Plano Polêmico #19 | Catherine Deneuve, Feminismos e as Denúncias de Abuso Sexual na Indústria do Cinema

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Paris, 10 de janeiro de 2018. Publicada no jornal Le Monde, uma carta/manifesto escrita por Sarah Chiche (escritora/psicanalista), Catherine Millet (escritora/crítica de arte), Catherine Robbe-Grillet (atriz/escritora), Peggy Sastre (escritora/jornalista) e Abnousse Shalmani (escritora/jornalista) e assinada por outras 100 mulheres (se quiserem ver os nomes basta clicar aqui e se quiserem ler a carta, na tradução em inglês, clique aqui), dentre elas, Catherine Deneuve, um dos grandes ícones do cinema francês, começou assim:

Estupro é crime, mas tentar seduzir alguém, mesmo de forma insistente ou desajeitada, não é — tampouco o cavalheirismo é uma agressão machista.

Trecho da carta.

A carta vem depois da histórica noite do Globo de Ouro 2018, quando de vestes pretas, discursos duros, críticos, denunciadores e uma tirada do tipo “não levo prisioneiros” de Natalie Portman cruzaram os movimentos Time’s Up e #MeToo, movimentos que incentivaram e aglutinaram denúncias feitas por mulheres que foram abusadas, assediadas e de algum modo forçadas a situações de caráter sexual (também) em seu ambiente de trabalho. Chantagens, “visitas galanteadoras” ao quarto das atrizes, tentativas forçadas de beijo, mão na coxa, na bunda, nos seios e, pior ainda, casos de estupro que durante anos ficaram encobertos agora chegam a conhecimento do público.

Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual.

Os homens têm sido punidos sumariamente, forçados a sair de seus empregos, quando tudo o que eles fizeram foi tocar o joelho de alguém ou tentar roubar um beijo

O #metoo resultou em uma campanha de denúncias públicas na imprensa e nas redes sociais de indivíduos que, sem terem a oportunidade de responder ou se defender, foram colocados exatamente no mesmo nível de agressores sexuais.

Trechos da carta.

Todavia, depois do escândalo envolvendo Harvey Weinstein, a Caixa de Pandora se abriu. Muitas profissionais da Sétima Arte (e de outras artes também!) começaram a denunciar casos de abuso sexual que sofreram. No processo, como é comum em tempos de variedade de mídias e todo mundo com muitas opiniões para dar e muita gente para ouvi-las, duas vertentes centrais se formaram, cada uma com suas também esperadas subdivisões e bolhas sociais acopladas. De um lado, quem normalmente vê com cautela as denúncias, acompanha o desdobramento e se coloca contra o abusador. Do outro, os que rejeitam de imediato qualquer tipo de denúncia, justificando as ações do indivíduo acusado com falas do tipo “homem é assim mesmo“; “isso é da natureza masculina“; “o homem tem que ser viril, caçador“; “elas reclamam, mas gostam“… e por aí vai.

A carta do Le Monde dividiu opiniões dentro e fora da França, mais ou menos encerrando pessoas dos dois grupos citados acima. Em resposta, Caroline De Haas e 30 outras feministas também fizeram as suas declarações contrárias à carta. Em seus respectivos espaços, adeptos do “somos todos Catherine Deneuve” e adeptos do “Catherine Deneuve, a amiga inconveniente” fizeram suas defesas, algumas lúcidas, outras minando clichês preconceituosos e desinformação. Como convite para pensar o caso, ficam aqui alguns pontos a serem considerados.

  1. A carta não condena o #MeToo (“eu também“) e nem sua contraparte francesa, o #BalanceTonPorc (ou “denuncia teu porco”). Mas também não trata os movimentos, no todo, com elogios. A grande preocupação exposta no texto original é “de um caminho exagerado, puritano e pautado por perseguição às atitudes dos homens“… Dissertem a respeito.
  2. A carta faz ressurgir a discussão sobre as “denúncias falsas” e “motivadas por vingança“. Ambas as colocações são válidas e sabemos que existem sim. Todavia, execrar movimentos inteiros e milhares de denúncias legítimas por conta de algumas mulheres que cometem elas mesmas o crime de falsas denúncias é, no mínimo, estúpido. Falsas denúncias devem ser igualmente combatidas, denunciadas e punidas.
  3. O tom geral que percebi em alguns comentários (e até na repercussão de outro texto, um brazuca, escrito por Danuza Leão, que disse que “toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz“) é a colocação dos assediadores como peças de museu, pautados por retidão e sem nenhum meio de se defender das acusações. Chega a ser hilário e não é assim que a coisa funciona. Vejam o caso recente, desta segunda semana de janeiro de 2018, com a acusação de assédio feita ao ator James Franco. Ele tem utilizado as mesmas mídias nas quais foi denunciado para mostrar a sua versão dos fatos. Ele não é um pobre desamparado que não tem como se defender ou por onde mostrar sua opinião e versão a respeito. Não sei de onde tiram esses argumentos.
  4. Algo interessantíssimo que li em um texto da Lia Bock sobre o tema é um conselho inestimável: “homens, não vistam a carapuça se ela não servir“. O que mais vejo é a afetação de alguns cavalos-velhos tomando as dores de comprovados assediadores, como se temessem algo, como se alguma coisa inerente à masculinidade fosse ser proibida a partir de amanhã, ou coisa do tipo. Assédio sexual não é parte da sexualidade, nossa libido não depende disso. Abusar de mulheres não é parte da nossa sexualidade, nossa libido não depende disso.
  5. Ninguém pode mais paquerar ou flertar“. Esse é o tipo de discurso que eu chamo de “o choro da jamanta melindrosa e abestalhada“. Até hoje as denúncias que vejo são de mão de homens no corpo de uma mulher sem autorização delas e frases trovadorescas, belas e inenarravelmente inesquecíveis como “que rabetão empinado, êeeee lá em casa hein!“. Até onde eu saiba, não é assim que se flerta ou paquera. Flerte é muito mais sobre olhares, expressões, sorrisos e então, um primeiro contato com a pessoa que você está paquerando. As pessoas se esquecem daquilo que aprenderam na escola. Na minha época (lá vem…), a maioria de nós não tinha coragem de “chegar na menina“, então a gente pedia para um amigo em comum nos apresentes e depois, tremendo as canelas, íamos falar um “oi”. Cumprimentávamos com um beijinho na bochecha e… pã pã pã pã!… CONVERSÁVAMOS!!! Ooooooohhhhh! Se rolasse algo depois, ótimo. Se não, íamos chorar pitangas com os amigos o resto do mês. Não é gritando aos quatro ventos e sete mares os atributos físicos e o que se deseja fazer com uma mulher durante o sexo que se paquera. E não é passando a mão no corpo de uma mulher sem a autorização dela que se flerta. Nem ejaculando nela dentro do ônibus ou do metrô.
  6. Ain, foi só um beijo roubado“. Sabe quando um beijo roubado é bom e legítimo? Quando a outra pessoa também quer que aconteça. Quando você está no maior love com alguém no sofá ou na cama, vocês estão só amores e mini-amassos fingindo que estão vendo um filme ou uma série e aí, “sem querer”, um vira um pouquinho de lado e o outro rouba um beijo. E os dois riem e pegam fogo juntos. Pronto. Este é o cenário onde um “beijo roubado” é bom legítimo. Fora isso, o que temos é: alguém que sempre gostou de outra pessoa, anseia beijá-la desde sempre mas nunca falou nada e, por um motivo qualquer, foi beijada por esse crush. Oh, que beijo roubado lindo! Não, bebê, você estava querendo aquilo desde que se apaixonou pela pessoa. Agora… Imagine alguém por quem você não nutre absolutamente nenhum tipo de sentimento; alguém que você tem até algum tipo de ranço emotivo; alguém que você só vê como um colega de trabalho, ou amigo, ou companheiro de sala de aula e essa pessoa te força contra a parede de um corredor qualquer ou contra o banco do carro e, sem você permitir, pedir ou gostar… te “rouba um beijo”. Pois é… Não há nada de bonitinho, certo ou romântico nisso.

Para coroar essa primeira parte da discussão, é importante destacar que muita gente, ao discutir sobre esse tema, acabam usando a seguinte frase: “essas feministas“. Como se o Feminismo fosse um movimento de único caminho e como se não existissem pessoas desinformadas, babacas, de má fé, exageradas ou mentirosas dentro dele e de qualquer uma de suas variações! Ora, ora, ora, exatamente como em qualquer movimento, como em qualquer grupo onde existam humanos! Entendam que pessoas desse tipo existem em todo lugar. Logo, se você encontra um discurso “X”, não ache que aquela fala, texto ou pessoa representa TODAS as mulheres feministas do planeta Terra. Não seja o tipo de gente que vive tomando o todo pela parte.

E por fim, a carta. Penso que ela é válida (e deixo claro: não concordo com o conteúdo ali expressado, embora a missiva traga pontos muito bons e legítimos para serem discutidos, mesmo que embebidos em justificativas que até eu, como homem, acho estranho, imaginem uma boa parte das mulheres!) porque ressalta uma visão que uma parcela das mulheres tem: de “garantir ao homem o direito de flertar, de importunar“. E se essa parcela vê o mundo dessa forma, é lícito que elas expressem isso, é um direito garantido e é um lado da moeda que deve ser ouvido. O que não podemos deixar de dizer é que essa exposição indica que “o outro lado”, que seria o “feminismo radical”, IMPEDE o flerte e TOLHE a sexualidade, pensamento de entrelinhas que não encontra pé na realidade. O alvo dessas denúncias tem sido os homens abusadores, não caras com tesão que flertaram ou paqueraram mulheres e, encontrando consentimento, tiveram sua noite de sexo. Sem abuso, sem assédio, sem estupro… sem denúncia!

Mas tudo acaba dependendo do ponto de vista e de contextos. Entre exageros, falsidade, falácias, cartas abertas, campanhas, movimentos midiáticos, teorias sociológicas, marketing e causas legítimas, ficamos nós, tentando aglutinar opiniões e organizar ideias sobre este tema que, podem ter certeza, está muito longe de parar de gerar polêmicas.

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Agora é com vocês! O que acharam da carta publicada no Le Monde? Sintam-se à vontade para comentar trechos dela também! Qual é a opinião de vocês sobre as denúncias de abuso sexual na indústria cinematográfica nos últimos tempos? Vocês veem puritanismo nas mulheres que fazem essas denúncias? O que pensam sobre o movimento feminista? E onde acham que este momento de nossa História nos levará, em termos de comportamento das pessoas? Deixe sua opinião nos comentários abaixo!

  • Agradecimento especial às minhas amigas Viviane Miranda, Yasmin Padilha, Cida Azevedo, Laura Katharina Reif e à minha irmã Karla Santiago com quem conversei a respeito antes da escrita do texto.
LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.