Plano Polêmico #25 | James Gunn, Pedofilia e Hipocrisia

Já digo de antemão: não há motivo para tanto grito no caso da demissão de James Gunn, a mente por trás dos Guardiões da Galáxia. A Disney fez muito bem em demitir o melhor diretor da Marvel Studios. É só.

Entre a histeria e a isenção anda-se em um fio da navalha quando o assunto diz respeito às mídias sociais. Enquanto piadas sobre pedofilia suscitam a velha demagogia do limite do humor, a demissão de gente graúda convoca uma legião de fãs para defesas das mais esdrúxulas. A questão logo se torna caótica quando vitimização e paranoia aparecem para dar aquele ar de politização a uma simples – porém grave – irresponsabilidade de um artista-moleque, que ainda piora a situação quando saca da manga a típica “Carta da Dona Lúcia” como artifício para controlar os danos e limpar a cara. Youtubers irrelevantes e artistinhas globais também sacam esse ás para voltarem a ser aceitos pelos amantes da censura politicamente correta.

Vejamos alguns pontos que valem ser debatidos com razoável serenidade:

  • O que Gunn escreveu foi grave? Sim – é óbvio que sim, com todo o respeito. Em sua maior parte, foi uma irresponsabilidade imperdoável para um artista público do tamanho dele. Em uma menor parte, talvez até se encaixe em crime postar um suposto link intitulado “Video: 100 pubescent Girls Touch Themselves” dizendo em seguida que não só teve um orgasmo com o vídeo como também, and I quote, “just came all over my own face!!”.
  • O humor tem limite? Não. A persona pedófila, necrófila e misógina que Anthony Jeselnik veste em seus stand-ups é hilária, ainda que canse mais rápido do que o humor negro de um Bill Burr ou de um Louis CK, meus preferidos. O fato de serem humoristas e escreverem sues próprios textos difere bastante do fato de Gunn ser um adolescente tardio sem a mínima noção do alcance do que escreve e do que representa. Eu não duvido que esse cara nunca tenha encostado em uma criança de verdade e só tenha escrito para causar uma reação, como o próprio diz ao tentar infrutiferamente se desculpar. Contudo, se eu sou a Disney não há chances de me relacionar com um diretor que acha “ok” publicar o que foi publicado.
  • Seus cinco tweets de sinceras desculpas têm de ser levados em consideração? A bem da verdade, pouco importam. Nenhum deles apagará os outros dez mil que o próprio Gunn apagou para não queimar mais o próprio filme. Ainda vou retomar este ponto.
  • Existe perseguição? Existe politicagem sacana por trás? Esse é o tema mais interessante e, talvez, mais polêmico.

Todo o caso aconteceu no começo da nossa última madrugada. Curiosamente, os grandes veículos de entretenimento “pop” foram noticiar todo o caos envolvendo James Gunn apenas após sua demissão. As desculpas podem ser várias, convenhamos: a Comic-Con estar rolando em San Diego é a melhor delas, servindo como belíssima camuflagem.

Quando a notícia do caso finalmente vem ao ar, ela vem daquele modo pseudo-neutro: informa-se sem nenhuma opinião aparente para além da notícia, mas com algum resquício de opinião nas entrelinhas da própria notícia. Ora são destacados os tweets “velhos”, para adoçar um pouco a gravidade dos próprios tweets, ora é o anti-trumpismo de Gunn que é trazido à tona, já indicando uma possível perseguição de reacionários, republicanos e russos contra o diretor. Imaginem, por um momento, se o alvo não fosse o melhor diretor do estúdio que sustenta a vida de cada redator do site – a notícia certamente correria mais depressa do que o Mbappé. Imaginem, também, se Gunn fosse pró-Trump.

O fato dos tweets – que palavrinha… – tratarem de pedofilia e estupro se tornam, aos poucos, menos relevantes. É uma tática sutil e eficiente.

É verdade que a relativização da pedofilia até anda em moda nas faculdades mais prafrentex, daquelas que admiram a petição de Michel Foucault a favor da descriminalização das relações consensuais de adultos e menores de 15 anos, feita em 1977. O Brasil já foi agraciado com canais de televisão que admitem com convicção que pedofilia é uma doença e que o pedófilo, por consequência, é uma pobre vítima de uma pulsão incontrolável, merecedor de tratamento, não de cadeia. É lindo ter isso passando na TV em vez dos desenhos da TV Globinho…

Esse é um lado.

O outro diz respeito ao pessoal que cai matando em cima do diretor – e confesso que acho esse lado sedento por sangue muitas vezes igual aos etiquetados como Social Justice Warriors na histeria, com uma diferença específica que deve ser ressaltada neste caso: o tema aqui é o da pedofilia, não o da bobagem da representatividade no cinema – podem me bater nos comentários.

Os tais SJWs geralmente amam uma perseguição em um exacerbamento de motivos originalmente justos – como racismo. No caso de Gunn, o espelhamento de tais voos de abutre foi perceptível, mas justo, nos meus singelos dois centavos. O problema é surgir um bando de defensor idôneo da moral e dos bons costumes que não suportam ouvir uma piadinha sequer de humor negro nem perceber que Gunn não é o capeta encarnado nem Hitler reencarnado. A mídia social, para variar, tende aos extremos.

Resultado de primeiro momento: carreira enterrada para todo o sempre e uma passagem só de ida para limbo do esquecimento, que só não será maior porque os dois Guardiões da Galáxia são filmaços. Essa pequena consequência já dá pano para manga: até onde o artista condenado tem uma espécie de direito ao esquecimento? Você já esqueceu de Louis CK e Nobuhiro Watsuki? Falando nos dois, os tweets de Gunn se encaixariam na mesma prateleira de gravidade? A mim não me parece, mas também não me parece saudável cada justiceiro de internet começar a hierarquizar da própria cabeça o que é ou não é grave. O racismo é grave – e é crime, diz a lei brasileira. Como diferir um piada racista de uma agressão racista? Ou palavras de um comediante branco trabalhando ferem tanto quanto socos na era das mídias sociais?

Algumas indagações permanecem, além destas mais genéricas:

– Dizem que Gunn acusou rapidamente Roseanne em um caso que guarda suas semelhanças há alguns meses. Ele até aproveitou a oportunidade para defender a famigerada liberdade de expressão. Não é engraçado ver a hipocrisia e a total falta de senso de artistas que se colocam do lado da luz? Não me parece que tenha sido a direita conservadora americana a inventora da perseguição de tweets e declarações antigas – podem me desmentir nos comentários à vontade. Essa perseguição de tweets antigos sempre foi uma bomba pronta para estourar exatamente nas mãos dos que apontam dedos para qualquer um que não siga a cartilha de bom-mocismo. Não existe bom moço, por mais que Gunn envie muito amor para todos em sua mensagem final – e eu realmente acredito que ele tenha deixado de ser o imbecil que era. Seus trabalhos talvez falem por si mesmos.

– Nossos sites de “cultura pop” noticiariam mais rápido se Gunn fosse um Mel Gibson da vida e se as piadas não fossem sobre pedofilia e pornografia, mas sobre negros ou mulheres? É um ponto que eu retomo por me parecer bastante relevante, posto que a vigilância dos papas da nossa “Cultura Pop” é frágil ou quase inexistente.

– Tweets “racistas” foram os daquele youtuber irrelevante. Tweets “antigos” foram os de Gunn. Sério mesmo, pessoal descolado de sites ainda mais descolados??

– Gunn é pedófilo? Não me parece, mas não boto minha mão no fogo. Aqui há espaço para mais debate – que, sinceramente, me parece bem árido e sonolento e que pouco me interesso.

Em suma, essa onda toda de celebridades sendo desmascaradas por coisas antigas já já vai ser censurada também. Algum bonitinho vai inventar prescrição de Tweet. É tweet ou twit? Tô velho demais pra isso..

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.