Plano Polêmico #2 | Chega de Séries de TV de 22 Episódios!

Diz a verdade: você, amante de séries de TV, tem total consciência de que não há roteiro que sustente uma temporada de 22, 23 ou 24 episódios não é mesmo? Pare para pensar. Mas pense com calma. E me diga que série realmente merece tantos capítulos assim? Sim, sei que você provavelmente poderá listar suas favoritas e que, dessas, você veria não 22 episódios por temporada, mas 365, tipo novela da Globo.

Mas você sabe, lá no fundo, que isso não é verdade, não é mesmo? Que você está dizendo isso só para ser turrão e “do contra”. Séries de TV longas assim e que valem o esforço são raras e normalmente são sitcoms, pois essas têm formato diferente, entre 22 a 25 minutos por episódio. E essas eu até perdoo mesmo, pois cada episódio vive sozinho na maioria das vezes e depende de um timing de piadas que faz cada segundo contar. Mesmo as sitcoms, porém, eu conto nos dedos as que eu levaria para uma ilha deserta (imaginando que a ilha seja aquela do Sr. Roarke – o avião, o avião! – e que ela tenha um pequeno home theater, claro, de preferência com uma pipoqueira na porta).

fantasy island

Posso ser pequeno, mas tenho muito mais carisma!

Opa, divaguei um pouquinho…

Voltando ao assunto, a questão é que a estrutura comum de séries de TV não se sustenta mais. Acabou-se a época em que as séries continham, em sua integralidade, episódios soltos, desconectados entre si. Lembram de Casal 20? Magnum? Perdidos no Espaço? Pois é, não se fazem mais séries assim e não estou pregando que façam. O público – eu incluído – quer continuidade, moda essa que começou a pegar de verdade com a mais do que estendida Arquivo X, que continha episódios soltos (a maioria) intercalados de episódios de narrativa continuada, contando uma história maior.

E, nessa esteira, as séries acabaram se tornando filmes serializados, com cada episódio sendo relevante para a narrativa, sem exceções. Essa é a tendência atual já bastante sedimentada e que, convenhamos, faz muito mais sentido do que a estrutura de “caso da semana”, “monstro da semana” ou “qualquer coisa da semana” que era onipresente até meados da década de 90.

Mas é claro que, se olharmos bem para trás, já perceberemos que as séries de TV passaram por intensas transformações. Sem entrar em muitos detalhes históricos, vale lembrar que, originalmente, as temporadas de séries hoje consideradas clássicas eram compostas de 30 a 40 episódios, todos normalmente mais curtos do que o padrão atual de 42-43 minutos (a minutagem é assim pois conta-se uma hora menos os intervalos comerciais). Mas a “regra” de 30 a 40 episódios era válida durante as décadas de 50 e 60 nos EUA, com séries famosas como I Love Lucy com temporadas de 31 a 35 episódios, The Andy Griffith Show com 32, Além da Imaginação com 36 (na primeira temporada) e Jornada nas Estrelas com 29 na primeira temporada, 26 na segunda e, finalmente, 24 na terceira. A lógica por trás dessas temporadas enormes era que existia muito poucas oportunidades para reprises nessa época e a temporada se mantinha no ar literalmente durante o ano inteiro, com um episódio por semana. Além disso, novamente, há que se lembrar a independência de cada episódio que ajuda na manutenção da história.

lost bear

Mas é CLARO que vai ter explicação!!!

Mais para frente, as temporadas passaram a adotar o formato de piloto, ou seja, de um episódio original produzido para testes que, se aprovado pelas TVs, era então encomendado como série, com um pedido inicial de 13 episódios. Dependendo dos ratings, mais nove (os chamados back nine, expressão retirada do golfe) eram encomendados, fechando a temporada. Essa estrutura é a que se mantém até hoje na televisão aberta americana. A razão para ela é que, em seu nascimento, o verão americano era considerado época de vazante para possíveis espectadores de séries novas. Com isso, os lançamentos acontecem no outono deles (começando em final de agosto e durante setembro) e vão até o verão do ano seguinte (maio), com hiato para a época de festas (Dia de Ação de Graças, Natal e Ano Novo). Se vocês fizerem os cálculos, verão que esse período é composto de mais ou menos 23 semanas.

Só que essa estrutura não mais se sustenta. Mesmo em séries pensadas com uma construção dessas na cabeça como 24 Horas, a coisa desanda. Até os mais ferrenhos defensores de Jack Bauer reconhecerão a quantidade absurda de fillers não relacionados com a trama principal que os roteiristas passaram a inserir para manter a estrutura intacta. Afinal de contas, aturar a insuportável filha dele fugindo do leão da montanha sem que, no final, ela seja destroçada pelo animal, é pedir demais da paciência de qualquer um! E tanto é assim que, surpresa surpresa, a recém-encerrada temporada nova da série – Live Another Day – teve só 12 episódios.

O mesmo vale para séries mais recentes, como Lost. Não sei se era intenção do showrunner ao batizar a série, mas ele e a equipe de roteiristas literalmente se perderam com o sucesso da primeira temporada e a necessidade de se manter a mesma dose de episódios nas temporadas seguintes. Não há reviravolta, flashback, flashforward e flash sideway que aguente! Querem exemplo mais recente ainda? Que tal então Agents of S.H.I.E.L.D.? A temporada é tão arrastada que, na verdade, o que se vê são duas temporadas em uma. Na primeira, um monte de episódios soltos que são um suplício. Na segunda, a coisa engata de verdade e a estrutura de uma narrativa só começa. Aí fica a pergunta muito claramente perante o espectador: eram mesmo necessários 22 episódios?

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Essa série sim merece temporadas de pelo menos 50 episódios!!!

E então temos que olhar para a televisão a cabo americana e para o ano 2000, com o nascimento, talvez, da mais importante – não necessariamente a melhor – série já produzida na “era moderna”: Família Soprano. Literalmente sozinhos, os mafiosos lixeiros liderados por Tony Soprano mostraram como se fazer uma série de TV que pode ser vista como um filme prolongado. Estrutura de 13 episódios de 45 minutos cada contando uma história só. Tudo coeso, amarrado, com personagens engajantes e sem (muita) enrolação.

E não venham dizer que isso só acontece porque, na televisão a cabo, as regras limitadoras de violência, profanação e sexo são mais relaxadas. Sim, elas são, mas o que isso tem a ver com a duração de uma temporada? Olhem para Hannibal, série de 13 episódios em TV aberta e reparem que tudo pode ser feito com elegância (e muitos litros de sangue) sem se apelar para nudez e bacanais “True Bloodianos“.

A grande verdade é que as TVs a cabo tem uma vantagem sobre as TVs abertas, mas não é mais latitude de produção. O grande diferencial é que o público a ser atingido pode ser diferenciado. Não há preocupação em se atingir a grande massa que a TV aberta precisa alcançar, para fins de rating. E talvez aí esteja o problema. Como escrever uma série de alto nível tendo que agradar a gregos e troianos? Mas novamente chego ao ponto, com a mesma pergunta acima: em que isso se relaciona com o tamanho da temporada? Em nada, não é mesmo?

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Esse leão da montanha é muito mané mesmo…

Além disso, há o fator binge watching, que é o hábito cada vez mais presente de se assistir temporadas ou, ao menos, vários episódios de uma temporada de uma tacada só, por horas a fio. Fazer isso com séries longas é um desafio à paciência e torna ainda mais evidente a fraqueza de diversas séries atuais, como o que acho de Once Upon a Time, que insiste em contar uma história só interligada, com a introdução sem fim de personagens novos e a transformação da premissa em um Lost no País das Maravilhas. A estratégia do Netflix, muito ao contrário, é focar sua produção própria em séries curtas de até 13 episódios, para extrair o máximo possível de uma narrativa fechada dentro de cada temporada, aí sim completamente livre de enrolações novelescas.

Afinal de contas, pensem rapidamente e tentem lembrar das séries mais adoradas e faladas por aí? O que vem à cabeça? Muito provavelmente Breaking Bad, Game of Thrones e House of Cards, todas elas exemplos perfeitos para tudo o que falei acima.

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Um imagem que vale por mil palavras… (arte: http://youfail.com/)

E ainda tem os britânicos, como poderia me esquecer deles? Séries de TV, lá do outro lado do Atlântico em uma pequena ilha são, normalmente, ainda mais modestas (em tamanho, não em qualidade, que fique bem claro!), com temporadas entre 6 e 10 episódios, além de um especial de Natal. E isso quando a estrutura não é literalmente a de filmes, como no caso da sensacional Sherlock.

Portanto, creio que esteja na hora de mudar completamente o jogo, com a decretação do fim de séries com mais de 13 episódios por temporada (com a exceção de sitcoms, talvez). Chegou a hora de filmes de 13 horas contados em 13 partes e não de novelas perdidas no ego dos showrunners e presas à uma agenda que não faz mais sentido.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.