Plano Polêmico #18 | “Vai Malandra”, Funk, Anitta e a Discussão Sobre a Decadência da Música Brasileira

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Se você se interessa minimamente por música, certamente sabe que esta discussão de “decadência da música brasileira” não é nova. E como tudo o que envolve tempo, conflito de gerações e principalmente gosto e opiniões pessoais, normalmente tende a sair dos trilhos porque, assim como em debates propostos aqui mesmo no Plano Crítico, nos artigos A Criatividade Morreu?Negros nos Quadrinhos e Essa Tal de Representatividade, há muito “amor à causa” e extrema “defesa de quinhão cultural” envolvidos, além de mescla insana de concepção de mercado, reprodutibilidade técnica (Walter Benjamin não deixa ninguém em paz!), qualidade de letras, músicas e diferença entre gêneros musicais que se entrelaçam em um balaio de gatos babões. Nosso objetivo aqui na coluna Plano Polêmico é justamente levantar a questão e trazer alguns caminhos que talvez possam ser considerados durante o debate sobre este que é um tema árduo e muitíssimo amplo.

No dia 18 de Dezembro de 2017 a cantora Anitta lançou o clipe Vai Malandra, parte de um projeto inteligentíssimo de produção e marketing chamado CheckMate, que em tempos de crise econômica como o nosso aqui no Brasil, caiu como uma luva: o lançamento não de um álbum, mas de singles com estilos diferentes, participações especiais diferentes e destinados a públicos diferentes. Vai Malandra, que encerra o projeto, é a volta da cantora ao funk, e contou com as participações de MC Zaac, do rapper norte-americano Maejor, dos já muito famosos na cena do funk brasileiro Tropkillaz e do DJ Yuri Martins. Gravado na favela do Vidigal, Zona Sul do Rio de Janeiro, o clipe começa com um já muito problematizado close na bunda sem tratamento de photoshop de Anitta (ou seja, nada de esconder celulites!) e expõe flashes da realidade de um pedaço daquele lugar, sem filtros e com gente real, de todas as cores, peso, pulsões e estilo.

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O tweet de Lulu Santos que reacendeu uma antiga polêmica.

Assim que foi lançado o clipe, uma série de reclamações davam conta de que haviam por demais “mulheres seminuas, conotação sexual, objetificação do corpo feminino, pouca vergonha, destruição da cultura brasileira e criação de um padrão para que os gringos só vejam as mulheres brasileiras como uma bunda“. Como se um clipe da Anitta fosse tirar dos gringos uma visão que há décadas se estereotipou, e isso muito antes do funk, da Anitta e da boquinha da garrafa (oh, eu me esqueci de citar que, diz a lenda, quase 100% das pessoas que estão reclamando de “conotação sexual” viveram os anos 80 e 90. Sim. Pois é. Vai entender…).

A questão é simples de ser colocada à discussão, ao menos em um primeiro momento. Vamos falar, antes de mais nada, de sexo ou conotação sexual? Reparem que Vai Malandra não é um funk do tipo proibidão (e não, nem todo funk é proibidão, para quem não sabe), ou seja, não tem nada explícito. Existe conotação sexual? Oh, sim. Mas onde esse tipo de conotação é novidade no Brasil, na música ou em diversas outras artes? Pensem comigo: você pode não gostar de funk, pode odiar as letras, pode odiar essa cultura do sample que popularizou a “versão pós-2000” do funk brasileiro, odiar os proibidões, mas é preciso entender que o funk NÃO É o primeiro gênero ou a primeira manifestação do habitus, no senso de lugar e identidade cultural de um pedaço do Brasil (eu estava com essa visão de Pierre Bourdieu engasgada comigo desde o início do texto) a colocar nuances sexuais em sua produção. Isso não é nem um pouco recente e nem é exclusivamente nosso.

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A segunda parte do furdúncio.

Com esse breve contexto geral, chegamos à essência deste Plano Polêmico que é a fala sobre a decadência da música brasileira. A rigor, o que isto significa? Que as rádios tocam menos Tim Maia e Maria Bethânia e mais Maiara & Maraisa e MC Kevinho? Que o funk e artistas brasileiros estão tendo o mesmo alcance nacional e internacional que alguns gigantes da MPB? Que Pablo Vittar é idolatrada em vez de cantoras que realmente possuem treinamento vocal e sabem cantar qualquer coisa, mesmo ao vivo, sem falar “IUQUÊ” a cada 2 minutos? Porque exceto o nome dos artistas aí colocados, a situação não é nova, certo? Agora… Isso é culpa dos novos artistas? Do gênero que eles cantam? Das pessoas que se veem representadas naquelas músicas e consomem mesmo, porque aquilo é o mundo delas? Ou do mercado que se aproveita de qualquer oportunidade para tornar algo que já é grande ainda maior e, obviamente, lucrar com isso? Ou você, em pleno ano de 2017, ainda acredita que a indústria fonográfica e suas divulgadoras ou comissões de premiações vivem exclusivamente de artistas, bandas e músicas de grande e real qualidade poética, musical/orquestral e de produção? Acorda, Alice!

Tudo muda com o tempo: gostos, gerações, formas de divulgação e apelo diante do público. Acreditem: não é à toa que o funk ou o sertanejo [“~universitário~”] são estilos populares no país hoje. As pessoas realmente gostam disso. Mas nós já tivemos o nosso pico de samba, de bossa-nova, de rock, de axé, de forró e aqui e ali bolhas de rap e moda de viola, certo? Hoje é o pico de diversas variações do pop e dos dois primeiros gêneros citados no início do parágrafo. Cada tempo gera a sua onda massiva de consumo em todo tipo de cultura moderna. Me espanta ver gente que já passa da terceira década de vida ficar full pistola ou completamente melindrado com isso, como se fosse algo NUNCA ANTES VISTO NA HISTÓRIA DO PLANETA.

Agora vem algo interessante e muito fácil de se perceber hoje em dia: a música brasileira de massa e amplamente distribuída tem sim se tornado mais pobre em termos de complexidade, se comparada a produções de décadas anteriores (vejam os dados abaixo, que contam dos anos 1950 até 2017).

A mesma coisa também podemos dizer das poesias da música brasileira de massa e amplamente distribuída. Quando existe algo que se possa considerar letra, ou este algo não diz nada com nada ou tem um espantoso nível de infantilidade revestida de “adulto sofrência“. Mas vamos fixar os dois pés no chão aqui. Uma coisa é nos avaliarmos a pobreza de composição musical e lírica de uma faixa (análise técnica, correto?); outra coisa é acharmos que esse tipo de música é um evento gratuito que apareceu do nada e que ele é o único existente no país hoje. Eu compartilho do amargor de ver compositores com trabalhos riquíssimos, com bandas de extrema qualidade e letras que são verdadeiras poesias que tocam a alma do ouvinte praticamente quebrarem os cornos para angariar alguns trocados… enquanto um adolescente funkeiro faz um sample com 5 canções já existentes, coloca 26 palavrões e algumas repetições de sílabas e, alguns meses depois, está ele com milhões no Youtube e faturando uma graninha considerável. Novamente fechamos o ciclo com o problema do mercado, da geração e do apelo para o público. Vocês podem ter certeza que uma canção-sinfonia com letra metafísica, CSF (Crítica Social Foda) e rimas com consoantes de apoio fala bem menos ao Brasil de 2017 do que hits como Agora Vai SentarRabetãoAtura ou SurtaBumbum Tam Tam. Ou que uma sofrência qualquer de Pablo (não o Vittar, o outro). Ou um hit de Wesley Safadão, Michel Teló ou de uma das 5,98 trilhões de duplas sertanejas que o país possui.

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Lulu, ainda.

Uma coisa é certa: não é porque existe um lado massivo e amplamente distribuído que bons artistas de repente desapareceram. Ou que tudo o que é massivo e amplamente distribuído é ruim. E é aqui que eu tenho dificuldade com o termo “decadência da música brasileira“. O Brasil tem excelentes, completos e complexos artistas em atividade. Novas bandas pululam como pipoca no cenário underground (se é que existe isso em tempos de redes sociais). Álbuns de grande qualidade são lançados todos os anos. Evidente que eles não têm o espaço midiático que Vai Malandra teve, por motivos que já discutimos aqui, mas eles estão aí. E é importante perguntar aos que decretam a morte da nossa música: qual foi o último show de um artista brasileiro que você foi? Você pagou pelo streaming ou álbum de seu artista brasileiro favorito? Você twitou sobre ele? Compartilhou fotos da nova produção? Problematizou canções? Postou o clipe nas suas redes sociais? Quantos novos álbuns brasileiros você ouviu em 2017? Até hoje eu não conheci um funkeiro que não acompanhasse o que é lançado no mercado do gênero. O mesmo vale para o pessoal do sertanejo e de gêneros ou artistas que vem ganhando destaque “do nada”. E isso significa que em nossos tempos, impulsiona-se quem mais faz barulho, seja para bem ou para mal, em redes sociais. De Justin Bieber a Iza a gente já aprendeu esta lição. E acreditem: não vai parar por aí.

O Brasil é um país muito grande e tem gosto e artista para tudo. Não é porque hoje existe a febre de um gênero que outros não encontrem também o seu espaço, por menor que seja. No mais, você sempre terá a liberdade de dizer que algo é ruim ou péssimo; que odeia ou simplesmente não gosta de algo; que não considera um certo artista cantor/cantora ou um certo gênero música de verdade. Tudo bem até aí. O que não fará você parecer muito inteligente é achar que o problema está nesses novos artistas, nessas músicas e nas milhões de pessoas que pagam para ouvir e assistir a esses artistas em shows e bailes pelo país a fora e até no exterior. O buraco é muito mais embaixo. Mas isso é discussão para um outro Plano Polêmico.

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Sugestões de documentários: Chico – O País da Delicadeza Perdida (1990), Uma Noite em 67 (2010), Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio (2010), MPB: A História que o Brasil Não Conhece (2011), Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista (2012), Tropicália (2012), Elis (2016), Axé – Canto do Povo de Um Lugar (2017).

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Agora é com vocês! Qual é a sua opinião sobre este tema? O que você acha da música brasileira na atualidade? Quais são os seus gêneros musicais favoritos? Você ouve suas canções na rádio ou via streaming? Com paga pelas músicas que consome ou faz download? Você vai a shows? Qual é a sua opinião sobre o funk? E o que você acha do projeto de lei que quer criminalizar o funk? O que acha da relação das redes sociais com uma nova onda de artistas que estão aparecendo? Deixe seus comentários abaixo!

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.