Plano Polêmico #21 | Turma da Mônica, Forças Armadas e o Peso dos Quadrinhos de Mauricio de Sousa

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Vocês já ouviram falar de Fredric Wertham? Ele foi o Dom Quixote da psiquiatria e psicologia nos Estados Unidos, durante as décadas de 1940 e 1950, tendo dado os primeiros passos rumo ao fantasma das “HQs nocivas” em sua obra de nicho, com o artigo A Psicopatologia dos Quadrinhos, publicado no The American Journal of Psychotherapy em 1948. Também é deste senhor, pérolas risíveis como O Que os Pais Não Sabem Sobre os Quadrinhos (que saiu no Ladies’ Home Journal — hehehe — em 1953) e o infame Sedução dos Inocentes (1954), onde ele defendia a tese de que as HQs são péssima literatura de massa e que são, sem sombra de dúvidas, um sério fator da delinquência juvenil. Isso gerou o maior balde de água fria na fervura dos quadrinhos americanos, com o Comics Code Authority, estabelecido naquele mesmo ano de 1954 pela Comics Magazine Association of America (CMAA), selo de censura que existiu até 2011, mas para o qual quase ninguém dava mais importância. Pois bem, sabem Fredric Wertham? Neste Plano Polêmico, nós NÃO seremos este cara.

O caso da publicação de Turma da Mônica: A Indústria de Defesa Brasileira, almanaque lançado em 16 de maio de 2018, tem que ser discutido sim, mas sem a quixotesca linha de Wertham em pauta. Para avançar, porém, precisamos saber do que se trata. Este projeto, encomendado a Mauricio de Sousa pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) e com o Ministério da Defesa, teve custo público para a produção orçado em R$300 mil — vale dizer que as fontes divergem, sempre para mais, em relação ao valor do projeto –, para tiragem inicial de 100 mil exemplares, a serem distribuídos, inicialmente, em Escolas Militares por todo o país. O almanaque tem 100 páginas e fala de riquezas naturais do país, importância do monitoramento de fronteiras, defesa cibernética, veículos militares, resgate e salvamento de pessoas, combate a incêndios de grandes proporções e ajuda humanitária do Exército Brasileiro.

Como em qualquer propaganda — especialmente nas de cunho político-militar ou ideológico, como esta — tudo é muito inocente, bonito, cheirando a boas intenções e feito para conhecimento e o bem geral da nação. Mas parem e pensem nisso com rigor. Para o bem ou para o mal (e vale dizer que do lado do “mal” temos aquela polêmica da ausência de créditos aos profissionais dos estúdios Mauricio de Sousa durante anos — e só “corrigida” recentemente, e ainda assim, de forma parcial!), a Turma da Mônica é o maior fenômeno nacional de quadrinhos. Ponto. É material didático, é o primeiro contato de milhares de pessoas com os gibis e até mesmo com a literatura. Além disso, Turma da Mônica também é parque, teatro, cinema e mais um monte de outros produtos que mostram que Mauricio é um empresário clássico, que, por acaso, também é um artista bom no que faz. Duas questões em relação a isso, todavia, merecem ser pensadas.

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A primeira delas é o que devemos entender quando um grupo de personagens com tanto peso ganha um braço que mostra uma realidade (positiva) ligada às Forças Armadas, instituição com a qual o Brasil não tem exatamente uma história de amor e carinhos. E notem que isso vem após os famosos tuítes, lidos em rede nacional — e cujo conteúdo e intenção qualquer um deve ter entendido muito bem — do General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, na véspera do julgamento do habeas corpus de Lula no STF. Uma série de circunstâncias (algumas, atenuantes) podem ser postas na mesa por quem está disposto a defender este lado.

__ Mas Mauricio é empresário, ele dá os direitos dos personagens dele para quem ele quiser.

__Mas o Exército não só tem coisa ruim, ele faz muita coisa boa para o Brasil.

__ Mas só vai ser distribuído, no começo, para escolas militares.

__ O dinheiro público é utilizado para tantas outras coisas, por que não em um almanaque de propaganda do Exército?

Todo leitor saberá responder essas defesas, não vou nem ser irônico em relação a elas, até porque são boas colocações, dentro da questão aqui discutida. Mas este é o tipo de posição que não fala sobre o problema e se recusa a olhar a questão naquilo que realmente deve ser olhado. Como exercício, imaginem que Mauricio tenha, por exemplo, dado os direitos para um almanaque de 100 páginas, feito com dinheiro público, elencando o maior ícone das HQs no país, para aquela instituição que você não gosta ou que a gente sabe que o país despreza. Pergunta-se: o silêncio seria o mesmo? A validação empresarial seria a mesma? A frase “mas essa instituição não só fez coisa ruim!” também existiria? A acepção mais agradável à instituição seria vista como “algo normal”?

Os gibis da Turma da Mônica já abordaram de tudo, de eventos e personagens históricos a contos de fadas e paródias literárias, cinematográficas e televisivas. Temas como cidadania e outras questões de importância social foram tratados em diversos almanaques ao longo dos anos. Mas é pouco honesto achar que o aliamento da marca com as Forças Armadas está pau a pau com um gibi sobre energias renováveis, com uma história clássica sobre cidadania, ou com uma abordagem humorística para os personagens históricos da Proclamação da República. Existe um elemento de legitimação, de “fofice”, de ausência de perigo (político, social, ideológico) e até mesmo das reais funções do Exército de um país quando um material desses é publicado. Esconde-se mais do que fala e se faz isso com personagens de peso.

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Eu gosto muito da Turma da Mônica. Cresci lendo esses quadrinhos e admiro o selo Graphic MSP, para o qual escrevi críticas de 15 obras, das 18 lançadas até maio de 2018 (Jeremias – Pele eu comprei, mas ainda não li, e quando ler, não tenho certeza se terei o mesmo ânimo e alegria de outrora para escrever), como vocês podem ver aqui. Mas jamais verei com bons olhos a Turma da Mônica e o peso que esses personagens têm — principalmente para as crianças e adolescentes do Brasil –, de mãos dadas com uma publicação dessa categoria, onde se fala todas as coisas belas e grandiosas que o nosso solidário, empreendedor e lindíssimo Exército faz. Não haveria problema se o governo contratasse artistas para criarem seus próprios personagens e, com eles, fizessem a sua almejada propaganda militar (almanaque de 100 páginas sobre o funcionamento do sistema eleitoral, sobre o sistema de votação no Congresso e o que faz cada um dos Três Poderes ninguém faz, né?). Mas o Mauricio empresário parece não se importar em ver os seus personagens assumirem essa função, independente do que isto significa. É pra sentar no chão e ouvir a voz do Cebolinha dizendo “CHOLA MAIS!” ecoando por por todos os cantos.

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O que você acha a respeito desse tema? Qual é a sua história com os personagens da Turma da Mônica? O que você acha do silêncio de mídias especializadas em relação à atitude dos estúdios Mauricio de Sousa? O que você acha da ligação da Turma da Mônica com assuntos relacionados às Forças Armadas? Vamos conversar a respeito!

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.