Plano Polêmico #14 | #OscarsSoWhite: É Esse Mesmo o Problema?

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Pelo segundo ano consecutivo, nenhuma das quatro categorias de melhor ator e atriz no Oscar tem um concorrente negro. E, pior, Creed: Nascido para Lutar tem diretor e protagonista negros, mas quem concorre é o coadjuvante branco e Straight Outta Compton – A História do N.W.A., tem diretor e não um, mas cinco protagonistas negros, mas quem concorre são os dois roteiristas brancos.

Conclusão automática: a Academia é obviamente racista.

Isso só na mente de gente pequena e reducionista, claro. A Academia é racista? Gente, a presidente da Academia desde 2013 – Cheryl Boone Isaacs – é negra (a primeira negra e terceira mulher a ocupar o cargo). Ela foi votada e, então alçada ao cargo pelo membros da Academia que, segundo estatísticas não oficiais (a Academia não revela a lista de membros) demonstram, é composta por 93% de brancos, com uma diretoria – chamada de Board of Governors – composta de 51 membros, todos brancos. Se alguns membros da Academia são racistas? Provavelmente sim, mas isso não faz dela uma instituição racista. Essa conclusão é bobalhona e desvirtua a discussão da questão completamente.

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Cheryl Boone Isaacs tem um árduo caminho pela frente.

No entanto, isso não quer dizer, de forma alguma, que a questão representada pela hashtag #OscarsSoWhite (ou, em tradução livre “Oscar é Tão Branco”) é desimportante ou inconsequente, mas ela precisa ser compreendia em todas as suas dimensões e facetas para que a luta pela diversidade faça sentido e tenha frutos. Spike Lee e Jada Pinkett-Smith, dentre outras personalidades do meio que já anunciaram o boicote à cerimônia de entrega dos Oscar, têm todo o direito de assim fazer e, ainda que essa atitude radical não seja a solução em minha humilde opinião, ela ajuda na problematização da questão e em sua discussão mais ampla pela sociedade. Sem gente com vontade de radicalizar (pacificamente), a imprensa não dá a importância devida e o assunto morre. Essa é a triste verdade.

Tanto é assim que, não só o movimento recomeçou (ele originou-se de verdade no ano passado) e a imprensa abraçou a causa, que Cheryl Boone Isaacs soltou um pronunciamento e, no dia 22 de janeiro de 2015, a Academia, depois de deliberação noturna, soltou regras para aumentar a diversidade na composição de seus membros e reduzir o poder de voto de membros inativos na indústria. Nada como envergonhar uma entidade para que ela tome atitude, não é mesmo?

Mas – e é aí que o problema realmente começa – maior diversidade nos quase 6 mil membros da Academia, algo que ainda demorará a ser alcançado de maneira efetiva, não deve, ou melhor NÃO PODE significar assim, automaticamente, o aumento de indicados não-brancos à premiação.

Calma. Respirem antes de sair me xingando.

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Hattie McDaniel e seu Oscar histórico.

Pensem aqui comigo. Em tese, as indicações são dos melhores atores e atrizes e não dos melhores atores e atrizes de uma determinada etnia. Alguns rirão e dirão que as escolhas são subjetivas, que são políticas, que são erradas e essas pessoas estarão completamente corretas. Sim, mas a escolha dos melhores em atuação NUNCA foi uma ciência exata e depende muito do momento, do sucesso de um filme e de outros  fatores que vão além da atuação. Essa é a verdade e, no frigir dos ovos, é inevitável e faz parte do jogo. Portanto, voltando ao que disse: as escolhas são dos melhores, independente da etnia.

Com base nesse raciocínio que, apesar de simplista é o correto, a maior diversificação da composição da Academia (mais mulheres, mais negros, mais latinos, mais asiáticos, mais gays, mais transsexuais, pouco importa) jamais poderá significar, automaticamente, que mais atores e atrizes não-brancos serão indicados. Se isso acontecer assim, sem mais nem menos, quer dizer que cada um estará votando de acordo com sua etnia, gênero ou orientação sexual, destruindo de vez o espírito da premiação. Mais atores, diretores e produtores negros na Academia não deveria gerar mais atores e diretores negros indicados ao Oscar, assim como mais mulheres não deveria significar mais mulheres indicadas.

Ah, mas já há categoria de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante; então o problema é mesmo só étnico! Isso, continue achando essa besteira inominável… Digam-me quantas mulheres já foram indicadas e quantas já ganharam o prêmio de Melhor Direção. Pensem aí, vai. Vou facilitar e dar logo a reposta: apenas quatro foram indicadas (Lina Wertmuller, Jane Campion, Sofia Coppola e Kathryn Bigelow) e apenas uma (Bigelow) ganhou. Então sim, há problema aí também.

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Sidney Poitier e seu Oscar em plenos anos 60.

Óbvio que, considerando que já houve 87 cerimônias de entrega do Oscar, isso não é absolutamente nada, o mesmo valendo para os indicados não-brancos a categorias de Melhor Ator e Atriz. Mas, justiça seja feita, em pleno Apartheid de fato que existia nos EUA nas seis primeiras décadas do século passado, é com júbilo que constatamos que Sidney Poitier levou o Oscar de Melhor Ator em 1963 (uma das décadas mais violentas em termos raciais por lá), depois de ser indicado também em 1958. Mas mesmo antes de Poitier, Dorothy Dandridge foi indicada à Melhor Atriz em 1954 e, claro, Hattie McDaniel foi indicada e ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante em pleno 1939.

Isso é suficiente? De novo e eu já estou me repetindo aqui: ÓBVIO QUE NÃO.

No entanto, é uma mostra que a Academia em si não é racista e pensar o contrário é ter uma visão maniqueísta da coisa. Mas o fato de a Academia só ter indicado relativamente poucos não-brancos para os prêmios de Melhor Ator e Atriz (e também em outras categorias importantes como Diretor e Roteirista) é sim um sintoma de um problema muito, mas MUITO maior, mas que está longe de ser resumido a #OscarsSoWhite.

Mais uma vez, pensem aqui comigo: se, em um universo X de filmes oscarizáveis (por “oscarizável”, leia-se filmes com chances de entrar na competição, ou seja, nada com o Adam Sandler, por exemplo), 90% for composto de “filmes brancos”, ou seja, filmes cujo elenco principal é branco, a lógica matemática dita que os brancos terão mais chances de ser indicados. Reparem que eu apenas “chutei” a percentagem acima, mas arriscaria dizer que não devo ter errado muito. Assim, dentro do material disponível para a Academia escolher seus indicados, os atores são todos brancos como a neve e não diversos como deveriam em tese ser. Claro, haverá os 10% de “filmes não-brancos”, mas que serão esmagados sob o peso dos outros, além de matematicamente serem a minoria, com menos chance, portanto, de serem indicados. E o resultado é esse que vimos ao longo de 87 anos de Oscar.

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Sensacional, mas o problema só será resolvido quando a cor da pela não for ditada pelo papel.

Se a oferta de filmes oscarizáveis com personagens relevantes vividos por atores não-brancos não aumentar, então a diversificação na composição da Academia pouco importará, pois, partindo da premissa que estabeleci que o voto é no melhor e não no “melhor negro” ou “melhor latino” ou “melhor asiático”, os brancos continuarão dominando o cenário. Por isso eu disse que o Oscar é apenas um sintoma do problema; é como a febre que bate para indicar que um problema maior existe por detrás.

E o problema é a oferta de papéis para atores e atrizes não-brancos. E eu ainda iria além: o problema é a oferta de papéis para atores e atrizes não-brancos em filmes em que a etnia não é fator determinante. Sim, quero muito ainda ver filmes como 12 Anos de Escravidão e Django Livre, mas seria ainda mais interessante continuar vendo filmes como O Protetor e Star Wars: O Despertar da Força, em que a escolha dos atores não se deu em razão de ditames do roteiro em relação à cor de sua pele e sim pelo ator e ponto final.

Reparem que não falo, aqui, de papéis em quaisquer filmes, mas filmes oscarizáveis. Assim, franquias como as de Tyler Perry não entram nesse cálculo. Há que haver papéis diversificados que abracem a diversificação da raça humana e não apenas filmes mirando um determinado grupo étnico como costuma ser os filmes de nicho de Perry.

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A triste realidade.

Mas então porque a Indústria do Cinema não oferece mais papeis importantes a atores não-brancos? Finalmente, então, chegamos ao ponto nevrálgico da questão.

Quando Êxodo: Deuses e Reis estava para ser lançado, muita gente começou a estranhar a ausência de atores negros para viver personagens que deveriam ter pele escura, por uma simples questão histórica: o filme se passa no Egito Antigo e a etnia era diferente da de brancos britânicos. Ridley Scott, quando indagado sobre o whitewashing, respondeu com muita franqueza e talvez um pouco de falta de tato:

Eu não posso montar um filme com esse orçamento, onde eu dependendo de vantagens fiscais na Espanha, e dizer que meu ator principal é Mohammad isso-e-aquilo de tal-e-tal. Eu simplesmente não obterei o financiamento. Assim, o assunto nem vem à tona.

Não revirem os olhos, nem descartem de plano o que Scott disse. Ele é um veterano da Sétima Arte e não é conhecido por ser preconceituoso. Seu desabafo me pareceu sincero.  E notem que ele não disse que não  quer contratar atores não-brancos, mas sim que a indústria como um todo tem problemas com filmes de grande orçamento + atores não-brancos. Parem e pensem e reparem como ele realmente tem um semblante de razão. Tentem voltar no tempo 10, 20 anos para listar filmes oscarizáveis ou mesmo super-blockbusters com personagens centrais negros (ou que não sejam caucasianos). Pensem na trilogia O Senhor dos Anéis, pensem na Trilogia Prelúdio de Star Wars, pensem nos quatro filmes da franquia Transformers, pensem até mesmo na franquia Velozes e Furiosos. Não estou dizendo que não haja não-brancos nestes filmes, mas sim que os protagonistas são todos brancos (antes que venham levantar a mão e apontar que Vin Diesel não é branco, notem que o ator é,  no máximo, de etnia misturada, já que a ascendência de sua mãe é caucasiana até a raiz, composta por britânicos, escoceses e alemães e seu pai é desconhecido). Das dez maiores bilheterias do mundo até o momento, apenas Avatar e O Despertar da Força têm não-brancos em protagonismo e, mesmo assim, no caso de Avatar, a única negra protagonista foi pintada de azul, o que significa dizer que, até bem pouco tempo atrás, só havia UM filme de grande calibre com protagonista negro. Uma lástima.

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Um ótimo começo!

E isso porque estou reduzindo meus comentários à etnia negra, pois ela sozinha nem de longe representa de verdade a multiplicidade de etnias que há por aí ou qualquer outro tipo  de minoria. Em outras palavras, a Indústria – e não estou falando apenas de Hollywood, pois Scott menciona a Espanha como investidora e a barreira étnica que lá também existe – é ainda fechada à diversificação. Falo em absolutos, mas esses absolutos, CLARO, comportam exceções, e várias delas, mas enquanto a regra for a existente, o problema persistirá.

Mas, afinal, como o problema pode ser resolvido?

Essa pergunta não tem resposta fácil, pelo menos não ainda. Já que a presente coluna tem como título Plano Polêmico, e se eu dissesse que a “cura” para o problema passa, na verdade e em primeiro lugar por nós mesmos? Sim, eu, você, seus amigos e sua família. Se a Indústria percebe que existe uma resistência a filmes protagonizados por não-brancos, talvez ela tenha uma matemática por trás. Talvez ela tenha percebido que, historicamente, filmes com brancos no protagonismo faturam mais do que filmes com não-brancos no protagonismo e, se for isso mesmo, talvez o problema esteja na ponta de cá e não na de lá, não é mesmo?

E de forma alguma estou afirmando que filmes brancos ganham mais dinheiro do que filmes não-brancos, pois seria como tentar responder àquela pergunta milenar se “Tostines é fresco porque vende mais ou se vende mais porque é fresco”. Afinal, se a Indústria não aposta em filmes não-brancos como aposta em filmes brancos, dificilmente saberemos se há mesmo falta de “aderência” a filmes não-brancos no mercado. Alguns poderiam argumentar que a prova de que há aderência é o recente Star Wars, mas o sucesso do filme, por melhor que seja, não prova muita coisa, já que o “selo” Star Wars vende absolutamente qualquer coisa (vide a Trilogia Prelúdio…).

Concluindo o meu pensamento:

(1) A Academia não é racista. É, apenas, a ponta do iceberg, o sintoma talvez mais saliente para uma doença bem maior;

(2) Diversificar a composição da Academia é  algo que precisa acontecer, MAS NÃO como forma de se aumentar a diversidade dos indicados ao Oscar;

(3) A Indústria de Cinema – toda ela – tem sérios problemas para criar filmes inclusivos, diversificados;

(4) Nós podemos também ser parte do problema e, portanto, da cura.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.