Plano Polêmico #16 | Os E-sports Vieram pra Ficar…e Eu Lamento

Preconceituoso, invejoso, recalcado, saudosista, mente fechada…ou simplesmente estúpido. O rol de adjetivos carinhosos que acompanha uma opinião politicamente incorreta vai longe e, confesso que em algum grau, passo por essas caracterizações durante um único dia mal dormido ou de pura convivência social excessiva. Como é sabido, todavia, que qualquer intenção de debate com quem defende a posição “do bem”, a posição da moda – chame como quiser – deve começar com uma apresentação de “bom mocismo”, permitam-me mostrar que não caí no tema dos e-sports – que nominho… – de paraquedas.

Minha cartilha de bom moço começa com os campeonatos de Fifa, que já foram de Winning Eleven e também do finado e saudoso International Super Star Soccer. Bem se sabe da mania universal dos campeonatinhos que colocam amizades em risco. Aqui em casa a coisa tinha lá seus arabescos: quem ficava fora do jogo tinha a obrigação de narrar e comentar, criar seus bordões, fazer piadas com os nomes de jogadores obscuros e anotar as estatísticas de gols e assistências, preparando a liturgia do restante do campeonato. A emoção já foi tanta que participei de um campeonato do game em 2012, com razoável desempenho de duas vitórias e uma eliminação nos pênaltis após empate em zero a zero. O sonho? Tornar-se jogador de futebol, jogar na vida real com os bonecos virtuais. Mas isso já está parecendo uma coluna esportiva. Paremos por aqui.

Meu bom mocismo também se arriscou em outras searas, devo dizer. Gastei horas em FPSs diversos, cogitando formações de equipes e treinos decentemente marcados, algo que não foi para frente pela preguiça e inconstância de horários – e baixa qualidade técnica, é verdade. Tive minha fase de empolgação com Street Fighter também. Vibrei com Daigo e pesquisei o suficiente para ficar craque na teoria, mas quando a prática é solitária ela logo mingua – e meus amigos nunca viram sentido no “jogo de amassar botões”, infelizmente. Junta-se isso ao gosto por jogos fechados, single-player com belas histórias, a aposentadoria de qualquer ímpeto que me fizesse ir atrás de competições chegou cedo e eu a abracei. Até admirei MOBAs em doses homeopáticas, mas nunca entendi o vício por um game sem roteiro e sem sentido – não me batam ainda, por favor. Eis que o noticiário – televisivo e webico – veio me assombrar sem aviso prévio. Uma assombração cômica, devo dizer.

Nem arena de futebol, nem telão de cinema

O que despertou a centelha de sentar e escrever essa pequenina provocação foi, em um intervalo de jogo de futebol, um campeonato ao vivo de Street Fighter em um canal esportivo com “especialistas”, “informações”, “estatísticas” e tudo que a “comunidade profissional” quer ver. Uso aspas em excesso por terem sido as expressões faladas com seriedade invejável a Casagrande e companhia. Mas o fato é que não pude deixar de rir e gargalhar com minha mãe ao lado. Sim, minha mãe, a senhora que alugava fitas, barrava esperneios e até se arriscava em algumas fases de Donkey Kong, tudo para sossegar uma criança a um passo de descobrir um dos vícios mais agradáveis de sua vida. Mal poderia imaginar, essa e tantas outras senhoras, que jogadores seriam chamados de atletas e tratados como superstars, quase que encarnando cópias risíveis de cristianos ronaldos, com braveza em derrotas e gozo narcísico em vitórias.

Não citei minha mãe para tornar o artigo sentimental, mas porque percebi que havia algo de errado naquilo que se desenhava em minha frente – se comigo, com o jogo ou com os jogadores, ainda não sei dizer. Meu instinto nostálgico que beira o fatalismo vê com maus olhos um cenário onde notícias de games estão na sessão de esportes, transmissões de campeonatos tomam a grade horária de canais de esportes, jogadores – dos tiozões aos nerdões que sofrem do excesso de acne, sem preconceito – sendo chamados e entrevistados como atletas e, principalmente, jogos de vídeo games tomando uma proporção profissional, sendo definidos como esportes e se tornando, digamos…coisa de gente grande.

A seriedade no olhar de um “ex-atleta” “treinando”

Agora é a hora de você me xingar de velho ultrapassado… Vamos ao meu lamurioso desabafo.

Meu foco ao começar a escrever no Plano Crítico eram os games, então tire logo da cabeça o parco pensamento que relega games às crianças. Eu sei que game não tem preconceito com idade. Só não acho que seja uma coisa séria. O que quero dizer é que, mesmo sendo coisa de gente grande, um game é…um game. E “só” – o que já é muito, eu sei. É lúdico, lírico nos melhores casos. Uma mídia que diverte, que distrai, que mimetiza exatamente os esportes, as ações de situações extremas, ora simulando, ora criando o absurdo em mundos fantásticos, em narrativas exemplares que têm, como principal objetivo, colocar o jogador na pele de determinada figura e fazê-lo sentir a adrenalina de determinada situação, provocadora intelectualmente ou não. O game é uma cópia por excelência. Você pode ser Messi ou Slash, Captain Price ou Kratos – para quê listar, afinal? As aventuras e os mundos são infinitos, assim como a expansão da nossa imaginação.

A diferença entre ficção e realidade? A ficção tem que fazer sentido. Tom Clancy

Partindo deste pressuposto, o game bom é aquele que te prende no sofá. Particularmente acho um tremendo porre as invenções que te fazem levantar e abanar um joystick em nome da “imersão”. Imersão! eles dizem. Que inferno esse papinho… O ponto que quero ressaltar é que, competitivo ou não, eu vejo uma forma, digamos, essencial nos videogames. Alguma espécie de fundamento, uma palavra horrorosa nas discussões pós-modernas onde a Verdade é uma piada. Mas aguente comigo, caro leitor. Esse fundamento se delineia em torno do sofá, de cervejas, de luzes escuras, com amigos ou não, com tempo ou não, com cansaço ou não. Sem treino marcado, sem compromisso profissional, sem irritações nesse sentido – o que não significa, pelo amor de Odin, que não possa haver agendas competitivas.

Game é coisa de gente grande, no bom sentido, porque é coisa pequena.

O barato de curtir um jogo é usá-lo e abusá-lo localmente. Ser o melhor da turma, o melhor do bairro, o melhor da escola. Dar o melhor de si. Tentar bater o melhor da escola. Trocar dicas com o melhor da escola – que saudades daqueles Pokemon que nos permitiam isso. Quando essa coisinha do varejo se transfere à esfera da TV, quando passa a ser conhecida por Galvão Bueno, a ser comentada nos churrascos, a ser debatida na faculdade…uma pureza se esvai. Essa essência de “pequena coisa” deixa de ser palpável quando um “game” vira um “e-sport”. Como é possível algo que, nas suas origens, garantia ao garoto que odiava esportes e esportistas na escola uns poucos momentos de felicidade, entre seus pares, virar algo apreciado como “esporte das gerações futuras”? E como gente mais velha vê isso com normalidade e não sente uma pontada de desgosto? O velho teimoso em mim não entende.

Uma rara foto do que foi um dos principais centros de formação profissional de cyber atletas da nossa pátria

Sim, meu lado saudosista e melancólico se aflorou mais do que devia…Já tive discussões com amigos: Xadrez também é esporte, dizia um, argumentando que ambos se jogam sentados, mas não me parece ser um mero problema de nomenclatura – chamar games de esportes ou não. Eu vejo tantas peculiaridades e diferenças entre basquete e xadrez e entre games e xadrez que seria necessário um outro texto choroso. Ressaltaria, apenas, que a presença da tela – a simples presença de uma tela, hipnotizante para milhares de pessoas que lotam arenas – já me faz considerar quem se considera um “e-athlete” – ou seja lá como se autodenominam esses novos tecnicistas sisudos – um completo tolo.

Talvez minha crítica seja platônica demais – e sabemos que Platão perdeu para a história, no que diz respeito às artes. Certamente os games como esportes vieram pra ficar. A expansão da escola para a tv, do bairro para a cidade, sempre foi questão de tempo. Eles movimentam quantidades absurdas de dinheiro, algo tão surreal que nem quis ir atrás dos números para não ficar mais enjoado. Não que eu seja anticapitalista, antissistema etc. Videogame já é há muito uma indústria de valores surreais, tratada como negócio que sustenta, inclusive, muitos que falam sobre lançamentos, têm sites especializados etc etc. Alguém poderia perguntar qual seria a diferença de adicionar à mistura destes profissionais a condição de atleta, e eu diria, intuitivamente, que trabalhar com esporte é diferente de trabalhar com entretenimento. E game é entretenimento – amador, por excelência. Mas é uma boa questão, como também é uma boa questão notar como Youtubers e seus séquitos vêm conseguindo estragar o prazer de se jogar o jogo devido ao imenso contingente de pessoas que “assistem” aos games em vez de experimentá-los. É quase uma masturbação gamística que deve ter contribuído, em alguma medida, para os índices de audiência que mantêm campeonatos de CS e “detonados” de Resident Evil onde antes de passavam campeonatos europeus de futebol – devendo-se ressaltar o papel de um público preguiçoso que assiste dezenas de horas de um jogo e joga a culpa na falta de dinheiro para comprar um console, ou na mera curiosidade mortal…

Pessoalmente, continuarei com a bola redonda. Os fins de semana serão os tempos de fantasia prática enquanto as madrugadas, solitárias ou não, serão de comando da equipe virtual. E entre campeonatos de botão ou pebolim e campeonatos de FIFA profissionais, fico com o charme e a tradição dos primeiros – menos estimulantes visualmente, mas mais estimulantes criativamente. E palpáveis, algo que surpreendentemente já faz e ainda fará uma certa diferença – quem já jogou Magic em carne e osso ou já leu um livro comprado no sebo sabe que a telinha tem uma capacidade admirável de estragar as mesmas experiências.

O exercício de futurologia, pelo menos, não custa nada: em duzentos anos, como – e por onde – verão nossos descendentes o que há vinte nós tratávamos como pura brincadeira de criança?

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.