Como não consegui informações seguras na internet sobre o lançamento original da série, vou me ater à organização feita pela Focus Filmes, uma forma de dar uma visão ampla para o leitor e contextualizar melhor a empreitada de Feuerherd.

Com uma divisão questionável mas aceitável em termos gerais da proposta, temos assim agrupados os temas centrais dos cinco DVDs da série:

  1. A Nova Ordem (1900 – 1932);
  2. Fascistas (1933 – 1945);
  3. Incêndio na Mata (1946 – 1959);
  4. Dominó (1960 – 1973);
  5. Guerra Sem Fim (1977 – 1999).

Cada um desses títulos constituem um volume. A nossa atenção nesse presente texto, se voltará apenas para o primeiro capítulo, A Nova Ordem, que de maneira completamente atrapalhada, sem padrão histórico lógico e organização temática, coloca num mesmo balaio os seguintes eventos:

  • a) Guerras Hispano-Americana e Filipino-Americana;
  • b) Assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando;
  • c) Início da 1ª Guerra Mundial, até a Batalha de Verdun;
  • d) Revolução Mexicana (ou o substrato ou qualquer coisa que o diretor achou que valeria a pena colocar sobre o evento, uma forma de ligar de modo canhestro a entrada dos Estados Unidos da 1ª Guerra Mundial – percebam o caminho tortuoso adotado pelo roteiro!);
  • e) Pancho Villa contra a América;
  • f) Conflitos EUA x México;
  • g) Tratado de Brest-Litovski / Queda do Czar Nicolau II, na Rússia / Duma / Governo Provisório e as duas Revoluções de 1917, tudo num mesmo pacote e trabalhado aos atropelos;
  • h) Volta à 1ª Guerra Mundial, no período de 1917 ao final da guerra, em 1918;
  • i) Confusa abordagem dos 14 pontos do Presidente Wilson / confusa abordagem do Tratado de Versalhes / Confusa abordagem das forças estabelecidas após o final da 1ª Guerra.

Como se vê, a organização dos eventos parece ter sido feita apenas com um critério absurdo de “contexto amplo”, mas que na prática, não funciona. O engraçado é que a série se dispõe a cercar os grandes conflitos do século XX, mas, pelo menos nesse primeiro volume, acaba não abordando nada de maneira completa fora a 1ª Guerra, o que põe a perder toda a ideia original.

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Temos que ter em mente que citar um evento não é a mesma coisa que analisar um evento, e citar é justamente o que Edward Feuerherd faz com tudo o que não seja o “Primeiro Grande Conflito”. Para melhores efeitos finais, o diretor deveria ter feito um primeiro filme apenas com os os embates que não fossem a 1ª Guerra e deixar os ganchos necessários para um outro filme, onde ele se ocuparia apenas do notável conflito.

Além dessa organização falha, Feuerherd força uma série de momentos históricos para caber dentro de sua estranhíssima concepção de análise, citando fatos que não fazem absolutamente nenhuma diferença para o enredo da guerra ou da geopolítica europeia/mundial daquele momento. Eu não rejeito as abordagens da micro-história, mas o que Feuerherd faz aqui é “nano-história”, ocupando-se muito mais de batalhas, número de soldados que atravessaram uma ponte perdida no meio de uma cidade esquecida num canto remoto da Bélgica na manhã nebulosa e fria do dia tal… do que em trazer material, comentários, documentos e coisas realmente decisivas para o evento em questão.

Aliás, o foco de todo o documentário é justamente esse: uma história belicista, uma história que se assemelha a um diário de guerra ou a um relatório de campanha. Deixa de ser interessante? Não necessariamente. Alguns dados servem para nós, historiados, que conhecemos mais a fundo o evento, adicionarmos conteúdo numérico-gráfico ao que já sabemos. Mas em História, sabemos que número de mortos, tamanho de balas e tanques usados, diâmetro da boca do canhão e lista dos generais, comandantes e número de tropas que comandaram são detalhes quase dispensáveis. Nós já superamos esse tipo de abordagem como foco principal há muito tempo simplesmente porque eles não informam, apenas nos enchem de informações vazias que não fazem o menor sentido sem o contexto que deveria estar lá, mas não está.

Por fim, há uma grande deslealdade do diretor em repetir imagens de arquivo em períodos completamente distintos, certamente enganando muitos espectadores desatentos ou sem grande conhecimento de História. Podemos ver os mesmos filmes de soldados na Guerra Filipino-Americana, na 1ª Guerra, na Revolução Mexicana e na Revolução Russa! O pior é que em dado momento do roteiro, essas imagens são colocadas como demonstrativos diretos do que está sendo narrado. Mas como pode uma tropa ou um soldado ter aparecido exatamente na mesma condição em conflitos tão diferentes? Falsidade ideológica e manipulação até criminosa de dados para não se prolongar muito num certo tipo de dado imagético na tela.

Para não dizer que o documentário é de todo descartável, os primeiros minutos de filme sobre a 1ª Guerra Mundial são realmente interessantes, e alguns curtas gravados em campos de batalha também, basta que saibamos identificar se o diretor está mentindo para nós ou não, repetindo imagens ou colocando certas cenas que não pertencem àquele conflito apenas para alimentar sua vontade de acelerar o ritmo da montagem para o público.

E sobre o DVD da Focus Filmes, há também uma série de problemas. Em primeiro lugar, uma grande quantidade de termos traduzidos quase de brincadeira. Eu não cheguei a comentar, mas o documentário é dividido em dois grandes capítulos, com pequenos “atos” dentre de cada um (o que é um erro abominável, seja ele da distribuidora ou do diretor). O primeiro capítulo é chamado de A aparência das coisas que se aproximam, e o segundo de Revolução e redenção. Lembrando bem dos subcapítulos que citei alguns parágrafos acima, o leitor perceberá que essa divisão é uma verdadeira piada de mal gosto. E ainda é importante dizer que um dos subcapítulos foi traduzido como “Vou de Táxi”! A imagem possível de soldados jovens em um campo qualquer no interior do Império Áustro-Húngaro dançando e cantando a famosa musiquinha da Angélica é tão bizarra quanto esse tipo de tradução para um capítulo de documentário sobre Guerra.

A distribuidora ainda deixou passar alguns erros gramaticais na tradução e erros de digitação, como falta de letras e letras trocadas. E também é importante citar que entre um capítulo e outro, e, no meio de alguns subcapítulos, temos a infame propaganda da distribuidora original da série junto com os créditos de produção, como se o filme tivesse acabado! Eu mesmo parei o DVD e só depois lembrei que tinha lido 108 min. na capa, o que queria dizer que eu tinha mais uns 58 min. de filme!

Se você tem muito tempo livre e tem curiosidade de ver o documentário, não fará mal assistir, mas caso não tenha muito tempo livre, passe longe. E se você for professor, não caia na besteira de querer exibir esse filme para seus alunos, caso contrário você nunca mais vai conseguir fazê-los entender o que é 1ª Guerra e vai dar um nó nos neurônios dos coitados, traumatizando-os para todo o sempre.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.