Plano Polêmico #26 | Oscar de Melhor Filme Popular: Solução ou Mais Problema?

Em 1998, quando Titanic varreu a cerimônia do Oscar, abocanhando 11 estatuetas, a audiência da festa foi de 55,2 milhões de pessoas. Era a tempestade perfeita: um mundo em que a internet ainda engatinhava e um filme que aliava qualidade técnica com popularidade. Ao longo dos cinco anos seguintes, em que os vitoriosos (na categoria Melhor Filme) foram, na ordem, Shakespeare Apaixonado, Beleza Americana, Gladiador, Uma Mente Brilhante e Chicago, os números foram caindo e caindo, com a cerimônia de 2003 tendo apenas 33 milhões de espectadores. No ano seguinte, em que outra tempestade perfeita se formou, com O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei levando outras 11 estatuetas, a audiência subiu absurdamente de novo, chegando a 43,5 milhões.

Depois disso, os números oscilaram, mas o viés foi de queda, com a cerimônia de 2017, em que Moonlight – Sob a Luz do Luar levou três prêmios, dentre eles o principal depois daquela trapalhada épica da PwC, atraindo 32,9 milhões de espectadores. Mas 2018, ano da vitória de A Forma da Água, foi a literal gota d’água, com a menor audiência da história do evento: 26,5 milhões. Algo precisava ser feito, não é mesmo?

E foi. Mas, muito sinceramente, a solução ensaiada pareceu-me mais uma forma de enterrar de vez o interesse pela Academia e sua premiação.

Em 08 de agosto de 2018, um dia depois da reeleição de John Bailey como presidente da entidade, a Academia soltou um memorando com propostas – ainda sem detalhamento – de três alterações a serem implementadas a partir da próxima cerimônia. Abordarei todas aqui, da menos polêmica até a mais polêmica, com meus comentários sobre cada uma delas:

1. Uma cerimônia mais próxima do começo do ano:

Tradicionalmente acontecendo entre o final de fevereiro e começo de março, a partir de 2020 a ideia é reduzir o intervalo entre a revelação dos indicados e a entrega dos prêmios, o que, em tese, reduz o lobby dos grande estúdios. Além disso, dizem, como o Oscar é a última grande premiação, há uma certa fadiga do espectador que, desde setembro do ano anterior, começa a acompanhar a chamada Temporada de Prêmios. Mas nada mudará para 2019: a cerimônia ocorrerá no dia 24 de fevereiro, como anteriormente anunciado. Em 2020, porém, ela ocorrerá no dia 09 de fevereiro.

Em tese, essa decisão não traz polêmica alguma. Mas apenas em tese.

A não ser que a Academia também antecipe a revelação dos indicados (isso não foi anunciado, porém), filmes menores podem sair potencialmente prejudicados na bilheteria, já que muitos ganham destaque justamente com a indicação e, com isso, mais gente vai ao cinema para vê-lo nas semanas entre indicação e cerimônia. Menos semanas, menos bilheteria. Se, por um lado, há menos tempo para os grandes se articularem – mas, com dinheiro, a articulação pode acontecer instantaneamente – por outro haverá, potencialmente, menos tempo para filmes como Moonlight e Lion: Uma Jornada Para Casa para fazerem dinheiro ainda no cinema, já que o primeiro teve 23% de sua bilheteria total nessas semanas, enquanto o segundo teve incríveis 51%. Mais ainda, Trama Fantasma arrecadou, nessas fatídicas semanas, 67% de sua bilheteria total.

Ou seja, os grandes não serão prejudicados, mas os pequenos potencialmente sim. Se o Oscar é para celebrar o Cinema, a Academia deveria privilegiar aqueles que têm menos espaço para aparecer, já que um Velozes e Furiosos da vida simplesmente não precisa de prêmios para encher os cofres do respectivo estúdio, ao passo que uma obra de menos apelo popular (voltarei a isso mais abaixo) simplesmente depende deles possivelmente para sair do vermelho até e ficar só no break-even.

2. Uma cerimônia de apenas 3 horas:

O objetivo, aqui, é mais do que óbvio: se as pessoas hoje em dia reclamam para ler alguns parágrafos, elas também não aguentam ver nada por três que não contenha robôs ou monstros gigantes enfrentando ator bombado. Portanto, estabelecer que a cerimônia terá no máximo três horas faz sentido.

O problema é que, para alcançar esse objetivo, o plano é pegar “algumas categorias” e entregar os prêmios durante os intervalos comerciais e, depois, editar as cenas e colocar ao final da transmissão ao vivo como cenas pós-créditos em filme da Marvel (com a diferença que ninguém vai ficar sentado esperando…). E que “categorias” seriam escolhidas para serem espremidas no intervalo que os próprios artistas e produtores presentes na cerimônia usam para ir ao banheiro? Eu como meu chapéu se for algo importante como Melhor Atriz ou Melhor Diretor. Quem vai sofrer com isso serão os potenciais recipientes de categorias “desimportantes” como Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som, Melhores Efeitos Especiais e, claro, as categorias de curtas-metragens (menos os em animação, aposto). Afinal, quem raios quer saber que Edith+Eddie concorreu ao Oscar de documentário curta-metragem em 2018, não é Academia?

Chega a ser um desrespeito com esse pessoal que trabalha duro e tem pouquíssimo reconhecimento. E, antes que venham me dizer que algo parecido já acontece com as premiações técnicas de verdade (como melhorias em câmeras e coisas do gênero) e outra, com apenas um clipe de “melhores momentos” sendo passado durante a cerimônia, vale salientar que essas aí não são categorias de verdade. A Academia não premia Melhor Câmera Nova, mas sim entrega prêmios para profissionais que diretamente trabalharam em uma produção cinematográfica e extirpar dos holofotes aquelas categorias menos “populares” é rigorosamente o mesmo que coroar o preconceito, algo que a Academia diz que tanto se esforça para acabar (também escrevi sobre isso, aqui). Claro, não é tão grave quanto preconceito racial, mas é um dos círculos desse inferno.

Quer fazer uma cerimônia de no máximo três horas? Então que aquela interminável abertura cheia de piadinhas sem graça seja cortada ou que os números musicais sejam eliminados. Ah, não quer eliminar os musicais, pois eles agregam valor ao evento, então que tal tirar aqueles afagos ao ego da classe artística e retirar os clipes que falam da indústria como um todo e aqueles dedicados ao indicados na categoria de Melhor Filme. Diria que até mesmo o in memoriam é desnecessário, já que a Academia é useira e vezeira em deixar de citar esse ou aquele artista na lista daqueles que já foram.

Ou então, que tal deixar a cerimônia com o tempo que ela precisar ter dentro da razoabilidade? Afinal, não é porque haverá uma redução de 20 ou 30 minutos que quem não assiste a festa voltará a assistir. O desinteresse pelo Oscar – e premiações do gênero – tem raízes muito mais profundas que passam pela percepção de “antiguidade” desses eventos e chegam à enorme oferta de outros produtos audiovisuais com a proliferação de serviços de streaming. Apesar de importante, o Oscar é sim, de certa forma, anacrônico no mundo frenético de 140 caracteres de hoje em dia.

3. Oscar de Melhor Filme Popular:

E, finalmente, chegamos à mais controversa alteração, algo que realmente me deixou espantado (ou, talvez, desapontado): a instituição de uma nova categoria, a de Melhor Filme Popular.

Em 2009, o mundo nerd quase cometeu seppuku coletivo quando Batman: O Cavaleiro das Trevas não apareceu entre os indicados a Melhor Filme. Sem entrar no mérito se o filme merecia ou não estar lá, o resultado prático foi a ampliação do número de indicados de cinco para até 10 já a partir do ano seguinte. Sinceramente, achei a medida bastante razoável, pois não só representava uma volta ao que o Oscar era em sua origem (viram que nem tudo que é antigo é ruim?), como abriria o leque para que produções diferentes, fora do que se considera como “Cinema de Arte” (uma expressão que desgosto, especialmente porque é usada pejorativamente na maioria das vezes). Antes disso, em 2002, a Academia criou a categoria Melhor Filme Animado, mas aí em razão da grita dos artistas que não queriam ver seus filmes não-animados junto com “meros” desenhos. Particularmente, não concordo com essa divisão (não que uma animação não possa concorrer aos dois prêmios, mas reduz significativamente as chances de isso acontecer), assim como não concordo com a divisão do Globo de Ouro entre Melhor Filme Dramático e Melhor Filme de Comédia ou Musical, por razões de “isso é tão estúpido que não vou nem me preocupar em explicar o porquê”.

Mas agora chegamos, aparentemente, à raspa do tacho com a categoria Melhor Filme Popular. Essa criação esdrúxula foi, provavelmente, fruto do efeito O Cavaleiros das Trevas, somado com o número de espectadores de cerimônias em que os ganhadores foram filmes que mais caíram no gosto popular. Aparentemente, se essa tendência continuar, o próximo passo será o Melhor Beijo, a Melhor Luta, o Melhor Monstro e assim por diante, transformando o Oscar em uma versão mais pomposa de premiações como o MTV Movie & TV Awards ou o People’s Choice Awards.

Qual é a razão dessa sua indignação, seu crítico elitista, de nariz em pé, que só gosta de filme francês em preto e branco e fora de foco?

Muito simples: filme popular, ou seja, aquele amado por todos (ou muitos) será popular com ou sem prêmios para chancelar essa popularidade. O prêmio de filmes populares que não merecem prêmios é, normalmente, uma bilheteria polpuda. Além disso, normalmente os filmes que chegam a esse patamar de popularidade são filmes que têm por trás um caminhão de dinheiro em publicidade. De certa forma, ao olhar para eles como uma categoria especial, a Academia diminui a Sétima Arte como um todo, dizendo, de um lado, que o “popular” não é bom o suficiente para constar na lista dos melhores de todos (se fosse, competiria na categoria Melhor Filme) e, por outro, que os filmes nobres o suficiente para constar da lista principal não devem sofrer “ameaças” de filmes de qualidade artística “duvidosa”. É como pegar todo um grupo de filmes e dizer que ele é de segunda categoria, uma espécie de “filmepopularfobia” disfarçada.

E, como se isso não bastasse, fica a pergunta: o que diabos é um filme popular? Vamos lá, definam, eu desafio! A Academia não sabe ainda e não informou, mas ela terá que chegar a algum tipo de conclusão objetivamente verificável. Com isso em mente, vamos lá para algumas hipóteses mais óbvias.

(a) Bilheteria:

Quando o filme é ruim, mas faz sucesso, a primeira coisa que seus defensores fazem é esfregar na cara “do crítico prepotente” que a bilheteria foi de sei-lá-quantos quaquilhões e, portanto, o “povo falou” que ele é bom. Vide o caso daquela tal franquia de rinha de galo de robôs gigantes extraterrestres. Ok, pelo menos bilheteria é algo mais objetivo, mas, dentro desse objetivismo aparente, há um monte de problemas. O primeiro deles é saber onde estará a linha de corte? Serão as 10 maiores bilheterias do ano anterior? As 20? As 30? As 50? E aí, dentre os elegíveis, cinco (ou, seguindo o padrão da categoria principal, no máximo 10) seriam escolhidos? Será um exercício de claro chutômetro determinar esse corte e, além disso, pode ser que os grandes estúdios, para chegar ao número mágico, queiram “forçar” que seus filmes fiquem mais tempo em circuito, diminuindo o espaço de outros menores. E que bilheteria seria essa? A americana apenas? Ou será bilheteria mundial?

Mas calma que, como as meias Vivarina e as facas Ginsu, tem mais!

Voltemos para o filme que primeiro mencionei neste artigo: Titanic. Ninguém em sã consciência negará que ele é um filme popular. Afinal, até chegarem os smurfs azuis (do mesmo diretor, que só pode ser uma reencarnação de Midas), ele ficava intocável no topo distante da bilheteria mundial (e também da americana). No entanto, ele estreou nos EUA em 19 de dezembro de 1997 e, até mais ou menos a altura da cerimônia do Oscar em fevereiro de 1998, sua bilheteria não era lá muito expressiva. Titanic chegou ao ponto que chegou na base do “devagar e sempre”. Em outras palavras, filmes que estrearem mais para o final do ano potencialmente terão bilheterias que não refletirão sua “popularidade” futura. E nem me venham com a hipótese de medir a popularidade com base na famosa bilheteria do primeiro final de semana, pois o próprio Titanic e também Avatar teriam resultados pífios se assim fosse.

E o filme popular que não tem boa bilheteria em toda sua vida no cinema? Querem um caso concreto recente? Mad Max: Estrada da Fúria. Ele é praticamente uma unanimidade, aclamado por todos, mas sua bilheteria total mundial foi risível, de 378 milhões de dólares. Se considerarmos que seu custo declarado – sem P&A – foi de 150 milhões, fica evidente que, se ele se pagou, foi por alguma mágica contábil qualquer apenas. Portanto, pelo parâmetro bilheteria, em tese, Mad Max morreria na praia.

Em outras palavras, o uso da bilheteria como base para a determinação do que é ou não um filme popular é algo no mínimo muito errado e, no máximo, uma estupidez sem tamanho. E isso porque estou me sentindo benevolente hoje…

(b) Redes Sociais:

Descontando-se o fato de que as redes sociais tornaram-se uma palhaçada completa em diversos sentidos e que Umberto Eco estava certo em sua célebre frase, seria concebível imaginar – assim de maneira muito rasa – que um filme muito bem falado pelas “internets” à fora seria um filme popular. Há como medir-se isso e há como chegar-se a um número – que seria obviamente outro chutômetro – de corte. Essa seria uma maneira de deixar o “povo falar” e partir daí para a determinação do que é popular.

Lindo, não?

Se as redes sociais já são o que são sem isso, imaginem se a premiação de um filme depender do quanto ele é bem falado por aí? Não só os estúdios despejariam mais $$$$$$$ ainda nas redes, “forçando” um discurso positivo sobre toda a porcaria que eles lançarem, como nossas linhas do tempo serão tomada de assalto por isso. Fugir para as montanhas não será o suficiente para não ser destruído por estilhaços da guerra virtual tão imbecil quanto improdutiva que ocorrerá. Afinal, se hoje em dia ela já existe quando determinados energúmenos dão piti histérico quando falam mal de seu filme preferido da vida por aí, imaginem se isso for determinante para que a obra concorra ou não a uma estatueta de um careca dourado?

(c) Agregadores de avaliações:

Os agregadores de críticas, além de serem as epítomes da preguiça mortal em ler críticas, são constantes alvos daqueles que “discordam” do resultado final porque “ai, meu filme favorito da vida é o melhor do mundo”. E, se é complicado definir o que é um filme popular, é mais complicado ainda entender a mecânica usada para fazer a agregação pelos diversos sites existentes, já que cada um usa seu racional, certo, errado ou muito pelo contrário.

Fico imaginando – e temendo – que alguém um dia tenha a ideia de fazer uma “média das médias” e use isso para determinar o que é popular. Na verdade, temendo não. Fico mesmo é curioso para assistir o caos que isso seria e a gritaria de todos os lados que geraria. Vou até comprar a pipoca para assistir de camarote…

(d) Votação popular:

Acho pouco provável que a Academia desprenda-se de votar nos indicados e nos vencedores de qualquer categoria da cerimônia, mas um filme “popular” talvez peça uma votação popular. Os pontos problemáticos disso são notáveis e não vou perder tempo exaurindo-os. Basta fazer as seguintes perguntas (i) quem poderá votar, só americanos, o mundo todo?; (ii) como será a votação?; (iii) como identificar os votantes.

Pois é, seria o inferno na Terra e que potencialmente não resolveria o problema, só o agravaria e transformaria o Oscar não no MTV Movie & TV Awards, mas sim em uma verdadeira feira.

*****

No final das contas, ainda que as duas primeiras ideias “brilhantes” da Academia não sejam particularmente problemáticas (mas a segunda é sim extremamente prejudicial para os diretamente implicados), a terceira é uma proverbial ideia de jerico. Não bastasse as dificuldades inerentes em determinar-se a popularidade de um filme, aqueles que concorrerem nessa categoria parecerão aquelas crianças que almoçam separadas dos pais em um restaurante: ficam naquela mesa ali toda bagunçada, mas longe para não atrapalhar ninguém. E, pior ainda, essa categoria muito provavelmente seria sitiada e dominada pelos grandes estúdios, em regime de revezamento…

Confesso que não tenho fórmula mágica para resolver o problema da queda de audiência do Oscar, mas creio que qualquer tentativa nessa linha passe por uma reformulação maior do significado e dos gastos com a cerimônia. No lugar de inventar uma categoria bobalhona como essa, seria melhor que a Academia criasse outras, potencialmente mais interessantes, como Melhor Dublê (ou Coordenação de Dublê), Melhor Elenco, Melhor Uso de Músicas Pré-Existentes, Melhor Coreografia Musical (quando houver filmes suficientes para permitir essa escolha, claro) e até mesmo Melhor Atuação Via Captura de Performance (sobre esse assunto, escrevi outro Plano Polêmico, que pode ser lido aqui). É mais categoria e, portanto, mais tempo, mas seria no mínimo uma lufada de ar fresco que, com criatividade na apresentação, podem render frutos.

O Oscar tem uma função: celebrar o Cinema premiando os melhores. Se concordamos ou não que determinado filme mereceu a estatueta, isso são outros quinhentos. O problema é que, à guisa da busca insana por mais espectadores, a Academia resolveu pegar sua cerimônia e transformar em uma bobagem genérica que premia todo mundo.

A bola foi levantada. Agora está na hora de vocês, leitores, cortarem!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.